polygraph ruscha



I mentioned this to Mr. Ruscha, thinking he’d find it amusing. His response caught me off guard. “New Topographics? Never heard of it. What are you talking about,” he said.

I stammered something about the group of art stars that were included, like Stephen Shore, Robert Adams, Lewis Baltz, and the Bechers. “Surely, you must know who I’m talking about?”

“Nope,” he replied. “Never heard of them.”

Voltemos ao prazer solitário do blogging através desta estória fantástica.

nihilsentimentalgia



Datam mais de 6 meses desde o último post no blog. Entrevi um fim na “entrevista” com o André Cepeda. Pelas imagens, pelo conteúdo e pela forma, seria uma bela maneira de deixar de existir, bloguisticamente falando.  Sem avisar, sem despedidas, sem nada. Nada mais para dizer, para apresentar, para contestar, bem ou mal. Por outro, lado o esforço de coexistir enquanto fotógrafo, estudante e ainda o labor tremendo que um blog – escrito assiduamente – trás. Mas o interesse e o gozo de escrever, de aprender, de partilhar, nunca desapareceu. Talvez por isso, aparece agora, do nada, outro “nada”: Nihilsentimentalgia. Queres escrever, perguntou a Sofia, está bem, respondi-lhe. Espero não ser um colaborador tão irregular como aquele que fui aqui nos últimos tempos.

rien, entrevista com andré cepeda




Na sequência do lançamento do seu novo livro RIEN, através da editora Pierre von Kleist uma pequena conversa com o André Cepeda sobre fotografia, livros, vida. A conversa com o André decorreu enquanto ele esteve presente numa residência artística em São Paulo, pelo que este nosso diálogo, apesar de escrito, teve um curso algo deambulante, o qual acabou por se constituir também em desafio de montagem/transcrição. A 15 de Dezembro irá ser apresentada a série RIEN no Museu do Neo-Realismo em Vila Franca.



João Henriques – André, comecei por te fazer algumas perguntas, da mesma forma que faço a outros convidados, mas as tuas respostas foram subvertendo esse curso, pelo que transcrevo algo do que me escreveste, na esperança de que os leitores, nesta espécie de “entrevista sem perguntas”, ainda assim possam encontrar um caminho e um sentido para esta troca de ideias…

André Cepeda – Quando iniciei a minha carreira em 1999, tomei uma decisão muito séria. Depois de ter estado desde miúdo envolvido na fotografia, devido à relação que a minha mãe tinha com os Encontros de Fotografia de Coimbra, dediquei-me desde muito novo a fotografar e a tentar criar o meu olhar dentro das influências que ia tendo e descobrindo. Mas desde sempre, e ainda hoje, que a minha relação com a fotografia é a mesma. É algo que, mesmo para mim, é difícil de explicar através de palavras. Existe uma necessidade muito grande em explorar aquilo que tenho para dizer, de tentar experimentar o máximo possível de coisas, explorar o próprio processo fotográfico, a sua linguagem, como fiz no RIEN.



“Dificultar as coisas até ao limite,

tentar olhar para o nada, o vazio,

até conseguir encontrar-me nesse espaço.



“A dança da realidade

a impotência da fé

exercício da solidão

o confronto no auge da representação da palavra e da acção, do gesto, da ideia”



Muito do meu trabalho é para mim um exercício de como olhar. Para um objecto, ou um corpo. Qual é o enquadramento que vou fazer, qual a minha relação e como me vou relacionar com o que estou a ver, qual é a distancia certa para fotografar, como é que tudo se relaciona com o que estou a fazer, fará sentido com as imagens que fiz antes…



…são as próprias imagens que me conduzem. São as imagens que vou fazendo que me levam a reflectir no que poderei fazer a seguir, quase como se estivesse a construir uma narrativa cinematográfica, mas de uma forma mais abstracta, em que a história não interessa para nada, mas sim a minha experiência e aquilo que eu quero descobrir.



JH – RIEN parece ter ligações óbvias com ONTEM, e digo parece, porque nem sempre o óbvio o é assim tanto. O termo documental talvez seja uma catalogação ineficaz para esta tua fotografia…

AC – Pois podes dizer que o “Ontem” tem uma linguagem documental, mas quem está ali acima de tudo sou eu. O livro tem de facto uma construção documental, uma ideia de base, que fala sobre um território específico e um género de pessoas, mas a construção da narrativa é ficção, e quem está ali a viver aquilo durante 4 anos sou eu. Aquilo que me interessa é crescer e aprender com os meus projectos, com aquilo que faço. Ainda hoje aqui em São Paulo, estava a apresentar o meu trabalho, eles perguntavam-me o que estava a fazer aqui, qual era o projecto, a ideia, como estava a desenvolver o meu trabalho. E eu respondi que não sabia, que essa liberdade, essa indefinição de não saber o que estava a fazer, era a melhor coisa para mim. Deixo-me guiar por um instinto, por algo que não sei explicar, que é muito sensível, ténue, com fronteiras muito próprias. Existe um momento em que as coisas se clarificam, que por si próprias ganham forma e razão de existir, tornam-se um corpo de imagens que serão posteriormente editadas, seleccionadas e mostradas Acho que quanto menos controlar aquilo que faço, quanto menos explicações arranjar e argumentos, mais prazer me dá trabalhar, mais as coisas correm melhor, mais aprendo com aquilo que faço e mais me surpreendo. Pois o improviso e a liberdade de não estares preso a nada, de poderes reagir no momento, de estares atento ao teu instinto, isso é que é importante para mim.

Depois de passar a fase de fotografar e quando sinto que quero parar, dou sempre bastante tempo até começar a olhar para o que fiz e começar a editar o trabalho. Sou sempre eu que escolho os designers com quem quero trabalhar, pois cada designer tem um estilo próprio. O livro é produzido em equipa. Sou eu, a Sara (a minha mulher), o designer e o editor ou neste ultimo caso, os editores. Todas as decisões são tomadas em conjunto e costumo dizer que o livro é tanto meu como deles. Neste processo existe algum tempo de pesquisa para que o livro seja produzido de acordo com o trabalho. Desde o inicio que começo a fotografar, o meu objectivo é fazer um livro, o rigor e o aspecto técnico são muito, muito importantes, estamos a falar de um livro, que é feito de papel, que leva tinta, verniz, e tem uma sequência de imagens com uma capa. São muitos elementos distintos, e as decisões que se tomam são para sempre e têm que ser bem pensadas e testadas. Este processo leva muito tempo e é muito doloroso. Cada livro é uma viagem diferente.



Um desejo.

Sobre um desejo.

Sobre a dúvida e a incerteza.


do fim para o nada



 

Disappearance of Darkness, Robert Burley



Employee Identification Board, Polaroid, Enschede, The Netherlands, 2010

 

End of Employee Meeting, West Parking Lot, Last Day of Manufacturing Operations, Kodak Canada, Toronto, 2005

 

Film Coating Facitlity, Agfa-Geveart, Mortsel, Belgium [#2], 2007

 

After the Failed Implosion of the Kodak-Pathé Building GL, Chalon-Sur-Saône, France, 2007

 

Paper Finishing Building, Ilford, Mobberley, United Kingdom, 2010

 

Executive Entrance, Building 7, Kodak Canada, Toronto, 2005

 

Darkroom, Building 3, Kodak Canada, Toronto, 2005

The photographic materials and systems I’ve used throughout my career are disappearing at an alarming rate. Over the last five years, companies such as Kodak, Agfa, and Polaroid have been pushed into an economic free-fall as the demand for their long-established products has evaporated. The end of the analogue era is evident in the recent closings and demolition of large-scale manufacturing facilities dedicated to the production of conventional photographic products.”

Há todo um edifício teórico que desaba perante a perda de materialidade da fotografia, nomeadamente aquele que responde perante a verdade do “documento”. Disapperance of Darkness de Robert Burley é justamente sobre parte dessa perda. Todo um mundo que desaparece diante dos nossos olhos, em que é a luz que curiosamente revela a escuridão do desaparecimento, conforme o belo e metafórico título enuncia. O peso da nostalgia, que o tempo se encarregará de transformar em leve memória.

hortas urbanas, jorge miguel



Trabalho fotográfico de 2010, mas pleno de oportunidade e actualidade, acerca da sobrevivência, da resistência, das formulas ancestrais de sustentação material agora actualizadas para lugares que não parecem ser os seus. Hortas Urbanas, de Jorge Miguel, visível até 3 de Dezembro no piso superior da Fábrica Braço de Prata. Curiosamente, pode ser visto actualmente um projecto semelhante a este, mas pelo que soube desconheciam a existência um do outro aquando das respectivas execuções. Essas imagens são de Sérgio Domingos, estão enquadradas na exposição URBE, na Oficina de Cultura, durante o mês da fotografia, em Almada.

 

candidates, pascal fellonneau



 

 

 

 

 

Divertido. Demagógico. Sarcástico. Político. Enfim, cada um julgará por si, contudo parece inegável a qualidade da contribuição “apropriacionista” de Pascal Fellonneau com este Candidates.

los encargados, jorge galindo & santiago sierra



LOS ENCARGADOS
Jorge Galindo y Santiago Sierra,
Gran Vía, Madrid, 15 Agosto 2012

Vivem-se tempos conturbados. As práticas artísticas procuram acompanhá-los com igual ou mais contundência do que a da propaganda e da contra-informação a que diariamente se está exposto. Com Los Encargados, Galindo e Serra parecem optar por travar essa luta de igual para igual, em intensidade, em meios materiais, em poder de mensagem, a qual aliás nem precisa da palavra para se fazer ouvir. O que para uns será certamente um desperdício de meios, para outros é certamente uma obra de vigor artístico, a reter não apenas pela complexidade de efectivação, mas também pelas camadas conceptuais que enuncia.

irrational exuberance, steve smith







Irrational Exuberance, de Steve Smith.

Steve Smith não se limita a apresentar a paisagem “domesticada”, como tantos outros projectos que documentam a relação do homem com a natureza. Importa sobretudo perceber que relação é essa e que outras relações estão em causa. Embora a série seja algo mais vasta, procura-se aqui editar de forma um pocuo mais apertada realçando ligações entre os que desfrutam da paisagem e os que nela trabalham para que outros desfrutem. As relações são de ordem social, económica, política, aflorando questões de imigração, desigualdade, discriminação, emprego, poder, uso da terra, propriedade, estatuto, entre outras.

 

32 inch ruler / map of babylon, john gossage




 

Fruto da última incursão à STET, assentou nas prateleiras caseiras o livro de John Gossage intitulado The 32″ Ruler / Map of Babylon. Não é comum o post alusivo a aquisições livreiras, no entanto um email anunciando a exposição dessa série numa galeria parisiense, acabou por promover esta reflexão que se partilha. O facto de o mesmo ir ser exposto numa galeria, não foi o que realmente despertou interesse, contudo, nesta digressão, esse dado não pode ser escamoteado. Estas imagens estão numa galeria, à venda em dimensões de 60×90. São imagens que se desviam da linhagem do “decorativismo e papel de parede”, que uma boa percentagem das galerias geralmente exibe durante a Paris Photo. Grande ou, de preferência, que dê com os cortinados, parece ser o mote geral, pelo que apenas isso já seria digno de nota neste conjunto de fotografias.

Uma obra, que curiosamente é sobre decoração, a regra e esquadro, para ser mais preciso, onde se tangencia o viver idiosincrático dos americanos endinheirados, sobretudo através das casas onde moram, dos carros que compram, das decorações dos interiores das casas, enfim, das aparências. Americanos com poder, note-se, pois que se trata do bairro de Kalorama, em Washington, onde habitam diplomatas, políticos, enfim o género de pessoas que Gossage habilmente não mostra, ampliando desconfortavelmente a invisibilidade real, por contraposição à mediática, daqueles que mandam.

As fotografias são simples, mas na aparência apenas. Seria fácil constituir uma série política e documental sobre Washington que relevasse das questões que habitualmente povoam o imaginário foto-documental: violência, racismo, desigualdade, etc., mas esse nunca é a mira de Gossage. De uma enorme precisão composicional, tiradas sempre em dias ensolarados e de céu azul, onde desfoques selectivos remetem para complexas relações figura-fundo, são imagens subrepticiamente irónicas, embora um olhar menos avisado possa dizer que se trata de um livro para “tias republicanas desfolharem na hora do chá”. O próprio design do objecto parece a certo tempo transformar-se em catalogo de decoração, com “etiquetas” cromáticas semelhantes às que se podem presenciar em mostradores, de tecidos, de alcatifas, enfim, de produtos decorativos.

John Gossage é actual e provavelmente um dos grandes autores de culto da fotografia, por culto entenda-se pouco conhecido fora do meio fotográfico e sobre o qual recaiem as atenções (do meio) de cada vez que lança um novo trabalho seu, ou desenhado por si. Os livros que produz são de um modo geral construídos a partir de layers nem sempre óbvios, de uma complexidade formal e conceptual estudada, sendo cuidadosamente desenhados e editados. Talvez uma fotografia que primeiro se estranha, mas que depois se entranha, de um autor que merece maior (re)conhecimento.

blue mud swamp, entrevista com filipe casaca



Com o Filipe Casaca e a pretexto do seu livro Blue Mud Swamp dá-se início a um ciclo de entrevistas com autores que publicaram recentemente livros de fotografia. Trata-se de um projecto fotográfico efectuado na China, na sequência de outros autores portugueses que tem dedicado atenção ao Oriente. O projecto fotográfico “fora de portas” tem sido fonte de continuado apelo para os fotógrafos, alimentando por vezes a ideia equívoca de que Portugal não tem interesse fotográfico, e por vezes a expectativa entre a comunidade de que, pelo facto de fotografar no estrangeiro, o autor poderá atingir uma espécie de maioridade autoral. A esse tipo de preconceitos somem-se alguns handicaps deste tipo de projectos, em que por vezes se labora tangencialmente à fotografia de turismo, onde se não sente integração ou empatia do autor com o meio, onde o desconhecimento, onde a falta de tempo, de meios,  faz com que se plasmem obras de pouco destaque. Blue Mud Swamp de Filipe Casaca parece ser uma dos casos felizes  de “contorno” a esses obstáculos, afirmando-se de qualidade em vários níveis, desse modo destacando-se de alguma mediania nesse tipo de propostas autorais.

João Henriques – Filipe, conversemos um pouco primeiro sobre o teu novo livro “Blue Mud Swamp” e depois iremos ao teu anterior, “A minha casa é onde estás”. De onde surgiu esta série, o que é que te levou a ir fotografar para a China, de que modo pensas que pode este trabalho ser interessante para quem o vier a ver?

Filipe Casaca – Decidi ir a Dalian por ser uma cidade com características diferentes daquilo que já conhecia da China. Tem uma forte ligação com o mar, atracções naturais e infra-estruturas lúdicas que a tornam procurada pelo turismo interno. Poderia resultar numa nova abordagem e acrescentar ao entendimento desta cultura. Agrada-me a ideia de que cada pessoa possa fazer a sua própria interpretação sobre o que apreende deste trabalho.

JH – Pelo que se pode ver no teu site, continuas interessado no Oriente. Sobre o que é o Japan?

FC – O Oriente… Há uma frase do Junichiro Tanizaki que talvez ajude a explicar este meu interesse; “Contrariamente aos Ocidentais que se esforçam para eliminar tudo o que se assemelha a uma mancha, os extremos-orientais conservam-na preciosamente, e tal e qual, para fazer um ingrediente do belo. É uma desculpa, dir-me-eis, e aceito-o, mas não é menos verdadeiro que amamos as cores e o lustro de um objecto maculado pela sujidade, pela fuligem ou pelas intempéries”.

Japão é um “work in progress”. Inicialmente o interesse pelo Japão começou naquilo que eu conhecia da cultura, do cinema e da fotografia. Agradava-me o nível experimental e a ausência de ideias preconcebidas no mundo das artes. Agora também me interesso pela sua música de improvisação. Depois, com a convivência, desenvolvi fortes laços de amizade, que ajudam a entender o porquê deste meu interesse.

Para os meus projectos atrai-me principalmente a diferente forma de ver o “mundo”, a complexidade que está por detrás das coisas aparentemente mais simples e vulgares. O Japão não é assim tão facilmente perceptível e apreensível, é preciso “descodificar” as suas várias camadas de informação, desde a “Big Picture” até ao ínfimo detalhe.

 

JH – Como é que se fotografa lá fora? É uma pergunta estranha, mas na qual tenho curiosidade, pois tenho alguma dificuldade em fotografar fora de sítios com os quais não estou familiarizado. Como se faz com as pessoas sobretudo?

FC – Tento fotografar no estrangeiro como fotografo cá, não faria sentido de outra maneira. A minha atitude mantém-se receptiva, tentando integrar-me na conduta social que consigo apreender acerca do lugar onde me encontro. Acima de tudo há que comunicar com as pessoas…

 

JH – É curiosa a associação que fazes com a palavra, através do texto do Mingyu Wu. Em que medida é um texto desses estruturante de uma série e deste livro? O que é que a palavra trás?

FC- O texto da Mingyu Wu foi realizado para esta série na sequência de um desafio que lhe lancei. Queria conhecer a ideia que este trabalho lhe transmitia. Não queria um texto sobre fotografia mas algo que vivesse por si próprio, embora baseado em conceitos que estão presentes no trabalho.

JH – Como é que construíste esta série? Levaste uma ideia predefinida? Foste fotografando e no final começaste a juntar as peças?

FC – Já tinha uma ideia definida, aliás, o projecto foi desenvolvido no âmbito de uma bolsa de criação artística da Fundação Gulbenkian. Claro que apesar de ter já algumas ideias, evito fechar-me sobre elas, de forma a dar espaço para outras opções que me são dadas a conhecer no momento. Na prática há sempre um conjunto de ideias e sensações que vêm à posteriori quando estou a realizar e também a editar um trabalho que são determinantes para o resultado final.

 

JH – No teu site já é visível algo daquilo que criaste, mas a experiência de visualização de um livro é sempre diferente. Aliás, devo-te dar os parabéns, o livro é um prazer, em termos de objecto físico, desde o material da capa, à qualidade da cor e da impressão, até à forma como editaste e paginaste, numa experiência que resulta densa, imersiva. A minha curiosidade reside em saber donde vem estas escolhas, porque é que escolheste full bleed, porque é que optaste por um escurecimento pronunciado da imagem, no fundo, os porquês destas opções formais.

FC- Para mim um livro de fotografia além de visual é também algo muito táctil. Dou muita importância ao trabalho do designer e procuro que todos os detalhes e materiais estejam em consonância com a minha ideia. Neste caso optei pelo full bleed porque queria que as imagens criassem uma sensação visual de expansão para além do seu suporte; não as queria “aprisionar” no tom do papel. A densidade pronunciada das imagens está relacionada com a forma como expus o slide; esse aspecto foi mantido na impressão, para ajudar a criar uma sensação de algo um pouco natural.

JH – Poderia tentar nomear aqui algumas influências que me parecem visíveis, mas em todo o caso será melhor ouvir de ti: que outros livros ou fotógrafos te influenciaram para construir este livro?

FC- Há um filme de que me lembrei várias vezes durante este trabalho, o “Suzhou River”, de Lou Ye.

JH – Embora não conheça esse filme, pelo que vejo no IMDB faz todo o sentido, aquilo que dizes. Seguiste um formato exterior parecido neste livro com o teu anterior, “A minha casa é onde estás” apesar de, depois, todo o layout interior ser completamente diferente. Que experiências retiraste da construção do 1º livro para este segundo.

FC- Quis manter propositadamente o mesmo formato do livro anterior, mas mudar a relação de escala entre as imagens e o seu suporte. Cada livro é em si próprio uma experiência única, e todas as necessidades adequam-se muito ao que o trabalho do próprio livro pede. Mas talvez acima de tudo na edição das imagens, mais alguma experiência no processo de produção gráfica e gestão de recursos.

 

JH – A esse pretexto talvez possamos falar um pouco agora sobre esse teu primeiro livro, “A minha casa é onde estás“. Ao contrário do Blue, trabalhaste a preto e branco, sobre uma visão mais privada. Existem elementos de ligação entre os 2 trabalhos?

FC – Existem. Apesar do livro “a minha casa é onde estás” pertencer a um mundo íntimo, neste caso a relação com a Teresa, o carácter pessoal como eu a representei está ligado a algumas questões que me interessam desenvolver nos meus trabalhos em geral, e à forma como abordo os temas. No elemento humano gosto de me deter nas particularidades do corpo, na sua ausência de movimento, na sua tensão, nas posses naturais e inconscientes, aparentemente comuns, mas de alguma forma diferentes… De perceber tanto o “peso” como os “efeito do tempo” nas matérias-primas e nos espaços, e a forma como reflectem o seu processo natural de envelhecimento.

Pretendo também que as imagens não fiquem presas unicamente ao que é visível, mas que levantem outras questões que estão omnipresentes. Penso que há uma certa transversalidade na forma como represento os temas, que pode ser um “reflexo” de mim próprio.

 

JH – O que é que te parece desta tendência de trabalhos fotografados em diferentes modos, câmeras, processos (no teu caso é apenas uma alteração cromática), quando uma certa linha anterior – e ainda actual – aponta para uma constância desses factores, numa espécie de constituição de assinatura pessoal que o mercado parece valorizar?

FC – Uma assinatura pessoal de um fotógrafo não é somente marcada pela técnica e estética que utiliza, mas sim pela forma como aborda o tema em si. Não queria utilizar a expressão “o olhar do fotógrafo sobre” mas é algo deste género. É perfeitamente possível usar uma mistura de técnicas e de estéticas, sem desvirtuar um corpo de trabalho. Há um tipo de abordagem própria que cada fotógrafo tem, que vai além de questões formais, pois tem a ver com a forma como representa as suas ideias, o que por si só uniformiza o trabalho.

 

JH – Por outro lado, o que é que uma auto-edição ensina e quais as suas dificuldades? Desde a parte da concepção estética e artística até à materialidade, desde o design à impressão, acabamentos, etc?

FC – Uma auto-edição levanta imensas questões, desde a forma como o trabalho é apresentado em livro, ou seja, como é feita a sequência das imagens, questões de design e todas as técnicas relacionadas com o processo gráfico. Procuro sempre opiniões e conselhos, mas como se trata de uma auto-edição a decisão final é sempre da minha responsabilidade. Depois, claro, vem o quebra-cabeças da gestão dos custos… Por estar 100% envolvido em todos estes aspectos é muita pressão, mas adquire-se uma aprendizagem nestas várias vertentes.

JH – Como é que se financia uma auto-edição desta qualidade em Portugal, actualmente e face à exiguidade de fundos para cultura e a ainda menos, para fotografia?

FC – É uma luta constante e desgastante. Tenho conseguido através da venda de fotografias, que leva o seu tempo! Neste último caso foi possível também graças ao apoio da Catarina Ferrer, da Galeria Pente 10. Decidimos fazer uma edição conjunta o que permitiu ajudar a financiar o livro. As vendas do próprio livro, em Portugal, mas essencialmente no mercado internacional, contribuem muito para o retorno desse investimento a médio-prazo.

JH – Como achas que vai o mercado editorial de livros de fotografía? Qual é o feedback dos leitores?

FC – Nos últimos tempos tem havido um boom positivo para o livro de fotografia. As editoras independentes e as edições de autor têm uma maior possibilidade de ver o seu trabalho divulgado no mercado nacional e muito mais no internacional. Há uma abertura por parte das livrarias da especialidade (tradicionais e on-line), há feiras da especialidade e exposições de livros. Parece que o número de pessoas interessadas em livros de fotografia tem vindo a aumentar, o que é óptimo!

strawberries in winter, freya najade



tomate
alface

pêra

Já por aqui tinha passado um trabalho de grande qualidade sobre as estufas enquanto modo de fazer agricultura, de Daniele Cinciripini. Neste STRAWBERRIES IN WINTER de Freya Najade note-se como o formalismo e o rigor composicional adicionam a um percepção de mecanicidade, de cientificidade destes modos de produção, donde a forma natural e humana se faz ausente, em proveito de uma extracção artificializada, que subverte os mecanismos normais de reprodução e colheita.

a ver em

http://freyanajade.com/?page_id=82

 

thomas jackson



The hovering sculptures featured in this ongoing series of photographs are inspired by self-organizing, “emergent” systems in nature such as termite mounds, swarming locusts, schooling fish and flocking birds.Thomas Jackson.

new americans



Aproveitamento contemporâneo por Doug Rickard do Google Street View para ilustrar os novos modos em que se faz e pensa um determinado tipo de fotografia. Será interessante perceber de que modo estas abordagen se inserem na esteira dos grandes nomes da fotografia americana que contribuiram para projectos de documentação com o intuito de promover a mudança e a reforma social.

Wilhelm Brasse



Auschwitz Museum


“And one of Brasse’s great acts of heroism is that when he was ordered to burn all of the mug shots, he saved tens of thousands. It’s part of the lasting evidence of the horrors of Auschwitz.” Aqui.

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«  [...]  même  rayé  à  mort
un simple rectangle
de trente-cinq
millimètres
sauve l’honneur
de  tout  le  réel.  »
J.-L. Godard, Histoire(s) du cinéma, Paris,
Gallimard-Gaumont,  1998, I, p. 86.

imagens aprisionadas



The photograph, which was forcibly taken by the political police, became another weapon of opposition against the regime in the sense that the subjects’ intimate ability to choose the expression with which they faced the camera was one more affirmation, albeit a very subtle one, of that individual freedom for which they were collectively fighting. The images of these faces, which retain their basic function as stereotypes due to their documental and archival status, are finally transformed by artistic interpretation into people with histories of political resistance, consecrating themselves through this public act of describing and looking at the epilogue of a lengthy period of activity intended to win freedom. (…) Democracy has been fighting against some degree of official and political resistance to this aspect of national history, perhaps out of a form of categorical tolerance and the appeased character of the Portuguese people, thereby placing amnesia on an ethical level that serves discourses of power and the elimination of themes that might fracture society. In this sense, every action that tends to overcome this historical and political failure constitutes a fundamental contribution to activating the collective memory and analytically documenting that which has all too often been treated in an abstract and generalized way.




Imagens do documentário 48 de Susana Sousa Dias, sobre prisioneiros da polícia política portuguesa – PIDE – retiradas deste artigo de Emília Tavares. Dele, resgata-se a idéia, e o testemunho, de que a forma como os prisioneiros políticos enfrentavam a camera, se “deixavam” fotografar, seria uma forma de resistência e de afirmação individual de liberdade. Esse dado trouxe à memória um trabalho de retrato de Marc Garanger, o qual
, enquanto incorporado no exército francês, fotografou para efeitos de identificação milhares de civís argelinos, num momento quente da luta argelina pela independência da França. Dois casos afirmativos da força política da imagem, a estudar, num momento de importantes acontecimentos à escala mundial. A este pretexo, e também uma vez que se convoca o nome de Susana Sousa Dias, uma das responsáveis pelo DocLisboa, refira-se o excelente contributo da programação do festival deste ano.

 






 


united states of europe



 

A identidade tem sido uma mina de incessante exploração artística. Tal como noutros mitos, é a intangibilidade (da identidade) que permite aproximações contínuas, sem fim à vista, mas também sem cansaço. United States of Europe é uma exposição sobre a temática da identidade europeia, a qual passou por Guimarães onde infelizmente não fui, aliás, nem sequer ouvi falar. Recebe-se tanta informação, agora com o facebook  chovem convites disto e daquilo e nada, ninguém mencionou, a mensagem não chegou. Com a fraqueza, aliás, pasmaceira, fotográfica que grassa neste país, é caso para lamento. Mas deixemos  a ironia. A quem se quiser inteirar de que se trata resta este site, ou em alternativa, viajar até um dos locais onde ainda  estará exposta.

novos-novos



Amanhã, mais uma etapa do ciclo conversas à volta da fotografia, onde sou convidado a participar com alguns dos recentes valores da produção contemporânea lusa da fotografia. O mote será a apresentação de trabalho dos autores, o qual será depois brevemente dissecado por um dos moderadores. Apareçam para um olá, pelas 19h na Sá da Costa, ao Chiado, em Lisboa.

colorfield, claire dorn



Claire Dorn.

documentary database



Base de dados internacional para a fotografia documental. De Portugal nada consta, todavia assim haja interessados aí fica o contacto para www.dutch-doc.nl.

the [virtual] face of freedoom



“Triumphant photos do not figure here. Or at least what triumphs there are are triumphs in the minor mode.”

Tem-se assitido recentemente ao aparecimento do museu online, sendo este TEUTLOFF MUSEUM um dos mais interessantes exemplos do museu desmaterializado, cujas virtudes não são pequenas, nestes tempos de escassez de fundos. Não se imagina o quanto pode ser onerosa uma exibição de qualidade nos dias que correm, entre custos de transporte, seguros, montagem e produção, fees para o artista, etc. Por outro lado, a possibilidade quase infinita de se juntarem virtualmente obras que de outro modo seria praticamente impossível. Evidentemente que a experiência nunca é a mesma de ver ao vivo as obras em questão, nem sequer a substitui, mas o potencial da iniciativa parece inquestionável. Se depois, do ponto de vista pragmático e programático, se erguem exposições fluídas, criativas, críticas, esse é outro assunto.

A presente exposição virtual intitula-se The Face of Freedoom e a avaliar pela 1º imagem, sempre um  momento incontornável na retórica discursiva de qualquer exibição, estamos perante uma liberdade frágil, sob escrutínio, vigiada, pelos media e pela força, depois complementada nessa mesma sala pela ideologia, pela luta, pela violência, e por uma bela peça de Christian Boltanski. Na sala seguinte, uma sequência interessante da montagem, uma imagem do fotógrafo João Silva (perdeu ambas as pernas ao pisar uma mina no Iraque), outra de Dario Mitidieri (feita no Iraque), e que fotografara no passado crianças amputadas, ambas seguidas de uma intervenção performativa da artista Regina Galindo que se fotografa a colocar um pé numa bacia ensanguentada.

Apesar de uma ou outra achega da faceta artística mais “contemporânea” o tom pende para o lado “preocupado” da fotografia, alíás o subtítulo do museu the contemporary family of man deve querer dizer alguma coisa. Passa por aí a palavra que o documentário social está morto, que o fotojornalismo também, que existe um cansaço por este tipo de imagens, etc. Pelos vistos, a Internet tem uma palavra a dizer no revidar dessas abordagens, e ainda bem, pois a pluralidade serve a todos, havendo exemplos recentes de excelência nesses campos. Uma visita virtual?

 

street



Mishka Henner

Jon Rafman


A assemblagem de imagens retiradas da Internet é uma fórmula que tem vindo a ser progressivamente explorada por diversos autores, destacando-se Doug Rickard, Michael Wolf, Mishka Henner, Jon Rafman, Joachim Schmidt, como dos mais prolíficos nesse capítulo. Questões relevantes sobre esta abordagem poderão dizer respeito a  autoria, originalidade, autenticidade, simulacro, real, vigilância, voyeurismo, democracia, arquivo, entre outras. O acesso a realidades que de outro modo seriam de dificil apresentação parece ser um dos aspectos que maior apelo teve para alguns desses artistas visuais. A fotografia como se conhece, o trabalho com imagens, a dar origem a novas derivações em que especialmente o “momento decisivo” parece estar a passar para as mãos da máquina, descoberto, seleccionado e editado à posteriori, mantendo no entanto intactas algumas das perspectivas da fotografia nos seus modelos mais tradicionais. Convoca-se todavia a nostalgia das imagens de grande qualidade e “craft”, que nestas aproximações parece ser uma das caracteristicas que se desvanece, em prol da resolução crua, pixelizada, quase fora dos limites do visível e do legível.

curator



Is art a force for change and renewal, or is it a commodity for
advantage or convenience? Is art a radical activity, undermining social conventions, or is it a diverting entertainment for the wealthy? Are artists the antennae of the human race, or are they spoiled children with delusions of grandeur (in Roman law, a curator could also be the appointed caretaker or guardian of a minor or lunatic)? Are art exhibitions “spiritual undertakings with the power to conjure alternative ways of organizing society,” or vehicles for cultural tourism and nationalistic propaganda?

Interessante artigo de David Levi-Strauss sobre arte e o papel do curador.

archivo_zine



Archivo. Zine portuguesa de fotografia cujo mais recente número dedicado à paisagem.

killed



Como é que se mata uma fotografia? Mete-se-lhe um buraco no meio. Questão interessante, sem dúvida, mas cuja retórica permite também perguntar: será que as fotografias morrem?

A fotografia foi tendo na sua história uma forte ligação com a morte, simbólica, literal, ou até na sua própria génese (o memento mori barthesiano, por ex.). Um dos momentos pioneiros do fotojornalismo e de toda a fotografia documental preocupada foi o projecto americano de documentação da Farm Security Administration (1935-42) do qual fizeram parte, entre outros, os fotógrafos Walker Evans, Theodor Jung, Carl Mydans, Marion Post Wolcott, Arthur Rothstein, Ben Shahn and John Vachon, projecto esse que esteve na origem deste trabalho de arquivo, compilado por William E. Jones, minando imagens disponibilizadas publicamente na Library of Congress.

Deste projecto constam imagens que o director do projecto, Roy Stryker, condenou a não verem a luz do ampliador, algumas delas apresentadas no vídeo Punctured com que se inicia este artigo, posteriomente também editadas no livro
Killed. William E. Jones, possuído de uma febre de arquivo, e proseguindo na temática gramatical, autopsiando o legado da FSA, conduz-nos vertiginosamente através da cicatriz-censura fisicamente presente nas imagens, exercendo uma dupla censura através do impedimento de uma leitura mais demorada, corporizada no ponto negro central a partir do qual a imagem nos é brevemente dada a ver.

As imagens morrem, ganhando uma segunda vida através deste projecto, remetendo essa ressureição para a ponderação acerca das razões e mecânicas da sua destruição/censura, mas também para a persistência da imagem, e naturalmente, num momento em que o arquivo constitui mais um campo exploratório da prática fotográfica e artística contemporânea, para através dele se vislumbrarem novas visões da história. Uma brilhante lição sobre a utilização do arquivo para destapar políticas das imagens, mas também imagens políticas.

Barreira Invisível



Porto de Cavaleiros

 

Prado

 

Fiacção

Marianaia
Matrena

Barreira Invisível – Linha do Nabão: Inquérito à Paisagem é o título da exposição colectiva de fotografia dos alunos do Mestrado em Fotografia do IPT que inaugura dia 10 de Outubro, no Centro de Arte e Imagem em Tomar, pelas 18h.

Trata-se de um trabalho colectivo realizado pelos alunos do Mestrado em Fotografia do IPT, do qual faço parte, sob a orientação do prof. Nuno Faria, onde se plasma um projecto/exercício fotográfico de cariz topográfico, de mapeamento, constituído em torno dos principais eixos fabris que existem nas redondezas de Tomar. Nele, a representação da natureza revela-se não apenas no lado material, mas onde conflui também o lado imaterial, das ideias, em que noções de fronteira, de limite, de barreira, entre outras, se podem também fazer presentes. Exposição integrada na programação da Bienal de Vila Franca de Xira.