#6 … no país da fotografia



National Catographic Magazine“, de Susana Neves

©Susana Neves

©Susana Neves

Sabendo que tenho uma gata como topmodel particular, uma certa curiosidade me levou às “pétalas de gatos” que a autora mostrou até 8 de Novembro, na Galeria Diferença, em Lisboa. Do texto de Hikaru Katashi A artista quis olhar para os gatos como se fossem flores. E para as flores como se tivessem todas as qualidades felinas clássicas, o mistério, a leveza, a subtil densidade, a capacidade de voo e outras não nomeáveis, a não ser por recurso à arte aristocrática da poesia.”

Susana Neves é jornalista, escritora (biografias de Eduardo Nery e Fernando Assis Pacheco, contos publicados) e parece ter também uma ligação especial com as artes plásticas, pois pinta, fotografa e esculpe. A sua obra denota antes de mais um talento indesmentível para o título, veja-se “Viagem ao Polén Sul”, “A Noiva do Campo Mil” ou o nome do seu blog “quando o rei era sabão“. Neste “National Catographic Magazine” as fotos são-nos apresentadas em díptico, a um felino está associada uma imagem de uma flor, sugerindo-se um casamento entre a flora e a fauna, aqui retratado de uma forma totalmente diversa daquele que a revista (National Geographic) tradicionalmente nos poderia propôr. Li aqui uma aproximação à poesia

(…)
Quando os meus dedos, à vontade, afagam
O dorso elástico, a cabeça,
E a mão se me inebria de prazer
No corpo eléctrico, a apalpá-lo,

(…)”

do poema Le Chat, de Charles Baudelaire (Les Fleurs du Mal), in Assinar a Pele“ (antologia de poesia contemporânea sobre gatos), Ed. Assírio Alvim. Se há autor que facilmente me assoma nesta visão poética florifelina, ele é  David Mourão Ferreira, não porque seja especialmente conhecido por evocar os gatos, mas porque como neste ensaio, nele se urde o sedoso, o macio, a sensualidade e a intímidade. Uma exposição homogénea, ao mesmo tempo simples, acolhedora, aconchegante e embora usando uma linguagem estética sem grandes arroubos, à base do macro, do detalhe minúsculo, furta-se a alguns dos dramas da criação artistica – como afirma Alexandre Pomar – “a pobreza das ideias, a literalidade das formas, a ausência de invenção“. É simples tomar partido por algo que não nos machuca nem nos agride visualmente, pois ainda que as imagens não sejam visualmente fortes, a expressão que evocam forma um todo coerente, goste-se ou não de gatos e de uma certa abordagem poética quase ingénua ou infantil.

Searching for Adam, A New York Imaginary Tale“, de Rodrigo Amado

©Rodrigo Amado

©Rodrigo Amado

Na Galeria Módulo esteve exposta esta série do jazzman e fotógrafo nacional, Rodrigo Amado. O artista já tinha ensaiado a sua aproximação à fotografia, numa outra mostra denominada “Close/Closer” presente na galeria  da Kameraphoto, e também nalgumas capas de discos da editora Clean Feed. Este projecto apresenta-se repartido entre música e fotografia, tendo também sido alvo de um slideshow na Culturgest, aquando do concerto inaugural. É o músico quem afirma tratar-se “Searching for Adam” da sua busca de uma linguagem musical e fotográfica próprias, cujo interesse reside na expressão da arte de “forma pura, sem qualquer associação“, em que “o propósito seria o de contar uma história, não apenas mais uma exposição sobre a Big Apple, de uma perspectiva puramente pessoal, com personagens e ambientes que se encontram em Nova Iorque, mas que poderiam ser de qualquer outro lugar“.

Podendo ser enquadrável numa corrente “fotografia de rua”, o fotógrafo parece demarcar-se não só do momento decisivo que por vezes a pontua, como do estilo de composição dessa estética, geralmente rica gráficamente, mas também já correntemente analisada como portadora de uma outra forma de sedução publicitária. Neste registo fotográfico é aparente uma sobreposição de planos, um certo “fugir das regras”, num registo visual que parece encontrar paralelos no “jazz improv” que pratica. Esta “atonalidade” da fotografia em que o elemento harmónico do pictórico/cromático é substituído pelo olhar menos “melódico”, não deixa contudo de ter aqui e ali algum ritmo, se bem que aparentemente ainda procurando um fraseado mais consistente. Que o Rodrigo Amado possa “continuar a procurar o Adam” e que nunca o encontre, tal como deseja.

Daniel Malhão, Galeria Cristina Guerra

©Daniel Malhão/Galeria Cristina Guerra

©Daniel Malhão/Galeria Cristina Guerra

©Daniel Malhão/Galeria Cristina Guerra

©Daniel Malhão/Galeria Cristina Guerra

Pelos vistos, a arte contemporânea tem sempre mais um lugar para “imagens enormes, visualmente apelativas (???) e muito caras”. Mais uma aparição em formato “grande-é-que-é”, pelos vistos tão caro às galerias, museus e colecionadores abonados, mas de natureza “pouco palpável” ao público “mais comum”, mesmo que informado. A produção de alguns fotógrafos portugueses, parece estar um pouco condicionada por uma estratégia de marketing, assente na raridade, na exclusividade, no status e claramente a pensar “no cliente”. Provavelmente hoje o artista “toma partido” a troco de uma casita, digamos que é o neo ou pós-vanguardismo na sua expressão pragmática. Aliado a esses fenómenos, um discurso narrativo que parece apenas estar preocupado com a propagação de um paradigma universitário, uniformizado na linguagem e nos códigos, previsível, a fazer lembrar a tese académica e as “respectivas normas”, em que a própria tese se encerra mais no cumprir das normas, das formalidades, do que no conteúdo em si. Se a intelectualidade sobre os temas faz (muita) falta no tratamento dos mesmos, o que parece concorrer para um certo desagrado é a excessiva racionalidade com que os mesmos se apresentam, já para não dizer do desinteresse de alguns deles, aqui sou claramente partidário de Popper, simples, mas não simplório. Como é óbvio, quem estiver fora desta corrente dificilmente se “licenciará” com distinção, pois este culto exacerbado que alguns autores-críticos-curadores-museus-galeristas portugueses exibem pelo molde estético “dusseldorfiano” e seus derivados, não parece deixar margens para uma saudável diversidade, criatividade e originalidade na fotografia contemporânea portuguesa, antes gerando uma legião de imitadores e pseudo candidatos ao Be$photo. Anos a fio em que se viveu debaixo da imagética Molder e Blaufuks, menos de Nozolino, sempre muito contido nas suas aparições, a contemporaneidade portuguesa encontrou agora suficiente diversidade na fotografia para encher galerias e bolsos, de tal modo que artistas tradicionalmente ligados a outros meios de expressão plástica, casos de João Paulo Feliciano, João Louro, Pedro Cabrita Reis, etc, a ela se viram agora, na busca do filão expansão do acto artistíco. Dentro em breve se seguirá um novo estilo, o de fotografar “à moda do BES”.

No presente caso de Daniel Malhão, as temáticas tratadas são “o sentido da deslocação, jogos de linguagem, relações de escala e côr, interessando ao fotógrafo olhar a arquitectura, estimular o olhar e a memória visual“, já que estou hoje inclinado ao jazz, diria estar perante um estilo sem swing (e que raios estou a ouvir Anthony Braxton), de executante de segunda linha, cuja linguagem própria assenta no recurso ao fraseado pomposo mas sem idéias e dado que se trata de aeroportos, aportando aquela sensação do concerto que “nunca descola”, razoavelmente controlado na sua expressão, sem extâse, num exercício escolar que convoca mais depressa o aborrecimento que qualquer outro sentimento, aliás já tinha ficado com essa sensação na exposição do Besphoto em que o autor esteve presente com “as far as i can see” no Museu Berardo.

Nesta mostra é visível – para além da fraca (nunca sei se é propositado ou não) qualidade de impressão de algumas das fotos – a atracção pelos mecanismos e motores que fazem funcionar as máquinas, algo já patente noutros trabalhos do autor (a série “Making of” exposta na Lisboa Photo 2005, se não me falha a memória), pelos vistos o fotógrafo na éxegese do que faz andar o mundo. Naquele que pode ser o ex-librís da exposição (ver 1ª foto) pode-se entrever Hockney, Smithson, Ruff, a idéia de foto-escultura, o paralelo com o cinema. É visível a preocupação com a arquitectura da composição, mas falar de escala e corporalidade da fotografia através da “grandeza” quer da forma quer do objecto representado, é falar do óbvio. Também há uma foto pequena, mas observe-se a pobreza pictórica da mesma comparada com as outras. Agora que penso nisso, o retrato mesmo de grandes dimensões (relembro Thomas Ruff em Serralves), nunca me remete para este sentimento, pois talvez esteja nele a grandeza do rosto humano, de qualquer rosto. Esta diatribe filosófica com a natureza e os limites da representação fotográfica, encerrada nesta fotografia de Daniel Malhão e noutros fotógrafos filiados no género, de tão repetida já ganhou forma de novela na fotografia contemporânea, aliás mais não faço aqui do que me comiserar com o meu próprio discurso, pois ao validá-lo, ou ser contra ele, faço parte do mesmo, mas sinceramente ver-me a debater (tele)novelas, dá-me vontade imediata de ir “comprar a Maria”, sentar-me a ver o telejornal, acompanhado de uma refeição de plástico, de preferência requentada. Se os artistas arranjaram ou não uma maneira de mugir a vaca e de ao mesmo tempo a insultar, então esse sim, é o verdadeiro acto “artistíco”.

Gundula Friese, galeria Antiksdesign

©Gundula Friese

©Gundula Friese

Deve ser incrível o esforço financeiro que se faz para manter funcionante uma galeria real, com os tamanhos de parede exígiveis pelos artistas modernos e o preço do metro quadrado nas grandes metrópoles, mas pese embora o –  quando comparado – pequeno investimento na net, mal se vê uma página virtual decente, quer dos autores, quer das galerias, tese todavia aqui contrariada pela Galeria Antiksdesign. A exposição patente de Gundula Friese, é uma mostra de vários trabalhos que percorrem as últimas duas décadas da sua obra, em que está patente o interesse da artista pelo retrato, versando sobre o passar dos anos e a mudança que o mesmo trás, num acto associado à reconfiguração da identidade. Ainda o retrato visado numa série de que gostei “Das_Geheimnis,_the_Secret (1998)”, da qual faz parte a foto acima, um conjunto de Polaroids (tenho um fraquito), cuja iconicidade lembra a publicidade ou a moda, mas cujos olhares reflectiam um espanto ou desconforto. Do restante material exposto, se aprecio e partilho do gosto pelo secreto do mar, já não apreciei tanto alguma da morfologia das imagens a cores do mar de Portugal e do mar de Itália, tiradas com a câmara numa posição semi-dentro de água. Diga-se que o objecto mar-linha do horizonte-céu-nuvens, embora prenhe de sentidos e sempre aberto a novas representações(*), se trata de uma iconografia algo vista, para mais estando as imagens pobremente (de propósito?) impressas, pouca vontade se tem de nelas permanecer. Ainda assim e porque era o mar, a par das polaroids, a linha condutora desta retrospectiva, pode-se percepcionar no percurso da autora o interesse pela corajosa descoberta, de penetrar no oculto das emoções (Água), do navegar abaixo da superfície, pois as imagens mostram em simultâneo o dentro e fora de água. Se essa alegoria dentro-fora-superficie desta série, roça o superficial ou tem algo a ver com uma certa qualidade banal quer no acabamento quer na composição que prespassa destas imagens, é algo que não consigo responder claramente. Como aspirante na fotografia, vejo-me nesta estranha posição crítica, com ela tento aprender sobretudo sobre mim, pois o que projecto é também aquilo que me confronta com o que sou, e a minha missão é apenas a de me confrontar comigo mesmo, não com os outros, mas com os outros que vivem dentro de mim, não com a arte , mas com a que vive dentro de mim.

(*) A este respeito veja-se esta série magnífica de Asako Narahashi “half awake and half asleep in the water”

Antes do final da tarde e porque estava mesmo ali ao lado da Antiks- para além de não dar para saír dali devido ao congestionamento de tráfego provocado pela (maior de sempre) manifestação de professores – fui à Cinemateca dar uma espreitadela na exposição comemorativa do centenário de Manoel de Oliveira e descansar um pouco no bonito restaurante/cafetaria. Das fotografias, eram tantas e sem sinalização dos autores, que confesso, indulgi na visualização, talvez numa próxima oportunidade.

2 Comments

  1. teresa says:

    Nas costas passeiam-se gatos
    persas, cores
    dispersas tremeruras se acomodam
    no curvilíneo segredo
    do pescoço.
    As flores crescem pela língua
    e pelos dedos,
    pelo dorso
    no verdejar denso
    da seiva mais felina.

  2. teresa says:

    (correcção: 3ªl, tremuras em x de tremeruras)

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