arte, activismo e colectivo



  • Penso que o problema fulcral da arte contemporânea portuguesa está na sua obsessão pelo seu próprio umbigo. Todos trabalham para a bolha. Enquanto cada artista não quiser tocar o próximo, na extensão do seu braço, a arte contemporânea vai continuar a perder força.Braço armado, no Infinito ao Espelho.

«O homem que diz “sou” não é
Porque quem é mesmo é “não sou“» in Canto de Osanha (Baden Powell e Vinicius de Moraes)

A dialética “ego versus colectivo” não aparenta ser uma questão exclusivamente nacional, nem sequer pertencer únicamente aos domínios da prática criativa ou artistica. Existe no humano um mecanismo que se revê no reconhecimento pelo outro, no desejo de estar no centro das atenções, de ser desejável e desejado. Essa vibração parece contudo ser também responsável pelo despertar da criatividade, diferenciando-se e diversificando, numa combustão que em simultâneo propulsiona um eixo polarizado de necessidades do âmbito do Ser, mas em que os padrões de indole individual e colectiva nem sempre parecem coexistir em harmonia.

Esse fluxo de troca e de mutação por vezes desequilibra-se (geralmente em favor do Eu), em que o deficit individual vai desaguar em aspectos que dizem respeito à integração no colectivo: a dinamização e valorização da vida em grupo e em sociedade, a promoção humanista da igualdade, o trabalho desinteressado em prol do coletivo sem esperar retorno ou glória. Sinais desse desequilíbrio são visíveis através de atitudes de oportunismo, de parasitismo, de aproveitamento e da delapidação da relação com o Outro em proveito do benefício pessoal, tornando-se o “em que posso servir o Outro”, no “para que é que o Outro me serve”.

Uma boa fatia do mundo ligado à Arte pouco tem contribuido para a mudança do “status quo“, promovendo-se muita competição e pouca cooperação. De forma totalmente reaccionária e equívoca, o artista aspira a mudar o mundo através da arte, quando eventualmente essa arte seria o reflexo do seu estado de mudança interior e não a vã ambição de mudar ou melhorar o que quer que esteja fora de si. Por outro lado, o colectivo pouco beneficia quando o desejo de mudar o mundo se resume a um “projecto”, maioritariamente inflaccionado pelo ego: ser famoso, importante, influente, dominar, controlar, etc., num desequilibrado “euismo” que denuncia mais a vertente materialista e de extracção de valor social, do que propriamente qualquer beneficio tangível para o bem geral. Repare-se que não se trata de nenhuma condenação beata dos efeitos secundários do “artistismo”, mas apenas a constatação de que a Arte no sentido do Bom e do Belo, não passa frequentemente de uma ilusão.

A percepção da arte (quiçá do artista) na sociedade contemporânea parece acontecer sob um prisma estranhamente hiperbólico, de altamente valorizada a amplamente desvalorizada. Não existe um meio termo relativamente consensual e estável, onde arte possa constituir um equilibrio entre o desejo individual de criar e a necessidade colectiva de fruir, interagir e evoluir com essa criatividade. Há vida para além do ego, dessa percepção e acção em conformidade, depende cada vez mais a qualidade de vida do Todo.

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