A União Europeia emitiu um comunicado em que se afirma estar a recessão técnicamente ultrapassada. Devido a esse facto, estou em dúvida se devo ou não decretar o fim desta série, a qual foi iniciada com o intuito de dar uma panorâmica sobre os reflexos da crise económica no contexto português. Como já não há crise, estou quase de mãos a abanar, mas de todo é assim, já há algum tempo que decidira dar outro rumo à série, tentando auscultar o pulsar dos tempos presentes, sem que a tónica deixasse de estar na questão económica, mas alastrando-a para outras possibilidades que de algum modo permitissem um quadro mais completo.
Sobre a crise, hoje passei por aquilo que seria uma boa “história” fotográfica aqui para esta série, reconheço-o agora, mas que no momento fui incapaz de sequer pensar nisso: dirigia-me de carro a uma empresa da zona, quando de modo que me pareceu aflitivo um casal me pediu boleia, parei, indaguei que queriam, boleia para a uma terra, da qual nem sabiam o nome, andavam à procura de trabalho. Ele aparentando os 50 e tais, ela mais idade, descobri que eram ambos mais novos do que imaginara. Indaguei porque iam a pé por aquela estrada, não tinham dinheiro para o autocarro, nem tinham ainda comido nada hoje, eram 4 da tarde. Ele queria arranjar trabalho, não era bêbado, nem drogado, disse-me, mas como não sabia ler nem escrever ninguém lhe queria dar emprego, agricultura quase não há, a construção está difícil, não tem direito a rendimento de inserção, ela recebe 200 euros, não pode trabalhar, é doente do coração. Gente simples, que me pareceu séria, a única coisa que queriam era um trabalho, para poderem ter dinheiro para comer, aliás essa foi a palavra que mais ouvi no tempo que passou, queriam comer. Levei-os ao sítio onde queriam ir, ainda uns quantos quilómetros depois do meu destino, dei-lhes algum dinheiro, embora não mo tivessem pedido e reflicto, acho uma fotografia tão insuficiente para poder dizer alguma coisa sobre esta gente…
[...] já tinha colocado o post, mas mesmo podendo parecer obsceno vir falar de filmes já a seguir, tenho que citar dois que abordam a questão actual da precaridade laboral, do desemprego e do ambiente geral que se vive nas empresas. Ambos fazem-no de forma particularmente realista, não obstante se possam considerar pouco alimentados por códigos do cinema realista ou neorealista, basta dizer que um desses códigos é justamente o de empregar actores amadores ou sem estatuto de vedeta, o que desde logo não acontece com o primeiro desses filmes, que tem em George Clooney o actor principal, e que toda a gente conhece – especialmente as senhoras, cujo título em português é “Nas Nuves” ou “Up in the Air” no original, de um realizador, Jason Reitman, que já deu mostras de ser capaz de fazer grandes filmes (“Juno” e “Obrigado por Fumar”). O outro filme, creio que passou ao lado das salas nacionais, nem sei o título em português, mas em italiano chama-se “Tutta la vita davanti” e é de Paolo Virzi, uma divertida(?) história sobre a vida num call-center. Sempre que vejo filmes destes, coloco em dúvida as capacidades narrativas, especulativas, de representação do real, da fotografia.



Como pudeste comprovar, crises haverão sempre. Como tal, nunca serão demais, todas as iniciativas que as denunciem, alertando o comum, pacato e “dorminhoco” cidadão, para esses factos. Se uma fotografia é insuficiente? Nisso concordo contigo, mas mesmo assim, é melhor que nada.
Boa continuação de projecto.
história comovente e digna de registo, parece saída de um filme passado durante a grande depressão americana dos anos 30. “The migrant mother”, registo fotográfico famoso desta época.
Desta história tua, actual e nacional ficou o céu bem azul a testemunhar o evento:)