Edgar Martins debaixo de fogo?



Na sequência deste post Fotojornalismo debaixo de fogo? lia esta manhã no blog A Photo Editor, a história acerca da retirada do ensaio do site do NYTimes, após questões sobre a manipulação digital. Quando vim ao blog para escrever esta sequela, também já um comentador alertara para o facto (ver caixa de comentários). Segundo consta, alguns olhares mais atentos descobriram algumas imperfeições corrigidas em computador. Confrontado com o facto, o fotógrafo terá sido incapaz de o negar e o ensaio foi mesmo retirado do ar. Já nos comentários ao artigo, me referira à enorme responsabilidade que seria o realizar de uma encomenda desta dimensão, no mais conceituado jornal americano, cuja audiência é de milhões, para mais altamente exigentes, extremamente competitivos e agressivos, onde o escrutínio pode ser arrasador, sobretudo em se tratando de fotógrafos estrangeiros. Edgar Martins, vencedor da última edição do BesPhoto, terá cometido a imprudência de enunciar a não manipulação digital, quando alguém veio a descobrir uma ou mais “correções” na imagem, as quais pelos vistos foram impossíveis de negar.

Nesta progressiva mistura que se verá entre os fotógrafos “de arte” e a prática do fotojornalismo, vários problemas se levantarão ou já se levantam, sendo a tentação do “perfeccionismo” apenas um deles. A fotografia fine-art tende a ser imaculada e perfeita, a outra não. Alguns artistas, pesem embora os prémios, são comissionados para produzir ensaios, para os quais na maioria da vezes não estão vocacionados, aceitando-os pelas verbas envolvidas e obviamente pelo divertimento. Viajar pelos EUA com tudo pago e a fotografar, está próximo do sonho de qualquer fotógrafo. Depois de ver o primeiro slideshow, ficou claro que as imagens não eram impressionantes, não teriam que ser, obviamente, mas depois deste “escândalo”, é óbvio que o risco em que incorreram os editores nesta contratação lhes saiu muito caro, situação que aliás, a todos coloca em posição altamente comprometedora. Infelizmente, também em Portugal se repetem os exemplos deste tipo de comissões, em que fotógrafos respeitados pela arte que produzem, aceitam fazer trabalhos que estão fora do escopo habitual da sua fotografia, saindo obras menores. Mas quem as não tem? A responsabilidade está não apenas no fotógrafo, que aceita porque o dinheiro faz sempre falta e porque sabe que mesmo trabalhando em algo com que não está muito rotinado ou vinculado, a não existirem problemas de maior, é sempre algo com que se pode aumentar o curriculo. Mas a bola está também do lado de quem contrata, que o faz sobretudo pelo nome, como se isso fosse garantia de qualidade. Um fotógrafo de moda é bom a produzir moda, mas sê-lo-á a fotografar arquitectura?

Infelizmente este assunto vai fazer correr alguma tinta, e apesar de ser bom para a exposição mediática do fotógrafo, provavelmente poucos mais ensaios conseguirá nos próximos tempos. O nome de Portugal, vê-se de algum modo envolvido, mas depois do “investimento” do ex-ministro Pinho na imagem do país, pouco mais haverá que nos possa prejudicar, e como até temos o Ronaldo, “no pasa nada”…

Adenda [11.07.2009]: Resposta do fotógrafo sobre este assunto ao jornal Público. Via ArtePhotographica.

5 Comments

  1. Paulo says:

    Eu penso que uma das razões que terá levado o NYT a contratá-lo terá sido justamente ele ser premiado e ter excelente trabalho mas também por ele se gabar consistentemente que não fazia qualquer tipo de pós-produção (nem digital, nem câmara escura, nem nada). Ora, eu se fosse editor de um jornal e me aparecesse um fotógrafo que não brinca ao copy-paste, que é artista e que tira excelentes fotos, também o contratava. Fotografias dentro dos standards de “verdade” do jornalismo e ainda por cima dignas de exibição em galeria é o sonho de qualquer jornal.

    A meu ver, o problema não se põe só ao nível do seu trabalho de fotojornalismo. O livro dele editado pela aperture faz marketing justamente pelo lado da manipulação da imagem. Ora se se prova que as fotos ness livro também entraram no photoshop, isto nos EUA dá direito a processo de tribunal e dinheiro de volta para quem comprou o livro…

    1. joaoh says:

      Concordo com o que dizes na totalidade. Quanto ao que dizes no segundo parágrafo, parece-me estar aqui o mais importante da história. Num momento em que se assume a “não-correção” está-se a transmitir um enorme argumento de marketing para o mercado. Muita gente ligada à fineart usa esse argumento, de que não “manipula”, esta história vem demonstrar que a coisa pode não ser bem assim. Isto é um balde de água fria para os coleccionadores e galerias que representam o fotógrafo, pese embora a exposição mediática. Desse modo, táticas geralmente aceites em determinado tipo de fotos, podem ser comprometedoras noutras. Obrigado pelo teu comentário!

  2. Picacuca says:

    Esta questão de o Edgar Martins se gabar de não fazer qualquer tipo de manipulação digital, é para mim, verdadeiramente surpreendente.
    Porque, quem viu “ao vivo” as suas imagens sobre o aeródromo dos Açores, (que foram “responsáveis” pelo prémio BESPHOTO) não pode ficar com dúvidas de que, de facto, há ali uma manipulação digital, e tão assumida que nem necessita de palavras.

    Portanto, a minha questão é: não haverá em todas estas notícias, uma vontade de simplesmente “botar abaixo” sem qualquer piedade nem escrúpulos?

    Outra questão totalmente diferente, é a de saber se o Edgar Martins seria a pessoa indicada para aquele trabalho…
    Quanto a essa questão, teremos que saber uma de duas coisas: os contratantes queriam um trabalho artístico, com ou sem manipulação não importa, mas um trabalho ao estilo “Edgar Martins”? Ou, pelo contrário, queriam um trabalho documental, sem manipulações, e resolveram escolher o Edgar Martins para o executar, por julgarem ser o fotógrafo mais indicado para o fazer?

    Temo que não seja fácil encontrar uma resposta cabal a estas questões… Até porque, o mais certo, é que aqui tenha pesado muito mais o factor “amizade” que qualquer outro. :-)

    De qualquer forma, penso ter-se tratado de um grande “tiro no pé”, dado mais pelos contratantes, (talvez nem tenham visto o BESPHOTO) que pelo artista, que, (penso eu) na realidade dificilmente negará que faz manipulação digital. Ou então, poder-se-á dar o caso, de o artista ser tão “artista”, que julgue que todos os que estão à sua volta são todos estúpidos, e que olhem para uma imagem quase totalmente pintada de preto (e de forma imperfeita) acreditando que não há manipulação. Será que ele pensa que somos todos cegos?

    1. joaoh says:

      Estou tentado a concordar, no ponto em que o conselho editorial meteu o pé na lama, a aposta era de risco, mas se fosse conseguida, era boa para ambos.

  3. Picacuca says:

    Ainda a propósito dessa polémica, um artigo muito interessante no Blog da APAF, que, por sua vez, (e não por acaso) faz referência a este mesmo artigo. Pode ser visto aqui: http://desenhoscomluz-apaf.blogspot.com/2009/07/o-fundamentalismo.html

Leave a Reply