fora do tempo



“A artificialidade é uma das características dominantes do trabalho de Edgar Martins, e a mais eficaz.João Pinharanda, na introdução à exposição Time Machine, de Edgar Martins, que esteve em exibição no Museu da EDP.

Não deixa de ser curioso que a grande questão em torno do trabalho de Edgar Martins pareça girar em torno do artifício, como também não o é menos, a que consiste em sustentar a eficácia do mesmo através do recurso à sua artificialidade. Inicialmente nem sequer assumido, posteriormente embaraçadamente escondido e agora alegremente abraçado, o artifìcio surge aqui apoiado na insustentável lezeva da electricidade, no qual nem sequer cabe a anedótica e recente expressão, de que “dantes tinha medo do escuro, agora tenho medo da (conta da) luz”. Mas de que é que falamos quando falamos de artifício? Se a palavra parece remeter de imediato para a artificialidade, com que por exemplo se caracteríza a luz eléctrica por comparação à luz solar (natural), mais complicado parece de perceber em que outra relação se alicerça. No caso deste trabalho de Edgar Martins será na imponente arquitectura dos edifícios que sustentam a máquina da produção eléctrica, nos equipamentos sci-fi que os povoam, ou quiçá no conjunto fotográfico, cuja proposta é de um mundo quase ficcional e irreal, ou está-se dissimuladamente a aludir ao competente passado do fotógrafo em “alisar algumas rugas”, utilizando o photoshop como ferramenta conceptual já para não dizer mercantil?

Ainda que se levem algumas questões desta exposição há outras sobre as quais interessa reflectir, nomeadamente no artifício que está contido no preço actual da luz num momento em que perante o grave estado do país, a EDP apresenta os melhores resultados de sempre; no artifício que consiste na destruição de património único e natural a troco de mais uma barragem; no artifício do apoio governamental às energias renováveis – em que a EDP tem sido um dos principais beneficários – sem que isso signifique benefício directo para o consumidor; no artifício da privatização da energia eléctrica e da entrada de accionistas que vêm ao chamariz do subsídio público à actividade privada; no artifício de se nomear um administrador que aufere milhares de euros mensais sem que o valor que acrescenta à empresa tenha sequer uma correspondência mínima com aquilo que aufere, e que para mais afirma que quanto mais ganhar melhor, pois mais impostos paga, embora já não benefície os empregados da mesma bitola.

Escrito desta maneira até parece cartilha de esquerda, contudo o abitpixel rejeita conotações partidárias (mas não políticas) e não perde de vista o essencial do artigo: estes são assuntos do interesse público, em que o artifício reside essencialmente na forma como foram sendo escamoteados e contornados, aos quais o artista não parece dar resposta que vá para além de umas fotos técnica e estéticamente bem feitas. Discute-se o tempo enquanto conceito metafísico (e helás, artificial), quase como quem discute a meteorologia, porque pouco mais parece haver para dizer. De que teor é esta fotografia? É documental, artística, serão ambas incompatíveis? Deverá levantar questões? Ou não? Este parece ser mais um momento em  que as encomendas envolvem por vezes compromissos, distinguindo-se o trabalho de autor do da encomenda, embora os mundos artístico e comercial nem sempre tenham vivído em grande angústia sobre como separar uma coisa da outra. Registe-se por exemplo a forma como Augusto Alves da Silva tem gerido e respondido às encomendas, se bem que por vezes de formas nem sempre fáceis de entender ou aceitar.  Aqui cabe uma palavra de apreço para a progamação da Fundação EDP, que se em 2011 foi pródiga em diversidade de propostas fotográficas de qualidade, aqui patrocinou uma exposição bonita mas pouco mais que laudatória, que não corre riscos, que teria provavelmente ficado melhor entregue nas mãos de maior diversidade.

Finalmente e para quem não teve oportunidade de visitar a exposição pode-se servir aqui de alguns exemplos, de uma entrevista ao autor, e de uma recensão ao livro This is Not a House.

ps – fora de tempo é já também este artigo, pois que em tempo foi impossível de concretizar.

 

 

 

 

 

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