Classe!
ComentarArquivo de ‘entrevista’
larry clark
“Jutta Koether: It seems that you always stick to one theme but from different angles. Do you feel like an artist or is your work just the result of what is happening in life to you?
Larry Clark: Well, the way I work is the one theme with myself. That’s the theme. The work all comes from a psychological need. See the images that I make. These were photographs that I cut out of books or magazines and whatever. It’s really a psychological need. I’m just jerked around by it. I’m pulled by it.
Koether: You don’t control it.
Clark: I don’t control it. If I controlled it, I’d be very controlled, it would be like Mozart, I’d just turn it out. I’m not the fastest worker in the world. Takes me a long time to get rolling. It more or less just happens. I have to force myself to just sit in the corner and not do anything.
Koether: There is no end to it anyway. It doesn’t look like it.
Clark: It’s just trying to keep it going. I think the process of doing it is all about conquering fear. I think it’s all fear-based.
Koether: Fear?
Clark: Yeah, fear. Till I get to these places in myself and make something out of it, do the work. It’s difficult to explain.”
Depois de um começo de entrevista como este, nem vale a pena postar fotos. Descobri hoje que é o mesmo que realizou o assombrosamente realista e ensombrado KIDS, sobre a AIDS na adolescência nova-iorquina.
Comentarfernando lemos
“Esse surrealismo de figurinha sifilítica herdada do Dalí, essa coisa do erotismo, da masturbação e dos corpos estragados são meio “demodé”. Para mim, a fotografia do Man Ray é música de câmara, quer dizer, é muito laboratório.“ Já pouco se ouvê gente a falar desta maneira desassombrada, nesta época de maneirismos descolorados e respostas “encoñadas”, é um bafo de oxigénio ler esta entrevista do fotógrafo português Fernando Lemos.
ComentarEntrevista com Kate Pollard
“Hibiscus Tattoos”, da série Passing
Kate Pollard é uma fotógrafa americana cujas imagens privilegiam sobretudo a paisagem intíma, a familia, as relações pessoais. Conheci-a através do projecto Seven Selves, desafiando-a para algumas questões sobre o seu trabalho, a que gentilmente acedeu.
Pergunta – Fiquei comovido com a série Passing, onde mostras as reações da tua família perante a morte inesperada do teu pai. A maioria das fotografias sobre vida íntima parece deixar de fora as imagens que são vistas como um tabu, como a morte, por exemplo. Por que é que escolheste mostrá-las e, ao fazê-lo, através da perspectiva do teu pai?
Kate Pollard – O projeto “Passing” começou inicialmente como “foto-terapia” para mim. Comecei a fotografar a minha família porque estava de luto e assim virei-me para a minha câmara transformando-a numa válvula de escape para a tristeza enorme que estava a experimentar. Após a primeira imagem ter sido feita, “Hibiscus Tattoos“, comecei a sentir que não estava sózinha a fazer estas imagens. Comecei a sentir que o meu pai estava lá comigo, trabalhando através de mim para fazer essas imagens, tão poderosas que elas eram. Eu comecei a fotografar-me e à minha família como se a câmara nos estivesse a ver através dos olhos de meu pai, como se ele nos estivesse revisitando e à vida que ele deixou cedo demais. Foi também um tributo a ele, para que ele pudesse ver o impacto que a sua vida fez nas nossas. O projeto ainda está em curso.
Pergunta – Ao ver descritas as narrativas da vida doméstica ou íntima estamos acostumados a ver alguns “erros técnicos” como flashes sobrexpostos, arrastamentos, enquadramentos estranhos, etc, e lembro Richard Billingham “Ray’s a Laugh”, só para dar um exemplo. Esses erros parecem ser empregues como um facilitador, ou algo que poderá ligar a experiência particular ao espectador. Em “Passing“, não pareces usar esse tipo de estratégia, mesmo que as imagens mostram momentos de desespero, de caos interior e de tristeza, emoções que poderiam dar azo a empregar essas estratégias.
Kate Pollard – Eu aprecio o trabalho de Billingham e de outros como ele, mas para mim, pessoalmente, as imagens devem contar uma história e também serem bonitas. Eu quero os espectadores a sentir a emoção que eu estou a sentir, sem a distração dos erros “técnicos” a que te referes. Eu não quero que as minhas imagens se pareçam com “snapshots”, como elas são tão comoventes e tão preciosas para mim, acho que também devem ser bonitas. Cruas, mas bonitas.
“Sem título”, da série This Woman’s Movements
Pergunta – Vou citar uma frase muito bonita de Carl Jung que está no teu site, no início da série “This Woman’s Movement“, “Quem olha para fora, sonha, quem olha para dentro desperta”. Quando vejo essas imagens sinto a câmara como um intruso, como algo que não é bem recebido ou como se o movimento de “olhar para dentro do lado de fora” não fosse totalmente confortável. Também nesta série parece haver algum tipo de encenação ao contrário de “Passing“, em que pareces descrever os eventos “como foram”. Porquê isso?
Kate Pollard – Neste projeto, eu vejo a câmara como o agarrar de um momento, momento esse que é encenado. Este projecto representa-me a mim, mas também representa todas as mulheres jovens na faixa dos 20 anos e por vezes 30. É desconfortável para o espectador, talvez porque o personagem principal está desconfortável na sua própria situação. Ela está se sentindo impotente dentro de sua própria vida, à medida que as coisas, pessoas e atividades giram em torno de si. Ela está no meio do movimento, mas sente-se distanciada e impotente perante a sua própria situação. As cenas encenadas eram necessárias, porque estava representando as mulheres como eu, sentindo-se perdidas nos seus 20 anos. Eu não quero que seja um trabalho completamente pessoal, por isso encenei algumas cenas relacionadas com a minha vida, mas também relacionados com a vida de muitas outras mulheres que conheço. Passing foi muito pessoal, e eu queria ser totalmente honesta com as minhas imagens por causa disso.
Pergunta – Onde é que está a Nan Goldin na tua vida fotográfica?
Kate Pollard – Gosto muito do trabalho da Nan Goldin. Não diria que ela me inspirou ao longo dos anos com o meu próprio trabalho, mas eu gosto da qualidade crua e honesta que ela retrata nas suas imagens.
Pergunta – Quais foram as tuas influências?
Kate Pollard – São muitas as pessoas que me têm influenciado. A minha mãe montou um laboratório na cave quando eu tinha doze anos e ensinou-me a usá-lo, depois dela ter feito um curso de fotografia. Foi essa influência que acendeu a minha vida fotográfica. Elinor Carucci é uma fotógrafa favorita, que continua a inspirar-me com as suas incríveis imagens centradas na família. Além disso, Jo Spence, fotógrafa britânica que me inspirou com as suas idéias sobre foto-terapia, utilizando a fotografia como uma ligação direta para a cura. Também trabalhei para um casal, ambos artistas: Larry Fink e Martha Posner, que me inspiraram a perseguir os meus sonhos e viver a vida que quero viver, como artista e professora. Por último, mas não menos importante, como professora da faculdade, acho que osmeus alunos me inspiram a cada dia.
Pergunta – Qual é que achas ser a maior questão sobre a fotografia actual?
Kate Pollard – Acho que a maior questão relativa à fotografia actual (se é boa ou má, é algo para debatee), é a acessibilidade da mesma. Todo a gente tem uma câmara, todos podem fazer imagens, seja em seu telefone móvel, ou nas suas compactas “point and shoot”, ou nas suas câmaras profissionais. A facilidade e acessibilidade é algo ao mesmo tempo emocionante e assustador para mim.
Links:
Kate Pollard
[sp] seven selves
YouTube – “Passing” by Kate Pollard @ Edinburgh Art Festival 2009
Dado que a entrevista foi conduzida em Inglês, transcreve-se o original.
Question: I was really moved by your “Passing” series, where you depict your family reactions to the unexpected death of your father. Most of the intimate life photography seem to leave out images that are perceived as taboo, as death for example. Why did you choose to show them and in doing it, why through your father’s perspective?
Kate Pollard – The Passing project initially started out as “photo-therapy” for me. I started photographing my family because I was grieving and I was able to turn to my camera as an outlet for all of the tremendous sadness I was experiencing. After the first image was made, “Hibiscus Tattoos”, I began to feel as though I was not alone in making these images. I began to feel that my father was there with me, working through me to make these images as powerful as they were. I began to photograph myself and my family as if the camera was seeing us through my father’s eyes, as he was revisiting us, and also as he was revisiting the life that he left too soon. It was also a tribute to him, so he could see the impact that his life made upon our lives. The project is ongoing.
Q: In depicting narratives of domestic or intimate life we’re used to see some “technical mistakes” like heavy flash, blur, weird framing, etc., and i remember Richard Billingham “Ray’s a Laugh” just to give an example. Those mistakes seem to be employed as a facilitator or something that might connect the private experience with the viewer. In “Passing” you don’t seem to use this type of strategy, even if the images show moments of despair, inner chaos, and sadness, emotions that could give field to employ those strategies.
Kate Pollard – I do appreciate Billingham’s work, and other work like it, but for me personally, imagery must tell a story and also be beautiful. I want viewers to feel the emotion that I am feeling, without the distraction of the “technical mistakes” you are referring to. I don’t want my images to feel like quick snapshots, as they are so poignant to me, and so precious, they must also be beautiful. Raw, but beautiful.
Q: You quote a very beautiful phrase from Carl Jung, “Who looks outside, dreams; who looks inside awakes”, at the beginning of “This Woman’s Movement”. When I see those images I feel the camera as an intruder, as if it was not welcomed or if the movement of “looking inside from the outside” was not entirely comfortable. Also in “This Woman’s Movement” there seems to be some sort of staged scenes, unlike “Passing” which seem to depict events “as they were”. Why this?
Kate Pollard – In this project, I see the camera as grabbing a moment, a very staged moment. This project represents me, but more so it represents all young women in their 20’s and sometimes 30’s. It is uncomfortable for the viewer, perhaps because the main character is uncomfortable in her own situation. She is feeling powerless within her own life, as things, people, and activity moves around her. She is in the middle of the movement, but feels detached and powerless in her own situation. The staged scenes in This Woman’s Movement were necessary because I was depicting women, like myself, feeling lost in their 20’s. I did not want it to be completely personal, so I staged scenes that related to my life but also related to the lives of many other women I know. Passing was very personal, and I wanted to be completely honest with my imagery because of that.
Q: Where is Nan Goldin in your photographic life?
Kate Pollard – I love Nan Goldin’s work. I wouldn’t say that she has inspired me over the years with my own work, but I enjoy the raw quality and complete honesty that she portrays in her imagery.
Q: Can you talk a little about who might have influenced you?
Kate Pollard – Many people have influenced me. My mother set up a darkroom in my basement when I was twelve years old and taught me how to use it, after she had taken a photography class. It was this influence that ignited my entire photographic life!
Elinor Carucci is a favorite photographer of mine, and she continues to inspire me with her amazing family-centered images. Also, Jo Spence, the British photographer inspired me with her ideas about photo-therapy, and using photography as a direct link to healing. I worked for a married couple, who are both artists: Larry Fink and Martha Posner. They both have inspired me to pursue my dreams and to live the life that I want to live, as an artist and teacher. Last, but not least, as a college professor, I find that my students inspire me every single day.
Q: What do you think is the big issue concerning photography today?
Kate Pollard – I think the biggest issue concerning photography right now (whether good or bad is up for debate), is the accessibility of it. Everyone has a camera, and everyone can make images, whether it be on their mobile phone, or on their point-and-shoot cameras, or on their expensive professional cameras. The ease and accessibility is both exciting and scary for me.

Entrevista com Isaac Pereira
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Isaac Pereira é o último dos entrevistados, de um grupo de pessoas que nos “Emergentes” de Braga partilhou imagens, experiências, imagens e como não podia deixar de ser, algum divertimento. Oriundo da área de Ciências da Comunicação e do Jornalismo, tem feito um percurso de aprendizagem em Fotografia no Ar.Co. Procura-se aqui dar uma pequena perspectiva sobre uma série de trabalhos que vai mostrando, os quais são fruto da sua “inexperiência” como faz questão de afirmar, mas que certamente se ficam também a dever a muito labor, empenho e reflexão.
abp) Donde é que vem a tua fotografia, quais são os autores que te influenciam?
Isaac Pereira) O que faço vem do começo dos meus tempos. Sempre compus imagens e registei experiências através do olhar. Tenho, como todos temos, mas receio que em mim seja obsessivo, uma película constante de imagens que desfilam no meu pensamento e que registei desde criança. Talvez por isto me sinta melhor no monocromático. Gosto do lado plural de uma imagem, na absoluta liberdade de a interpretar. Desse jogo onde se movem todos os afectos e sensações. É daí que vem a fotografia. Ela apresenta-se como uma voz. Depois há a decisiva influência de um homem que fotografou a minha família: o meu padrinho, José da Silva. A ele devo o olhar que tenho sobre mim e os meus pais, por exemplo. A ele devo ver o que de outra forma jamais poderia ser visto. A fixação da imagem num tempo tangível mas depois, com o passar do próprio tempo, tão intangível, sempre me fascinou!!! Agradam-me imagens cruas, pouco sujeitas a composições muito elaboradas, mas que se produzem no interior de um instante mais ou menos duradouro e não necessitam de muitos tripés, de muitos efeitos e fontes de luz. Mas não pretendo negar a fotografia dita “construída”, pelo contrário. Seria negar a própria natureza do meio, na medida em que toda a fotografia é construída.
Oa meus autores vêm da fotografia social dos primórdios, onde Jacob Riis, se apresenta como referência, até Lewis Hine; depois todo o trabalho da Farm Security Administration, onde pontificou Dorothea Lange; e um certo fotojornalismo que vai de Werner Bishop; Ed Van der Elsken a Walker Evans; passsando por muitos fotógrafos da Ásia como por exemplo o japonês Ihei Kimura. Aprecio imenso a obra de Sudek e Koudelka. E claro, não podiam faltar Robert Frank e Ralph Gibson. – o trabalho sobre o sonâmbulo é central – Recentemente “descobri” um olhar que me foi dado conhecer por um fotógrafo amigo, o de Michael Smartone, autor dos anos 70; há também Ralph Eugene Meatyard, e tantos outros: Brian Brake, Robert Capa. Não posso deixar de referir um grande fotógrafo português: Paulo Nozolino. Um dos fotógrafos de quem mais me aproximo, autor de imagens que em tudo têm a ver com o universo que procuro representar. Nozolino é um poeta forte.
abp) Quando dei a primeira passagem pelo teu site, a ideia que me ficou foi essa que confirmas, a de uma certa “filiação” nas imagens do Paulo Nozolino. Por um lado, em que medida é que pensas que o teu trabalho se aproxima do dele, por outro, não crês que essa forte identificação possa ser um obstáculo ou não vês o reconhecimento autoral como uma questão?
Isaac) Penso que o reconhecimento autoral é um aspecto importante. Mas só o é dentro de um conjunto de outros aspectos. Não diria tratar-se de uma “filiação”, diria antes que o meu olhar, também é cúmplice daquele olhar. É próprio das influências, é o que acontece quando observas, pela primeira vez, uma imagem de alguém. Ou se sente ou não se sente cumplicidade. É natural. Curiosamente, essa ligação ao literário, ao ficcional existiu sempre em mim, pois desde jovem que encontrei na escrita, a economia que a fotografia não me possibilitava. Desde jovem que escrevo. E os meus textos são textos carregadíssimos de imagens. E é lá, nesse lugar chamado real que elas nascem, para depois, se transfigurarem. Somos sempre tocados pelo que nos toca: pelo desejo, pela solidão, pela morte, pelo sofrimento, pela memória, pela nostalgia…por sensações fortes. Nessa medida o que fotografo está próximo não apenas do trabalho de Paulo Nozolino mas de outros tantos fotógrafos.
Penso que é assim que acontece a toda a gente, não? Há tempos, um professor disse-me, quando viu um conjunto de imagens, que encontrava muitas semelhanças com Robert Frank, por exemplo. Senti-me embaraçado porque não tenho o fôlego de um artista como ele. Mas é bom, sentir essa proximidade. Depois há o modo como se fotografa. Sou dos fotógrafos que literalmente fotografa por aí, vadiando. A minha vida só não é igual à da maior parte das vidas porque eu ando sempre com uma câmara fotográfica colada ao corpo. Sempre, todos os dias, a todas as horas. Não faço projectos “à priori” para séries fotográficas.
Não penso que estas proximidades possam ser um obstáculo ao trabalho criativo, sobretudo quando se procura estabelecer um equilíbrio entre os aspectos formais e o que as imagens propõem contar e dizer. Volto ao reconhecimento autoral: Penso que é algo que, a existir, existirá naturalmente. É algo que transportas e que a experiência te permitirá ou não, aprofundar. Não há lugar a uma obsessão pela procura da marca, se a marca já estiver dentro de ti.
abp) As séries que apresentas parecem assentar numa estrutura narrativa algo poética, aparentemente pouca ligadas a correntes estéticas “realistas” ou documentais, embora frises autores que te influenciaram e que pertencem a essas correntes.
Isaac) Concordo. O que me tenho proposto fazer é superar essa associação aparente e concretizá-la, ligando-a a um narrativa para a afastar do real. A questão sempre se colocou: o que é o real? Sucede que “o real”, para mim, é documento, e mesmo assim é documento construído. Daí que “o real”, enquanto entidade objectiva não exista. Quando muito podem existir factos, que logo são conhecidos e se transformam. Mesmo o realismo é a transposição de uma realidade aparentemente objectiva para uma esfera subjectiva e logo, mais ficcional. Acontece ser isto que me agrada em fotografia: partir de uma realidade aparente, de factos concretos, e obter uma pluralidade de sentidos, de visões do mundo, uma pluralidade reflectida na recepção dos outros e na própria recepção que eu faço. Considero essencial esta experiência de sentido. O mundo está inundado de documentos. Não digo que o documento deva ser abandonado, mas que a seu lado devem estar outros sentidos.
abp) Lendo os títulos das tuas séries, existe praticamente em todos eles uma ligação com a palavra, escrita ou falada “um incerto diário”, “sombrias palavras”, “a fala”, “estórias perdidas”, “mas não estou só, tu disseste”. Em que medida é que isso pode ajudar à definição e coerência do trabalho?
Isaac) O meu trabalho procura ser um diálogo permanente comigo e com o exterior. Julgo que, de algum modo, os títulos, que remetem sempre para um universo literário, tentam exprimir essa coerência.
abp) A fotografia não é um espelho da realidade, pode ser um processo de construção do real?
Isaac) A realidade é um conjunto de acontecimentos, de sensações e de olhares sobre esses factos, sobre essas sensações e sobre esses próprios olhares. Às vezes, brinco dizendo por exemplo que, se a realidade fosse o que as televisões nos dão a ver, então não haveria lugar ao conhecimento de outra realidade. O mesmo, em relação à fotografia e a todos os media. Neste sentido considero que tudo é um processo de construção do real, esse conceito que parece ser tão concreto mas que, se pensarmos bem, é tão abstracto. Os media são máquinas. Vivemos no meio de meios-máquinas. Meios de construção? Sim. Mas de que construção? Infinitas construções. Mas não todas iguais. Não. Felizmente. O medo é esse: que tudo tenha uma construção igual e repetida. Como evitá-lo? Pondo o teu sentimento e o teu pensamento entre a máquina e a construção que ela faz, automaticamente. Fazer com que a tua imagem seja a imagem de ti e não a imagem da máquina. É a velha questão sempre presente.
abp) John Szarkowski certa vez falou em janelas e espelhos. As imagens-janela seriam aquelas viradas para o mundo, as espelho, seriam as mais viradas para o universo interior, para o Eu, tendo também afirmado preferir as primeiras às segundas. O teu universo parece ser mais de espelho do que de janela, concordas?
Isaac) Quando fotografo não penso em termos de janela e de espelhos. Muito menos quando estou com as imagens à frente do olhar. Contudo gosto da imagem-metafórica de Szarkowski embora não encontre nessa distinção retórica nada de especialmente delicado. Poderia até dizer que toda a imagem é, ao mesmo tempo, um espelho e uma janela. O objecto que a imagem escolhe é sempre um espelho do sujeito que a faz. Há uma escolha. Essa escolha é um reflexo do espelho interior. Mas essa escolha também é feita a olhar para fora, pela janela do “eu”. Contudo, é curioso notar que, quer se trate de uma janela ou de um espelho, ambos emitem um reflexo. Sucede que é esse reflexo que me interessa na fotografia. O que me toca? É o espelho que me reflecte ou a janela por onde vejo? Só retoricamente creio possível esta distinção. Mas é uma distinção interessante. O que procuro é fazer com que as imagens se mostrem ao mundo, que elas próprias, em certa medida, reflectem. Mas esse julgamento, se é que existe um julgamento final e categórico, só pode ser efectuado no domínio da recepção, domínio no qual não me posso situar.
abp) Como é que vês a fotografia em Portugal actualmente?
Isaac) Observo que é necessário reforçar a defesa da Fotografia.
abp) Podes elaborar um pouco mais essa idéia? Em que é que a fotografia necessita de ser defendida?
Isaac) Da estonteante velocidade a que o lixo circula. É necessário fazer com que a fotografia esteja acima do seu tempo. E este tempo é o tempo em que tudo é reciclável. Reciclar pressupõe a existência de um ciclo de ciclos. Ora, há imagens que têm de estar acima dos ciclos temporais. Eis um perigo a que já fiz referência: o da repetição absoluta. Por outro lado é necessário continuar a reflectir sobre o estatuto da Fotografia enquanto meio de expressão artística, pensar de que modo a Fotografia é útil à sociedade. Por outras palavras, se eu quero, se tu queres, que a Fotografia seja mais do que um meio de entretenimento. Por outro lado, é importante que a Fotografia circule mais em livro e não seja votada ao espaço confinado e elitista da galeria. Dizem que as Utopias acabaram mas eu tenho uma: a de que a Fotografia deve estar na rua como objecto e sujeito de reflexão de que, já que falaste em Szarkovski, ela própria, a Fotografia, e não o seu autor, seja uma imagem-janela.
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Q: Essa metáfora que empregas da “fotografia acima do seu tempo”, em que é se apoia essa visão? Deriva daquilo que vês como uma inundação de imagens sem qualidade?
Isaac) É a Fotografia que, ao invés de se preocupar com as tendências estéticas dominantes, busca, enquanto processo, libertar-se das suas amarras temporais. Uma Fotografia que fale por si e não pelo ambiente em que vive. Uma Fotografia, que, na vaga incessante de imagens que já não nos afectam, nos possa afectar, e possa, sobretudo afectar, aqueles que a vão ver, daqui a 50, 100, 500 ou 1000 anos…
Há uma Via Láctea e Galáxias para percorrer, não sei se esse percurso é eterno, não sei o que é a eternidade ou o infinito, mas posso imaginá-los e entender que só com a capacidade humana que é a capacidade de espanto, é que esse percurso pode ser agradável. Não sei se alguma vez o percorrerei, mas gostava de o fazer. Por agora tento apenas não ter medo, o que, bem vistas as coisas, não parece ser má ideia.
entrevista com juan san sebastian
Os Encontros da Imagem em Braga foram também uma oportunidade para conhecer o trabalho de outros fotógrafos que aderiram à iniciativa “Emergentes”. Após entrevistas com o João Paulo Barrinha e a Sofia Silva, é hoje a vez de um artista espanhol, Juan San Sebastian, que amavelmente acedeu a responder a algumas questões acerca do seu trabalho mais recente. Juan talvez não seja considerado um fotógrafo no sentido mais literal que alguns gostam de obter, mas o abandono do conforto dessa categorização paga dividendos quando olhamos a obra deste artista polivalente, que utililiza de forma magistral todos os recursos que o digital foi colocando á disposição, gerando trabalhos de sustentado interesse visual e intelectual.
abp) Neste trabalho que persegues, foste inspirado por fotógrafos ou por fotografias?
juan) Procuro no fijarme mucho porque hay mucha gente muy buena y siempre voy a encontrar algún artista que trabaja de forma parecida a la mía, esto me genera mucha ansiedad. Me gustan muchos, intento ir a exposiciones a menudo y casi siempre me sorprendo. Sin embargo, admiro a varios, ya sabes eso de… “yo de mayor quiero ser cómo ellos”: Ellen Kooi, José María Mellado (al que le debo mucho aunque él no lo sepa), David Lachapelle, Chema Madoz y algunos otros. Pero lo que realmente me inspira son las cosas que me pasan todos los días; y curiosamente también, escritores que leo y me hacen pensar en cosas; últimamente: Eduardo Galeano, Neal Stephenson, Haruki Murakami, Eduardo Punset. Y algún que otro bloggero de temática conspiranóica.

Abitpixel) Existe uma associação entre sexualidade e paisagem nas tuas imagens, de que modo é que exploras e conectas essas duas vertentes?
Juan San Sebastien) Uso el lenguaje del sexo porque todo el mundo lo entiende, pero me interesa más el amor entre personas (donde el sexo es por supuesto muy importante). Cuando empecé ha hacer fotos en 2007 me encontraba sumido en una situación de amor y desamor en la que me interesaba trabajar porque tenía cosas que contar, pero quería ser muy directo y no dar pié a malos entendidos por parte del espectador. Por ejemplo: en mi foto “sueño contigo” aparecen unas nubes con forma de sujetador; aquí yo quiero contar que estoy pensando en una mujer, y podría haber utilizado otras formas para dibujar las nubes cómo una bicicleta, un libro, un zapato… que hubiesen definido perfectamente a la mujer con la que estoy soñando, pero la foto hubiese sido más ambigua y carente de deseo.El deseo es una característica humana que condiciona todo lo que hacemos a lo largo de nuestra vida. La mayoría de la gente nos pasamos el tiempo desando cosas que no tenemos. De momento, me encuentro inmerso en una etapa de creación en la que me interesa mucho la naturaleza.El entorno, el paisaje, el escenario… es neutro; pasamos através de ello casi sin prestarle atención obsesionados e inmersos en nuestros pensamientos y preocupaciones “reales” producidas por nuestros deseos, miedos, frustraciones…Sí; el paisaje es neutro, pero está ahí, existe, es. Es neutro porque no me preocupa, no me importa… simplemente está; pero a su vez es tan real cómo nuestras propias ideas y obsesiones. Por eso la naturaleza supone un marco incomparable donde plasmarlas sin contemplaciones.Utilizo el paisaje cómo un sutil y neutro marco contenedor descontextualizante donde plasmar las cosas que me interesan. El Amor está en todos los lados y en ninguno, porque está dentro de ti y de mi.
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sueno contigo
abp) Pareces dizer que utilizas a paisagem como uma espécie de tela onde plasmas as tuas idéias. Como é que decides que paisagem vais utilizar, de que forma escolhes aquelas que vais usar como tela, são completamente aleatórias ou existe algum critério?
juan) Trabajo de las dos maneras; cuando surge la idea para una obra voy a fotografiar paisaje con ella en la mente (dando vueltas, cocinándose…); y suelo ir a tomar fotos dos o tres días. Hago muchas fotos, y aunque parto de una idea preconcebida, voy encontrándome con cosas que me gustan y al mismo tiempo la idea va evolucionando dentro de mi cabeza… en el estudio veo las fotos durante varios días y voy editando las que más me gustan, haciendo pruebas con bocetos dibujados a mano o pegando fotos en baja resolución; cuando finalmente me gusta la composición, trabajo en el retoque digital final. Por ejemplo, para mi última serie “Tensión Sexual No Resuelta” decidí que quería utilizar toreros en equilibrio inestable sobre árboles, y busqué unas Choperas en Guadalajara y Soria (En España hay unos lugares increíbles…) donde sabía de antemano que me iba a encontrar este tipo de árboles caídos… Otras veces, sin embargo una foto de paisaje tomada al azar me sorprende y la utilizo para plasmar una idea que me interesa. Es cómo magia, lo veo y todo encaja! Además, empiezo a tener muchas fotos guardadas, muchos MBs de información esperando en la nevera. El paisaje si es determinante para el espectador porque puede potenciar en él la sensación que pretendo transmitir, porque da unidad a una serie de fotos y porque busco la estética; quiero que mis fotos sean bonitas. Pero para mi es neutro. Siempre está ahí, yo soy el que me acerco con una idea o con otra en la cabeza… es un tanto difícil de explicar.

juan) No tengo suficiente formación en historia del arte cómo para encasillarme dentro de ningún movimiento artístico, por lo que no soy yo la persona más indicada para responder esta pregunta; si bien es cierto que algunas personas me han dicho que les recuerdo a Magrite o que mis fotos son bastante subrealistas. De momento, procuro que las críticas o clasificaciones no interfieran en mi trabajo, y es difícil porque a menudo se me plantean muchas dudas…Lo que me interesa es contar cosas, y lo hago cómo me apetece, intentando no ponerme límites, cómo si fuese un niño.

abp) O modo como inscreves um objecto na “tela” parece-se mais com pintura do que com fotografia?

Vacaciones en el paraiso

Ropa tendida
juan) La fotografía está viva, más que nunca, y en todos los sitios, no sólo en España. Por dos motivos, primero porque la tecnología se ha abaratado y todo el mundo tiene una cámara con la que capturar. Conoces a algún ser humano que no haga fotos? Por lo tanto, al haber muchos haciendo fotos, hay muchos malos, pero también algunos buenos con buenas ideas. Y segundo, y más importante, porque las fronteras entre las diferentes disciplinas artísticas se están rompiendo siempre, y ahora artistas que antes pintaban, lo siguen haciendo con el ordenador y utilizando impresiones fotográficas y de chorro de tinta cómo soporte… Pienso que debemos de mostrar nuestro infinito agradecimiento y respeto al equipo de personas que ha diseñado Adobe Photoshop. Que sería del mundo sin Photoshop? Una catástrofe planetaria sin precedentes! Pero si me pongo a agradecer, tendría que agredecerle tanto a tantos.
Próximas exposições: MACparis (Manifestation Art Contemporain) de 19 a 22 Novembro 2009, Paris; Exposição Individual em Madrid, em Dezembro de 2009

“Jam Session”, entrevista com Nica Paixão
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©Nica Paixão
Adepta do jazz e amante da fotografia, Nica Paixão apresentou no sábado passado o seu mais recente trabalho “Jam Session”, no auditório municipal Augusto Cabrita, no Barreiro. A esse respeito, convidámo-la para uma pequena entrevista sobre este e outros projectos.
1) Donde vem esse gosto pela fotografia e pelo jazz?
O gosto pela fotografia estará certamente ligado ao facto do meu avô ser o fotógrafo António Paixão. Desde sempre adorei o cheiro dos químicos de revelação e quando o visitava na Filmarte tudo aquilo me era confortável. Sempre consumi imensa fotografia. Acho que existe algo de divino no acto de fotografar, mas na verdade o que me faz gostar de fotografia é o prazer enorme que me dá fotografar, pensar a fotografia, tratar fotografias, e tudo o que com ela se relaciona. Sou sempre feliz quando estou a fotografar. O jazz também começou cedo. Ouvia-se algum jazz em casa e a minha mãe cantava imenso pela casa. Há uns anos comecei a prestar atenção ao jazz feito cá em Portugal e fiquei surpreendida com a qualidade e diversidade de músicos.
2) Que autores te influenciam ou influenciaram?
O meu avô, obviamente. Era um pioneiro em técnicas de impressão ou como alguém da área o chamou “um percursor do photoshop”. A mim, quando o via imprimir, parecia-me sempre um druida a criar magias. Continuarei a aprender mais e mais na tentativa de me aproximar a ele, no domínio do filme e da impressão. Gosto muito do trabalho da Donata Wenders. A simplicidade eficaz das imagens dela. Gosto de fotografia de pessoas principalmente e talvez por isso me atraia o trabalho dela. Em termos de personagem na fotografia, fascina-me a Tina Modotti por inúmeras razões. Por cá sinto uma grande admiração pelo trabalho do Luís Rocha que tenho a sorte de ter sido e continuar a ser um dos meus professores. Acho que sou inflenciada por toda a fotografia que vejo, mesmo a que não gosto. A minha fotografia é também influenciada por autores de outras áreas nomeadamente a música.
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©Nica Paixão
3) Como é que surgiram estes “duetos”?
Os duetos surgiram antes demais da minha obsessão pelo jazz. A estética visual e musical do jazz sempre me fascinaram. Se me perguntares sobre o meu instrumento preferido, a minha resposta instantânea nunca será o piano, mas a verdade é que sinto uma atracção inconsciente para a sua sonoridade e beleza estética e a maioria dos meus músicos de eleição são de facto pianistas. Temos a sorte, em Portugal, de ter excelentes pianistas e eu tenho a sorte de eles terem tido alguma paciência para me aturar. Em Março fiz um workshop de Projecto Fotográfico e Exposição, e nesse âmbito surgiu-me a ideia de aproveitar essa ocasião para investir na direcção que pretendo tomar na fotografia. Tenho uma preocupação com o estatuto do músico ídolo vs o músico ser humano, a fragilidade de quem vive da sua arte. É uma temática que me interessa e tentei explorá-la nesta série. Gostaria de a explorar ainda mais a fundo noutras séries que tenho já apontadas na minha moleskine. Daí para o contrabaixo foi um pequeno salto, uma vez que esse é claramente um dos meus instrumentos preferidos para além de extremamente fotogénico.
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©Nica Paixão
4) Sei que tens vários projectos em mãos actualmente, fala-nos um pouco deles.
Como já te disse, tenho também um projecto documental de longo curso sobre o Hot Club Portugal, que apesar de já bastante avançado, penso que ainda levará algum tempo até que se conclua, apesar de já terem surgido propostas da direcção do Hot para exposição do resultado já existente, todavia como o ambiciono para edição impressa, creio que terá que ter um corpo maior de trabalho.
Ultimamente recebi também uma proposta para organizar em formato de série um pequeno projecto pessoal que tenho com o Alexandre, o meu filho de 9 anos, que são basicamente retratos quotidianos em filme preto e branco no formato half frame, que é um formato que me fascina desde criança e daí a opção de o trabalhar em conjunto com o meu filho.

Entrevista com João Paulo Barrinha
Desafiei o João Paulo Barrinha para um conjunto de perguntas sobre o seu trabalho, e embora inicialmente se tenha furtado, convenci-o com o argumento (in)falível de que eram perguntas simples, para um artigo que ninguém leria. Embora se possa pensar que está em causa a seriedade do acto, tal tese é já em seguida contrariada…
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1) Não sei se nasce fotógrafo, mas partindo daí quando nasceu o fotógrafo que há em ti e em que fase se
encontra actualmente.
De uma forma indirecta, desde criança que tenho contacto com processos
fotográficos. O meu pai era fotógrafo amador, e tínhamos em casa duas câmaras fotográficas, o que, naquele tempo, não era vulgar. Embora o meu pai, pouco mais fizesse com a fotografia que, os agora vulgaríssimos registos familiares, o facto de ter um conhecimento técnico na área, acima da média (também devido ao facto de ser, na época, técnico de Raios X) proporcionava, por vezes, algumas conversas relativas ao assunto. Mas, que me lembre, o primeiro verdadeiro click deu-se aos 18 anos, quando vi uma câmara fotográfica usada à venda numa montra. Eu e o meu irmão, tínhamos umas poupanças guardadas de um trabalho de verão, pedimos conselho ao nosso pai, e lá comprámos a Pentax Spotmatic II, que o meu irmão ainda possui. Logo de seguida, comprámos um livro didáctico destinado a principiantes, e lá começámos a experimentar todos os exercícios propostos.
De há três-quatro anos para cá, e após diversas fases, entre o passar por ser repórter fotográfico, por formação técnica e artística, e por longos períodos em que as câmaras ficaram na gaveta, ressurgiu em mim, um novo olhar. Sinto esta fase, quase como que um renascimento fotográfico. Onde vou buscar influências das primeiras e pouco amadurecidas experiências de cariz artístico, explorando-as agora com maior maturidade psicológica e conceptual, ao mesmo tempo que faço uma espécie de síntese de todas as anteriores fases por que passei no meu percurso fotográfico.
2) Sendo sempre complicado e quiçá redutor atribuir um significado específico a um trabalho, existe contudo a questão da escolha, porque é que o artista acha que é significativo aquilo que mostra. Nestas duas séries que apresentas, o que tem elas de significativo para ti?
Estas duas séries são, numa primeira leitura, um retrato irónico de uma sociedade de consumo. De uma sociedade que, não só consome os recursos naturais, mas acima de tudo, se consome a si própria. Traço de forma caricatural, uma certa ideia de decadência, (ou de permanência num determinado status quo, como se quiser interpretar) mas uma decadência que parte de cada um em particular, para o todo, para a sociedade. São imagens de carácter existêncialista. Retratos de um certo estado de caos, um caos interior, mas em permanente ordenação.No fundo, pretendo falar da forma como a nossa mente funciona. Numa permanente e sempre incompleta organização do nosso caos, o caos dos nossos sentimentos, das nossas angustias e “excentricidades”… Sempre em permanente procura por algo a que chamamos “racionalidade”. Nesse processo, falo de mim, mas acima de tudo, tento falar dessa condição que é ser-se humano.
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3) Decadência, autofagia, desorientação generalizada, termos que frequentemente se podem encontrar numa avaliação mediatizada da realidade. É a tua opinião pessoal ou uma critica à forma como os media colocam as questões e inclusivamente criam os factos? Esse existencialismo não te parece também um dos fundadores desta atitude contemporânea que descreves, ao dedicar toda a primazia ao homem e nada a Deus (ao espírito)?
Há, evidentemente, afinidades entre algum do meu trabalho e o do Duane Michals. Mas também as há, relativamente à obra do Robert Frank, e do Wiliam Klein. Na verdade, julgo saber que foram estes dois autores, que iniciaram esta linha de abordagem à imagem fotográfica, tendo, a partir daí, surgido imensos outros autores a explorá-la. Normalmente não me preocupo muito com essa questão de saber com quem ou com o quê, o meu trabalho tem afinidades. Ele tem que ter, primeiramente, afinidades comigo. Tem de ser verdadeiro para mim, e não ser algo que eu faça porque vi em algum lado e achei piada. A partir daí, se encontrar outros trabalhos que coincidam com a exploração que ando a fazer, fico contente. Para mim, isso quer dizer que sou humano. E como tal, penso como um humano pode pensar.
Na verdade, da primeira vez que me ocorreu juntar várias imagens num único painel semelhante a um puzzle, não conhecia devidamente a obra do Robert Frank, e nessa linha, o que melhor conhecia eram as polaroids do David Hockney http://www.autrynationalcenter.org/yosemite/hockney.php?height=480&width=530 Mas não me identificava, naquela época, com aquele género de exploração da imagem… Para mim, uma imagem fotográfica, era, (e ainda é um pouco) algo que teria que ser produzido e completado dentro de um determinado espaço, o espaço do negativo ou do papel fotográfico que a delimita. Ora, o David Hockney, fazia continuar as imagens, apenas porque o assunto que elas registam continua, sendo que, nenhuma das imagens em separado, poderá “viver” por si. Mas as minhas podem. E o que continua nas minhas imagens, não é a realidade, mas a imaginação…
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5) A estrutura em ‘grelha’ quase omnipresente nos teus últimos trabalhos, é frequentemente vista como uma das imagens de marca do Conceptualismo? Corroboras?
Neste caso, se pretendo, de facto, retirar alguma materialidade à imagem fotográfica, recorrendo
a essas “grelhas”, por outro, quando em exposição, tenho até agora apresentado a grelha como sendo uma única impressão fotográfica. Portanto, uma única imagem composta ou montada. Mas uma montagem, onde as imagens não são, nem recortadas de alguns elementos, nem sobrepostas
em cima umas das outras. Antes, são apenas montadas lado a lado e as suas áreas são respeitadas o mais possível. Ou seja, se faço, aqui e ali, um ou outro reenquadramento, eles são sempre mínimos, sendo que, a maioria das imagens que uso nessas composições, não sofre qualquer corte.
Portanto, a imaterialidade não é apresentada pela fragmentação física da obra. No entanto, quando componho assim as imagens, tenho algumas regras a cumprir… No caso das séries a que te referes, procurei encontrar linhas de continuidade entre imagens, de modo a levar o espectador a ter a
sensação de que uma determinada imagem que faça parte da composição, se prolongue pela outra que lhe está próxima. Então, devido à tendência da percepção humana em unir linhas e pontos,
de forma a construir uma imagem, pretendo que o espectador vislumbre uma só imagem, que será composta pelo conjunto das imagens que compõem o painel ou puzzle. No entanto, uma vez que a continuidade das linhas nunca é perfeita, essa imagem nunca se concretiza, permanecendo sempre
a meio caminho entre o material e o imaterial. Ou seja, mantém-se como imagem imaginária, porque apenas se vislumbra na imaginação de quem vê a grelha completa de um só relance.
É então, este conceito de imagem imaginária, que, ao nível conceptual, pretendo explorar nessas duas séries, sendo que numa delas, ele é mais evidente que na outra.Mas, qualquer das imagens separadas desta grelha, são imagens por si mesmas. E embora umas mais fortes que outras, todas elas foram realizadas como imagens únicas. Isto conduz-nos a outra ideia, a ideia de estrutura composta por elementos independentes. Como exemplos de estruturas assim compostas, temos muitas coisas que nos rodeiam no nosso dia-a-dia… Desde um simples automóvel, que será composto de peças que o são só por si, e que poderiam “migrar” para um outro automóvel semelhante (mas não necessariamente da mesma marca) e aí funcionar… Podemos ver cada imagem em separado como uma nota ou frase musical, e o painel como a composição completa… Ou, como eu prefiro, podemos ver cada imagem como uma célula (microorganismo unicelular) de um multicelular organismo/imagem, sempre em mutação.
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6) Vi também noutros projectos teus, aquilo que parece ser uma certa uma subversão da noção de linearidade temporal. Embora talvez não tão presente nestes dois, porque é que isso é importante para ti?
A subversão da linha temporal, é um outro recurso que tenho usado diversas vezes, para criar as tais “imagens imaginárias”… Nesse caso, não será através de linhas condutoras que o observador imaginará uma imagem materialmente inexistente, mas através do “engano” quanto à sequência temporal que dou às sequências…Chamo-lhe “engano” (entre aspas) porque, por um lado, o espectador desprevenido não se apercebe que estará a ser induzido a “ver” algo que, realmente, não aconteceu. Ou, pelo menos, não aconteceu exactamente daquela forma… Por outro, o espectador mais atento pode aperceber-se disso, uma vez que é comum eu explicar o facto dessa manipulação estar presente. Mas como os espectadores distraídos estão em esmagadora maioria, o engano acaba por resultar de forma efectiva, e nesses casos, a imagem imaginária torna-se na ilusão (quase) perfeita.
A importância que isso tem para mim… Por um lado, e tal como no caso anterior, esta é uma forma de questionar o realismo da fotografia. Por outro, é uma forma de ter poder sobre o tempo, enquanto que a outra, será uma forma de ter poder sobre o espaço. No fundo, todos nós gostaríamos de ser um pouco Deuses… Talvez seja por isso, que a arte existe…
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7) A um fotógrafo pode-se perguntar o que anda a ver?
Perguntar, penso que pode… Só que, não sei se poderei responder de forma muito concreta, uma vez que ando a ver o que calha…Digamos que, ultimamente, vi essencialmente fotografia contemporânea. E por vezes, alguma fotografia antiga. Dentro da fotografia contemporânea, vi recentemente algumas Exposições dos Encontros da Imagem, em Braga, porque passei por lá devido a outros motivos e não quis deixar de espreitar em algumas galerias. Tive pena de não ter podido ver mais… O tema deste ano, “fronteiras do género”, explorou em exclusivo o “olhar” no feminino. Assim, foram convidadas apenas autoras (mulheres) para expor…Não sei se o “olhar feminino”, será muito diferente do “olhar masculino”… Alguns olhares serão certamente, outros nem tanto… De qualquer forma, (é pena) não consegui ver exposições suficientes para fazer essa estatística. Mas, num rápido desfolhar do catálogo (que não é, nunca, a mesma coisa) encontra-se uma grande
incidência de temas intimistas e/ou existencialistas, como por exemplo família, relações de amizade, ou a relação com o corpo.
Das exposições que vi, ficou-me mais na memória a da São Trindade, com o seu enigmático calendário em que os dias da semana, inscritos em francês, aparecem (não na ordem correcta) por baixo de imagens de umas pernas femininas vestidas com meias de licra. As meias vão-se rasgando, mas também, não necessariamente em sintonia com o passar do tempo… Um pequeno texto, que acompanhava as imagens, rezava assim: “Naquele dia, o Senhor fará desaparecer todos os adornos: os adornos dos pés, os colares em forma de sol e de lua (…) E então, em vez de perfume haverá mau cheiro; e em vez de cinta uma corda (…) em vez de beleza, uma horrível cicatriz. (Is 13,18 – 24) “São imagens muito fortes. Tanto as que se poderiam ver na parede, como as que imaginamos ao ler a passagem ali colocada (que presumo ser Bíblica) .
Relativamente à fotografia antiga, fui ver a exposição “arquivo Fotográfico”, no CCB. Trata-se
de um poderoso (e imenso) arquivo de imagens dos mais variados géneros, que, no seu conjunto, nos fala da forma como a fotografia tem vindo a ser usada pelas mais diversas correntes, desde
filosóficas, económicas ou políticas (a parte da fotografia russa está extremamente bem documentada) tanto para serviço, como para manipulação das sociedades e da história.
8.) Existe algo de especificamente português na tua fotografia? Que te parece a produção contemporânea portuguesa?
Não, de exclusivamente Português, penso que não. A não ser que consideremos um certa atracção (quase romântica) pelo antigo, pelo abandonado, como uma manifestação da nosso tão característico saudosismo… Mas não acredito que o sentimento de saudade seja exclusivo Português, embora apenas nós tenhamos inventado uma palavra para definir exclusivamente esse sentimento. Essencialmente, penso que há algo de humano na minha fotografia. De humano, porque sou humano. Sinto e penso como humano. E nas minhas imagens, falo muito do ser humano e de alguns dos seus conflitos interiores.
Quanto à produção contemporânea Portuguesa… Penso que estamos finalmente a começar a acordar para a fotografia. Tardiamente, como em (quase) tudo, mas mesmo assim, estamos melhor agora que há 10 anos, quando pura e simplesmente, não se vendia fotografia nas galerias. Isto claro, com as devidas excepções para, por exemplo, a Helena Almeida, o Jorge Molder, e talvez apenas, mais meia dúzia de autores. No entanto, esta evolução não tem só o lado positivo… Tal como noutras situações, estamos também a “importar” olhares… O “olhar frio”, de influência Alemã, é talvez o maior exemplo disso. Sinónimo de modernidade? Talvez, mas a palavra modernidade (agora na nova versão “pós-moderna”) não pode ser confundida com normalização…
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9) E para terminar, uma daquelas perguntas típicas dos questionários de Verão, que só não se aplica na totalidade porque estamos na Primavera… Quem seria o casal perfeito da fotografia?
Bom, a avaliar pelo calor que fez hoje, dir-se-ia melhor, primavera/verão. Assim, a pergunta ficaria também mais condizente com a “moda”… E por falar em modas, penso que o casal perfeito já existe: é o casal Becher. (Não confundir com o casal Beckham, esses mais ligados ao cinema). Os Becher, professores de fotografia na Alemanha nos anos 80, foram os iniciadores de uma das maiores, se não mesmo a maior, moda da fotografia contemporânea. Devido a eles, institucionalizou-se chamar a essa moda, de Escola Alemã, ou Escola de Dusseldorf, quando, na opinião de Sérgio Mah, um dos mais conceituados (se não mesmo, o mais conceituado) curadores/teóricos da fotografia Portugueses, não existe Escola Alemã. Ainda segundo Sérgio Mah, o que aconteceu foi somente que,
um grupo de ex-alunos deste casal ganhou prestígio e fama seguindo as suas ideias relativamente à fotografia. Essas ideias e alguns dos seus temas “fetiche”, (indústria e urbanismo), aliadas a impressões fotográficas de formatos gigantesco, transformaram-se numa moda por todo o mundo, e que, como refiro na minha anterior resposta, em Portugal está para durar. Pelo menos, a julgar por algumas das propostas apresentadas este ano no BesPhoto…
Carlos Vidal entrevista Philip-Lorca diCorcia
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Da série Hollywood ‘Ike Cole, 38 years old, Los Angeles, CA, $25′ 1990-92
A importância da obra de Philip-Lorca diCorcia parece estar ligada sobretudo à forma como nas suas narrativas “encenadas” da realidade, são colocadas em causa as expectativas de quem vê, em que por um lado se poderá pressupor no conceito de encenação um retirar de veracidade ao tema e por outro lado, a muleta interpretativa de um género que, por apresentar semelhanças com o documental, supostamente representará a realidade. A convenção idiomática da fotografia enquanto documento vê aqui os seus alicerces abanados, algo de que se pode ter uma idéia mais aprofundada na excelente entrevista que Carlos Vidal conduziu ao artista em Notícias recentes do “sonho americano”

Entrevista com Larry Towell no Twitter
Podem ver aqui a transcrição completa da entrevista online que Larry Towell deu via Twitter na quinta-feira passada, na qual também participei com uma pergunta. É dele um dos livros de cabeceira que leio actualmente The World From My Front Porch, do qual, conto em breve aqui dar nota. A foto é o “apanhado no acto”.
entrevista com cátia aguiam
Cruzei-me com este trabalho de Cátia Aguiam na última Bienal de Vila Franca, em Novembro passado, acontecimento sobre o qual escrevi neste post, tendo surgido a oportunidade de uma pequena entrevista com a autora, abaixo reproduzida.
ABP – Começo por desfazer o equívoco de ter pensado que este trabalho que apresentaste na Bienal de Vila Franca estaria a concurso, pois não notei que se tratavam apenas de 4 imagens quando o regulamento pedia 6 para poder concorrer aos prémios. Como é que surgiu o convite para lá expôres?
CA – Este trabalho – Família – faz parte do meu projecto de final de curso na ETIC, na área de fotografia criativa. Na altura da apresentação do trabalho ao júri convidado, a escola decidiu que seria eu a representá-la na Bienal de Vila Franca de Xira, como aluna do ensino profissional. Para mim foi um privilégio que funcionou também como um incentivo a continuar com estes tipos de projectos. Foi também importante porque deu um pouco de visibilidade ao que faço.
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ABP – Como é que surgiram estas imagens?
CA -Explicar como é que uma ideia surge nunca é fácil para mim, mas vou tentar! Não posso negar que o que faço, o resultado final, tem algo de mim, no sentido e na forma como observo, absorvo e penso o que me rodeia. Assim sendo, não posso dizer que estas imagens surgiram de uma só ideia, mas sim de várias! O que posso afirmar é que me inspirei em anúncios televisivos diversos, desde cervejas, detergentes, óleos de cozinha, carros, telenovela, o canal MTV, etc. É a partir do conjunto dessas influências que nasce o pensamento crítico que é transmitido nesta série “Família”, pois para mim, os anúncios publicitários são veículos que reflectem muito bem a nossa sociedade. Quanto ao processo criativo propriamente dito, após um primeiro período de observação e pesquisa, nasce a vontade de partilhar ou expulsar o que vai cá dentro, mas que ainda não tem por vezes uma forma concreta! Por exemplo, as máscaras e as situações encenadas foram modos descobertos à posteriori para transmitir as idéias!
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ABP – Nota-se trabalho de “produção” a vários níveis, conta-nos um pouco da feitura das imagens.
CA – De um modo prático, a maior dificuldade na realização das imagens foi pela tentativa em me aproximar o mais possível ao que imaginei nos momentos de criação. Nessa tentativa de mostrar os pormenores, nem sempre consegui operacionalizar tudo, porque houve imagens que surgiram na minha cabeça totalmente completas e detalhadas, mas que depois por factores vários não foi possível realizar do modo imaginado! Quando isso não aconteceu, tentei encontrar a pessoa que melhor se adequasse à personagem e encontrar espaços viáveis. Por exemplo, a imagem na piscina, eu queria transmitir a competitividade feminina, tinha idealizado a situação numa piscina de competição, mas como houve autorizações que estavam a tardar muito em sair e outras que nunca cheguei sequer a obter resposta, tive que procurar alternativas, acabando por encontrar a piscina que utilizei e assim, adaptar toda a ideia a um novo espaço. Ou seja a maior dificuldade foi fazer com que tudo o que foi pensado se tornasse realidade, sem fugir à ideia inicial!
Desta forma, esforcei-me para que a iluminação, guarda roupa, adereços, cor e personagens estivessem todos em concordância, sendo que a única coisa que não tive a possibilidade de fazer foram as máscaras das partes do corpo. De resto, todos os elementos foram por mim tratados e compostos, tendo surgido como resultado do que aprendi nos últimos três anos do curso que frequentei na ETIC, parte técnica e comunicação visual, bem como das minhas experiências pessoais!
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ABP – Já acabaste o curso, tens conseguido viver da fotografia?
Ao que parece essa é que é afinal a parte mais difícil! Na verdade, ainda não tive muito tempo para me organizar na procura de trabalho. Primeiro, porque após o terminus do curso, fui convidada a participar no projecto Leonardo Da Vinci, que me possibilitou ter estado os últimos meses do ano em Málaga em estágio. Até ao momento, os currículos e portfolios enviados na área de publicidade e moda, não obtiveram uma resposta totalmente positiva para mim. Deste modo, vou colaborando numa empresa familiar na área de reportagens, www.gloriaguiam.com.
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Entrevista com Hernâni Faustino
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Existe em Portugal um conjunto de autores, que além da expressão artistica pela qual são vulgarmente conhecidos utilizam outras vias de expressão, nomeadamente a fotografia, que de algum modo exploram em paralelo aos seus trabalhos principais. Hernâni Faustino é o primeiro nesta série de entrevistas a ser indagado acerca das possiveís conexões e motivações destes cruzamentos de linguagens, no caso entre a música e a fotografia. Trata-se de um profundo conhecedor do Jazz, sócio fundador da loja de jazz Trem Azul, com ligações naquela que é também a editora portuguesa com maior protagonismo na cena jazz internacional, a Clean Feed. A nível musical surge-nos na faceta de contrabaixista ligado ao jazz de improvisação, mas ultimamente tem-nos revelado uma outra faceta, a de fotógrafo. É comum na linguagem jazzística sobretudo mais ligada às correntes Bop (bebop, neobop, hardbop, freebop, etc) a noção de “respeito” pela tradição, situação que não parece tão visível nos músicos mais ligados ao movimento free improv que por vezes nem sequer se identificam como músicos de jazz. Sublinho essa noção, não pela necessidade de catalogação da fotografia aqui apresentada, mas porque pese embora as influências fotográficas citadas, em nenhuma delas parece a fotografia de Hernâni Faustino assentar de modo claro ou definitivo, provavelmente devido a essa aitude do “quebrar de regras”, de expressão criativa mais livre ou até abstracta, quiçá herdada ou conotada também com o movimento de improvisação no jazz, no qual Hernâni Faustino tem vindo a cultivar alguma da sua música.
ABP- Hernâni, tenho vindo a acompanhar alguma coisa do teu trabalho fotográfico embora ainda não tenha tido o prazer de ouvir o teu projecto musical, brecha essa que espero colmatar em breve. Fala-nos um pouco da origem da tua veia fotográfica.
HF – É uma origem muito intuitiva! O meu interesse pela fotografia surgiu por volta dos 14 anos quando recebi a minha primeira máquina, uma Kodak Instamatic, era uma máquina muito simples, mas fez nascer em mim um grande interesse pela fotografia. Anos mais tarde comecei a usar a minha primeira reflex, uma Zenit-e , uma máquina fabricada na ex-União Soviética totalmente manual, que me permitiu explorar e aprender (à custa de muitos rolos estragados é certo) trabalhar tempos de exposição, profundidade de campo, focagem, etc. Com esta máquina que ainda possuo, comecei a estar a par das imensas possibilidades das objectivas.
ABP- Que autores ou correntes da fotografia te influenciam ou influenciaram?
HF – Acho fascinante as primeiras imagens e toda aquela envolvência misteriosa que as rodeia. Gosto imenso de Edward J. Steichen, Alfred Stieglitz, William N. Jennings, Paul Strand, André Kertész, Lee Friedlander e muitos outros. Penso que de uma certa forma sou influenciado pelas mais variadas correntes e autores, embora não goste de os catalogar. Confesso que tenho um certo fascínio por longos tempos de exposição e imagens difusas….gosto muito do trabalho da Francesca Woodman, Miroslav Tichý, Paulo Nozolino, Jorge Molder e da Helena Almeida, ou das concepções do Saudek, e acho espantoso o trabalho conceptual dos fotógrafos Robert and Shana ParkeHarrison e do Joel-Peter Witkin.
ABP- Mistura o teu jazz e a tua fotografia, o que sai?
HF – Para mim o jazz é improvisação. A relação entre a minha música e a fotografia é completamente intuitiva, ou seja não determino ou estabeleço regras para conseguir uma determinada imagem, embora seja um pouco difícil fazer esta analogia. Mas provavelmente ficará mais visível uma parte de mim através destas duas formas de arte…desenhos com luz e som.
ABP- Que paralelos encontras entre estas duas formas de expressão?
HF – Encontro vários paralelos!Como forma de arte as abordagens são diferentes, embora eu veja nelas algumas semelhanças. Eu sou um improvisador! A música que eu toco é na grande maioria das vezes improvisada, sem rede, quanto muito poderão existir pequenas estruturas ou por vezes pequenos motivos que são desenvolvidos na improvisação. As minhas fotos seguem o mesmo princípio, são intuitivas, nunca sei muito bem o que vai acontecer, gosto de improvisar com a máquina fotográfica, correr riscos, explorar a velocidade, congelamentos, excessos de luz…enfim acho que de uma forma muito pessoal encontro muitos paralelos entre a minha fotografia e a minha música.
ABP- Fala-nos agora um pouco do teu trio RED, sei que gravaram há pouco.
HF – Estou muito contente com o trabalho desenvolvido com o RED trio. O grupo tem um ano de existência e durante este período demos alguns concertos e o projecto ganhou uma linguagem própria e uma consistência e coerência como grupo. Conseguimos encontrar uma unidade no nosso som e isso é fantástico. O pianista Rodrigo Pinheiro e o baterista Gabriel Ferrandini são músicos com imensas qualidades e antes do mais são excelentes pessoas. Estivemos durante 3 dias em Julho no Fundão, no auditório da Moagem a gravar o nosso primeiro disco. Foi um processo descontraído e gravamos sem qualquer tipo de pressão, o que é excelente.
ABP- Tens também participado noutros projectos musicais…
HF – Habitualmente toco na Viariable Geometry Orchestra dirigida pelo violista Ernesto Rodrigues. Durante este ano gravei dois discos para a editora Creative Sources, um deles acabou de ser editado, é uma composição para string trio + doublebass do compositor alemão Nikolaus Gersewski, intitulado Ordinary Music vol. 3, o outro foi com o guitarrista escocês Neil Davidson, Ernesto Rodrigues e o Guilherme Rodrigues, este deverá ser editado na primavera de 2009. Estes projectos musicais são particularmente interessantes para mim, uma vez que a música percorre sonoridades bem distantes do que habitualmente se ouve na improvisação convencional. Toquei a convite do Rafel Toral no seu Space Trio.
Colaboro também com o octeto A Parte Maldita, com os músicos António Chaparreiro, Nuno Rebelo, Rui Alves, Fernando Fadigas, Miguel Sá, Abdul Moimeme e Jorge Serigado. No final do ano tive o previlégio de tocar na festa de aniversário dos 60 anos do Carlos Zíngaro e de tocar em trio com o Vítor Rua.
ABP- Projectos futuros para as tuas artes?
Como sabes sou um fotógrafo amador. Não tenho grandes preocupações nem pretensões com a minha fotografia, espero continuar a fotografar e talvez um dia poder expor algumas delas. Em relação ao futuro, espero evoluir cada vez mais de forma natural e sem grandes preocupações técnicas, pois acho que se aprende muito com os erros. Espero melhorar um factor que para mim é determinante na fotografia: a sensibilidade e o nível artístico. Continuar a trabalhar com o RED Trio e poder colaborar em alguns dos projectos que estou envolvido. Espero poder tocar com músicos interessantes e evoluir mais como músico. Como fotógrafo, espero consolidar o meu trabalho e poder acrescentar algo de pessoal nesta forma de arte cada vez mais global. Gostaria de fazer uma exposição de fotografia em 2009.
Música ::::::::: www.myspace.com/hernanifaustino
Fotografia ::::: www.olhares.com/Costeira
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Nuno Moura – A way a life
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Inaugura na próxima sexta-feira, dia 15 na Cooperativa de Comunicação e Cultura de Torres Vedras, a exposição de fotografia “A Way of Life“, do meu amigo Nuno Moura, um registo de pendor documental acerca da vida no circo, na qual tive uma mãozinha de foto-editor, personagem também conhecido por “aquele que chateia”. Aproveitei para lhe disparar umas quantas perguntas acerca do seu trabalho…
ABP – Nuno, quais são as origens do teu romance com a fotografia?
NM – Não consigo precisar no tempo, o como, o quando e o porquê. Lembro-me contudo de duas coisas, para ganhar uns cobres para as despesas diárias, aquelas que uma família numerosa de classe média não podia financiar, comecei cedo (12 Anos) a trabalhar nas férias de Verão, e foi com o meu primeiro ordenado (1000.00 escudos/5€) que comprei o meu primeiro “caixote”… Acho que se chamava “agfamatic”. Recordo-me também da necessidade que tinha em trazer comigo instantes das muitas “viagens” curtas, ou menos curtas, que fazia… Assim como a necessidade que tinha em partilhá-las.
ABP – Quem te influenciou ou influencia no acto fotográfico?
NM – No início ninguém, nunca fui muito dado a ídolos. Só muito mais tarde passei a olhar com mais atenção as fotos, “a sério”, que ia vendo. Penso que os primeiros fotógrafos que “olhei” com atenção foram Steve McCurry e David Alan Harvey, aliás foram eles as minhas referências quando reiniciei a fotografia em finais do século passado (poético né?!). Um dia fiz um workshop com o Nanã Sousa Dias, no qual me foi pedido que batesse umas fotos com um rolo P/B, em que este serviria de suporte para a segunda parte do curso – ampliação. De partida para a Índia e contrariado, lá comprei o filme, o qual acabaria por ser exposto algures na cidade de Benares… “Lixado” por estar a perder as cores fabulosas do amanhecer. Quando vi a prancha de contacto, foi a “revelação”. Aquele era o único rolo onde aquilo que eu senti, as emoções que experimentei, estavam lá, depois disso ainda não voltei à cor…
Terei concerteza fotógrafos que, talvez inconscientemente, me poderão influenciar. Não procuro no entanto, copiar ou seguir um estilo ou fotógrafo em particular. Prefiro dizer-te alguns dos fotógrafos que mais admiro:
Ara Guller - O “Cartier-Bresson” Turco. Pela poesia com que retratou, especialmente, Istambul.
Arnold Newman – Pelos “retratos ambientais”.
Cartier-Bresson – “O instante decisivo”.
Gregory Colbert – Pelo estética sublime do projecto “ashes and snow”.
Helmut Newton – Pela forma como retratava a Mulher. As Mulheres “masculinas” com tendência para o andrógino… Extraindo toda a sensualidade para além da aparencia, fria, controlada… distante.
James Nachtway - Um dos meus fotógrafos preferidos na actualidade.
Kishin Shiroyama – Pela estética dos nus.
Philipe Halsmam - Um surrealista com uma criatividade fabulosa.
Robert Frank – O Mestre da reportagem subjectiva.
Sebastião Salgado – Pelos projectos. Pela atitude. Pelo “engajamento”.
Steve Mccurry – O meu colorista preferido.
Yousuf Karsh – O retrato perfeito… Volumes, tons, expressões.
Werner Bischof – Um mestre na reportagem objectiva. Com imagens fabulosas sob ponto de vista técnico.
Os meus amigos fotógrafos – Porque aprendi muito com eles.
ABP - Define a tua fotografia.
NM – Não gosto muito de definições porque ao definir estou a enquadrar em algo que já existe. Além de que estou a auto analisar-me o que também não me agrada visto que sendo a fotografia, também, uma forma de comunicação, prefiro deixá-lo para outros. Direi apenas que me preocupa o lado Humano da sociedade, que se vai esbatendo para dar lugar a relações estabelecidas com base no dinheiro, no consumo. Para te dar um exemplo, se vais ao mercado vês, para além do acto de comprar e vender, relações que se estabelecem dentro de outras premissas. Acaba por ser um local que transcende o mercantil e se alarga nos horizontes das relações Humanas. Por contraponto no hiper, existe apenas um lado comercial, um apelo manipulativo à compra. No hiper não se estabelecem relações… Porque as regras do espaço não permitem o estar, mas o comprar rápido. Porque tu não te relacionas com pessoas, mas com uma omnipresente marca. Não vais comprar ao Sr. Joaquim que tem uma história, mas, passe a publicidade, ao “modelo”. No fundo procuro registar o que o consumismo e a globalização, como forma de ditaduras… As novas ditaduras que legitimamos com um voto e acreditando que vivemos em democracia, vão fazendo desaparecer. A multiculturalidade, a biodiversidade… A livre iniciativa, estão em vias de extinção. Hoje é preciso ser testemunha para que existam no futuro e acreditando da reversibilidade do processo, referenciais que ajudem à tomada de consciência. E faço-o procurando, naquele momento em que o mundo para dar lugar à reflexão, criar uma imagem cujo sentido estético ajude a despertar emoções.
ABP - O que é que gostas e desgostas na fotografia de hoje
Agrada-me bastante o facto de existirem muitas formas de expressão fotográfica, mesmo naquelas que não consigo encontrar sentido, talvez por ignorância. Agrada-me o facto da fotografia se ter “democratizado”, pois é fácil a qualquer um comprar um objecto que registe o instante, mas essa “democracia” está a revelar-se, nalguns casos, um presente envenenado, pois duma certa banalização da imagem em que se perde o sentido estético e provavelmente também o seu valor, disso se aproveitam as grandes “centrais” de venda online de imagens, em detrimento dos fotógrafos profissionais que dessa forma veêm reduzido o valor do seu trabalho. Depois há a questão do digital que muitos acreditaram, perdoem-me a expressão, ingenuamente, que tornaria o custo da actividade mais barato, mas que na prática se revelou o contrário, embora reconheça o carácter prático do digital. Mas no geral acho que o balanço é positivo, a “democratização” digital trouxe muita gente com imensa qualidade, é apenas preciso separar o “trigo do joio”. A fotografia hoje está bem e recomenda-se.
ABP – Como é que surgiu esta série que vais agora expôr na Cooperativa?
NM – Periodicamente montavam-me um circo à porta de casa. Se tivermos em conta aquilo que disse anteriormente, temos os ingredientes necessários a uma reportagem. Um circo, a não ser que se trate de um qualquer projecto mediatizado, por isso naturalmente protegido, é uma atitude marginal, leia-se à margem. São elementos estranhos à nossa mentalidade burguesa e provinciana, de certo modo são o oposto dos “pequenos poderes” que tentam controlar a sociedade, dita civilizada, para proveito próprio. De vez em quando aparecem umas “almas caridosas desejosas de protagonismo” que se aproximam destas realidades humanas, mas não passa disso…
ABP Conta-nos um pouco da sua feitura.
NM - Como sempre, começo por uma abordagem com a explicação do projecto, na maior parte das vezes a recepção é positiva. Dificuldades tive certa vez na Índia ao tentar fotografar uma mesquita onde se juntavam radicais islâmicos, acabei por conseguir após horas de conversa, algo em que nós Portugueses somos peritos… Afinal somos todos humanos… E menos diferentes do que aquilo que, por vezes, pensamos. No circo fui tão bem aceite, que ao fim do terceiro dia já sabia como se faziam os truques de magia.
ABP – Projectos futuros?
NM – O facto de ser amador permite-me trabalhar sem pressões e fazer apenas o que gosto. Neste momento tenho vontade de continuar a fazer este tipo de levantamentos sobre “marginalidades”, leia-se formas de estar que embora tacitamente aceites, são vistas como ameaças ao status quo. Gostaria contudo de tornar a estética da minha reportagem menos objectiva para entrar num conceito mais subjectivo, enos evidente, mas com mais profundidade para os olhares atentos. É preciso fotografar mais….
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