Arquivo de ‘Évora’

Universidade de Évora, 450 anos


©Valter Vinagre/Kameraphoto

Projecto 450, tripla iniciativa – um livro, um video, uma exposição – da Universidade de Évora a propósito da comemoração dos 450 anos da instituição. As fotos ficaram a cargo do colectivo Kameraphoto, Alexandre Almeida, Augusto Brázio, Céu Guarda, Guillaume Pazat, João Pina, Jordi Burch, Martim Ramos, Nelson d’Aires, Pauliana Valente Pimentel, Pedro Letria, Sandra Rocha e Valter Vinagre. O vídeo, intitulado A Rede, foi realizado por Rui Xavier, também membro do colectivo .

As galerias podem ser vistas aqui, mas o melhor mesmo será dar um salto a Évora, onde a mostra decorre até 31 Dezembro, no Palácio da Inqusição (à Sé), edifício onde também fui “inquirido”, pela última vez, a fim de completar os estudos em Gestão. Tal ficou a dever-se a um exame de Economia Regional, no qual persistia em chumbar porque, desconhecia eu, os apontamentos estavam desactualizados. Embora a revelação seja algo desabonatória ao meu currículo estudantil, note-se contudo que o mesmo foi sendo “paralelamente” enriquecido por outras actividades, uma delas a fotografia, como já aqui relatei.

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Blog Action Day – Combater a pobreza

©1990joaohenriques, Évora,

Nalguma webesfera, hoje foi dia de discutir a pobreza, ver Blog Action Day para mais informação. Alguns sustentam que se deve dar dinheiro, outros educação, tudo isso nas mais diferentes nuances, cada cabeça sua sentença. Por mim, pobreza material tem um oposto, a ganância, consuetudinada na avareza, também ela uma forma de pobreza, porque quem é verdadeiramente rico, gera abundância para si e para todos. Para se atingir um equílibrio, erradicar uma parte significaria eliminar a outra, pelo que agir apenas do lado dos pobres, é afectar uma só parte da equação, em que uns tem pouco, porque poucos tem muito.

Num ensaio bastante interessante sobre a partilha de poder dentro dum empresa multinacional, verificou-se que a partilha do mesmo aumentava a rentabilidade das sucursais que aderiram em 40 a 60% em relação às que não faziam parte do projecto, mas apesar disso, o processo nunca foi avante. Porquê? Os administradores/accionistas queriam deter o poder. Enquanto a bola estiver apenas do lado dos pobres, ou seja, sem a boa vontade dos que podem influenciar o curso das coisas, pouco há a fazer, esperemos que esta crise possa trazer uma visão mais solidária do mundo, a todos os que até agora viveram fechados para ele.

Num visão mais microscópica, a grande maioria de nós é pobre mesmo sem o saber, pobre de espírito, emocional e intelectualmente, perpetuando essa condição, mesmo nas melhores condições para a superar. O roteiro de mudança é interior, passa pela tríade do que diariamente se pensa, se diz, se faz. Alguém que afirma/pensa/age como se o dinheiro fosse a raíz de todos os males, está apenas a demonstrar a sua incompetência e desconhecimento sobre como lidar com um dos aspectos materiais da vida… Mentalidade de pobre, talvez mais difícil de erradicar que a própria pobreza.

Nota sobre a fotografia: Miúdos a brincar num playground de um bairro de Évora. Se atentarem, verão 2 condições sociais distintas, claramente separadas na fotografia. Nesse dia embora brincassem no mesmo local, não brincavam juntos, a disposição dos elementos foi deles, não minha.

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As primeiras

©1990, Évora_Praça Giraldo_Senhora dos Jornais

Depois do post de ontem sobre Évora, fui rebuscar umas velharias saídas dos primeiros 10 ou 20 rolos que disparei. A minha primeira máquina foi uma Canon AE-1, que comprei com 2 lentes e mais uns acessórios por 50 contos, com o meu primeiro salário de 56 contos. Nesse mês cheguei a casa e vai de pedir um “empréstimo” à minha mãe a qual espantada perguntou, mas já não ganhas o teu ordenado, respondi orgulhoso tirando do saco, está aqui o meu ordenado todo. E aí fui eu armado em fotógrafo, sonhando com a Magnum, o Cartier-Bresson, o Capa, o Erwitt e outros tantos…

©1990, Évora_Praça Giraldo_Miúdos

©1990, Évora_Praça Giraldo_Miúdos

Estas três primeiras foram ambas tiradas no 25 de Abril de 90, os miúdos brincando no palanque das comemorações que entretanto já tinham acabado, a outra de uma senhora que vendia jornais pela rua, mas que já andava muita encurvada pelo peso dos anos que até metia dó vê-la ainda a ganhar a jorna, carregando as notícias frescas na sacola ao ombro.

©1990, Evora_Arcadas_Cego

Esta tem um história para contar, estive encostado uns bons 20 minutos esperando apanhar a arcada limpa de gente, uma vez que era feriado e o povo passeava pela rua, apesar da chuva. Aí estava eu a praticar a paciência, apanho uma aberta de passeantes, foco, disparo, passados días revelo, espreito as provas de contacto e não é que vejo uma figura a espreitar detrás do homem, diabos me levem se dei por ela ao fotografar.

©1990, Reguengos de Monsaraz, familia de ciganos

Estas são de uma família cigana que vivia para os lados da praça de touros de Reguengos de Monsaraz, um dia por lá me aventurei a fotografar sendo abordado por 2 pequenos, passados minutos já fotografava o acampamento todo, as famílias, com a devida algazarra do costume, se queria comprar umas calças, etc, ainda o melhor estava para vir, entro numa barraca com uma velhota já cega que grita pra mim “aí o mê sobrinho voltou” e assim que diz aquilo desata o mulherio numa gritaria pegada, que era eu que tinha ido para o Porto à tantos anos e que nunca mais tinha voltado, enfim uma história mirabolante da qual lá me desenvencilhei como pude. Por lá fiquei conversando e fotografando até ao final da tarde, ora me queriam comprar o carro, se sabia de alguém que quisesse comprar uma mula, de tudo se falou, na altura da refeição ainda tentei tirar umas fotos mas fui severamente reprimido pelo chefe, à refeição nunca, disse. Feitas as despedidas, ficou prometido que voltaria daí a dias com as fotos, chegado a casa pousei a máquina e alguém se lembra de ver se tem rolo dentro (só tinha feito um rolo, fotografar à pobre), aflito acudi mas já o negativo tinha ficado quase todo queimado, ainda revelei mas só se aproveitavam meia dúzia e algumas delas parcialmente queimadas, perdi a coragem de os enfrentar e de propôr novos retratos e nunca voltei, hoje com pena minha e certamente deles também, que quantas pragas não terão rogado ao fotógrafo aldrabão.

©1990, Reguengos de Monsaraz, familia de ciganos

©1990, Reguengos de Monsaraz, família de ciganos

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