Arquivo de ‘exposições’

180 graus, mês da fotografia de Almada

 

Este foi eleito o mês da fotografia em Almada, com um conjunto relativamente amplo de iniciativas, nas quais se inclui a minha exposição “180 graus“, que estará em exibição no Convento dos Capuchos até final do ano. O programa pode ser descarregado aqui.

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thomas struth, retrospectiva em serralves

©thomas struth, paradise 47

A partir de hoje em Serralves e até final de Janeiro de 2012. Excusas para não ir ao Porto?

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vik muniz

 

Não devia ser novidade mas para os casos mais esquecidos, avise-se que uma das grandes exposições deste “OutoVerão” está no Museu Berardo, materializada numa retrospectiva da obra de Vik Muniz. Monumental, literal e simbólicamente. Uma opinião sobre outra exposição do artista, desta feita em Nova Iorque, pode ser lida aqui. Outro presente Outonal estará “no ar” a partir de 28 do corrente: Thomas Struth: Fotografias 1978-2010. Em Serralves, mais concretamente. Compensemo-nos de notícias descabidas e desastrosas, se tal fôr possível.
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joel peter witkin @évora

Uma exposição de Joel Peter Witkin, numa das minhas cidades favoritas, Évora. Até 28 de Fevereiro.

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guillaume pazat, sensation

Momentos fugazes do viajante, congelados na superfície sensível do suporte e eleitos pelo olhar do fotógrafo. Situações do quotidiano, geometrizadas, ambiguidades, onde a opacidade dos contraluz nos evoca uma espécie de teatro de sombras. No amanhecer, ou entardecer surgem figuras sem tempo nem identidade, que convocam estas fotografias para um universo onírico e irreal.

Sensation
, de Guillaume Pazat, fotógrafo francês radicado em Portugal e membro do colectivo Kameraphoto. Uma viagem pela América do Sul deu o mote a este conjunto de imagens, que podem agora ser vistas até 28 de Fevereiro em Braga, no Restaurante Brac, em iniciativa conjunta com os Encontros da Imagem.

Vontade de partir…

EN

“Fleeting moments of the traveler, frozen in the sensitive surface of the substrate and elected by the eye of the photographer. Everyday situations, geometric, ambiguities, where the opacity of the backlight evokes a kind of shadow puppetry. At dawn, dusk or figures emerge out of time or identity, which call these photos to a dreamlike and unrealistic universe. ”

Sensation from Guillaume Pazat, french photographer living in Portugal and member of the Kameraphoto collective. A trip through South America set the tone for this group of images, which can now be seen until Feb. 28 at the Brac Restaurant (Braga), in a joint initiative with Encontros da Imagem.

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“quand il me prend dans les ses bras”

autor: Willy Ronis


Os franceses amam fotografia. Atget, Brassai, Cartier-Bresson, Depardon, Ronis, Doisneau e tantos outros foram ajudando a consolidar essa atracção, que conhece o seu ponto alto em Novembro com a realização de um conjunto de eventos, potenciandos pela presença do imenso número de visitantes que aflui à cidade para se deleitar com a fotografia. Na Paris Photo, feira de arte onde se encontram as mais cotadas galerias mundiais e onde esteve a portuguesa Pente10, é o local onde se pode observar de tudo um pouco, desde as caríssimas reproduções de fotógrafos mais antigos ou de meia dúzia dos recentes que já atingiram preços elevados, até à imensidão de contemporâneos com algum estatuto, mas cujos preços são ainda relativamente baixos. Uma sensação que me deixa algum desconforto, é a de que uma boa parte destas obras parecem ser feitas a pensar num mercado específico, beneficiando do efeito de escala que lhes confere uma dimensão estética aumentada, mas cuja sensação última é a de uma espécie de brilho falso, de características que não raras vezes, roçam o decorativo.

A presença das maiores editoras de fotografia ajuda a embelezar o certame, mas a compra é desaconselhada a bolsas pequenas, pois os preços de venda são os tabelados e na Amazon consegue-se quase tudo com descontos substanciais. A excepção é feita às editoras japonesas, cujas autênticas pérolas são muitas vezes inalcançáveis de outro modo, sendo que a fotografia vinda do Japão tem autores de uma beleza muito própria e absolutamente fascinante, dos quais já citei alguns casos aqui no blog. É no entanto a oportunidade para folhear alguns exemplares, que de outro modo raramente se vislumbrarão nas livrarias portuguesas.

No âmbito do Mois da La Photo, bienal que se realiza na cidade nos anos pares, realiza-se o evento própriamente dito, com exposições de alguma dimensão e importância em cerca de 30 locais e o Mois da La PhotoOFF, evento alternativo que agrega perto de 100 locais e onde se encontram sobretudo autores menos conhecidos. Aliadas a todas estas exposiçãos, uma imensão de conferências, promoções, lançamentos, etc., que de algum modo recomendam um mês de férias em Paris, e uma semana para recuperar das ditas.

Um evento muito interessante decorreu na Offprint, feira do livro que ocorre nos 4 dias da Paris Photo, sobretudo focada nas editoras independentes e onde se pode encontrar tudo o que está ligado à fotografia impressa, desde provas, a livros, revistas, zines, etc. O nome independente aqui pode soar a pouco mas é enganador, muito do que melhor se faz hoje em dia em fotografia não passa necessáriamente pelas “grandes” editoras, a Steidl é a excepção e o ponto de referência em excelência, basta perceber que teve uma exposição exclusiva no LaMonnaie, integrada no Mois de La Photo. Mas como já mencionara, os nomes maiores do ramo da impressão estavam no Carroussel du Louvre, no âmbito da feira de arte, sendo que aqui estavam as editoras mais pequenas. Foi nesta feira que perdi a cabeça e acabei com alguns euros que levara, onde levei horas a ver livros, infelizmente de uma forma que pouco gosto que é a de folhear à pressa, e onde tive a oportunidade de conhecer alguns colegas bloggers estrangeiros e também alguns dos fotógrafos que mais admiro.

Finalizo o artigo desculpando-me pela não apresentação de imagens, mas a minha fotografia turistica é sempre tão desgraçada e escassa, que neste caso mais vale ficar quieto.

Uma segunda opinião sobre a Paris Photo de 2010? Leiam a crónica no Desenhos Com Luz.

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larry clark, m/18

O presidente da Câmara de Paris e pelos vistos também vogal da comissão da Patetice, proibiu a entrada a menores de 18 anos na última exposição de Larry Clark “Kiss The Past Hello” no Musée d’Art Moderne, alegando imagens de carácter pornográfico, incitando ao consumo de drogas, etc. Que dirá dos Morangos com Açucar (não sei como é que se diz em francês) locais?

Link para algumas das imagens na HUH. Se tiverem menos de 18, pf não aborreçam o senhor…

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no país da fotografia: imagens africanas


Portugal está cheio de África, cheio de fotografia africana entenda-se. Uma medida neocolonial decente dos mandantes da cultura indígena seria impedir a exposição de Malick Sidibe de sair do país… certamente não se combateria a bancarrota, mas talvez as imagens servissem de inspiração a alguns lusitanos mais necessitados de exemplos de simplicidade e humildade. O melhor mesmo, é pensar em comprar um livro.

Africa: See You See Me. Outro exemplo vindo do continente negro, este acerca do ecletismo da representação fotográfica – a de dentro e a vinda de fora – das africas, patente no Museu da Cidade, Lisboa. Dividida em 3 partes, a exposição apresenta paradigmas de várias práticas e abordagens, mas em que regra geral parece dominar o cariz documental, de influências da fotografia “humanista” europeia, não obstante uma ou outra excepção de raiz mais conceptual. Por um lado, a forma como os africanos se vêem a eles mesmos, quer do ponto de vista do fotógrafo quer do fotografado. Depois, os pontos de vista de fotógrafos não-africanos, mas que de certo modo exibem algum grau de integração ou colaboração com o meio que fotografam. Finalmente uma fotografia de cariz mais etnográfico, apontando à herança do retrato efectuado por colonizadores. O âmbito é também o de fornecer um contraste entre a visão da fotografia do antigamente, apontada como sendo colonialista e aquela que se pratica hoje, ou pós-colonialista. Por vezes, a barreira torna-se pouco clara entre o que pode ser ou não um “discurso colonial” do ponto de vista fotográfico. Embora não esteja suficientemente informado sobre essa questão, quase toda a fotografia enferma de estereótipos, de preconceitos, de escolhas, de julgamentos, pelo que talvez o “colonialismo” se possa assumir como a noção desequlibrada destes preceitos, quando aplicados em imagens de países colonizados, por fotógrafos de países colonizadores e que afectam noções de historia, cultura, identidade e representação. Apagados fossem os nomes dos fotógrafos desta exposição e em muitas das imagens nos seria difícil aquilatar da origem ou posição do fotógrafo, quanto mais alinhavar um discurso pelo diapasão “colonialista”, e não estou com isso a confirmar ou desmentir a existência de imagens com esse pendor, mas apenas a verificar da dificuldade de verificar uma posição. A passagem de uma posição em que “o fotógrafo vê o outro como quer”, para “o outro é fotografado como deseja ser visto” é uma dialética que não se resolve o assunto da soberania visual por mera carta de intenções. O momento em que a fotografia “casou” com a antropologia, foi também o começo de algumas questões académicas cuja validade pode e deve ser questionada, pelo que esta seria uma excelente oportunidade para a produção de um documento intelectual (e de um catálogo) acerca do tema, embora na dita exposição nada se veja. Desconhece-se se o mesmo ainda virá ou não.

Permanecendo em África, ainda que por vias indirectas, a exposição Res Publica, na Fundação Calouste Gulbenkian, na qual em vários trabalhos fotográficos se podem vislumbrar questão ligadas às colonizações, antigas e modernas. Fotográficamente destaco Manuel Botelho (abaixo), que explora o still-life escultórico para criar pequenos tableaux que conferem sentido exploratório à construção proposta pelos curadores.


Saindo das africas, esta exibição na Gulbenkian aspira a uma abordagem mais global da noção de res publica, legítima sem dúvida, mas na qual contudo se parece por vezes esbarrar nalguns corpos estranhos. Dou como exemplo os retratos de Pierre Gonnord (abaixo), que contrastam nitidamente com o

sentido geral da exibição, em que o “cliente” vai desde o início sendo encaminhado para o universo artístico português e para as questões correlatas à portugalidade – que agora comemora o centenário da Republica – mas que de repente se vê colocado perante deambulações menos óbvias. Pierre Gonnord trabalha sobretudo questões ligadas ao rosto e ao retrato, lateralmente denotando influências da pintura. Gabriel Orozco trabalha o sentido escultórico de inserção no espaço e no tempo, aproveitando o ready made para sublinhar esses aspectos (ver imagem abaixo). Em ambos os casos, só algum esforço permite enquadrar estes trabalhos no sentido que se pretende dar a esta Res Publica, mesmo considerando um critério curatorial mais amplo. Certamente todas as escolhas tem uma justificação, seria interessante conhecê-la, pois que nalguns casos a obra em si já é suficientemente críptica ou opaca, e nos casos mencionados, nem a génese da mesma permite aquilatar da valia da mesma para a coesão desta exposição.


Pode no entanto estar a escapar algum detalhe, pois que algo desta dimensão é certamente estudado e analisado ao mais infímo pormenor, sendo nesse aspecto de notar positivamente a pertinência para o contexto proposto da inserção de 3 imagens de Taryn Simon, da série An American Index of the Hidden and Unfamiliar, as quais e ainda assim pesando a vontade de “globalizar” o assunto, não aparecem como óbvias para o ênfase geral, que parece pender claramente para a res publica lusa.

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“11.09.10″, de Helena Gonçalves

Helena Gonçalves apresenta nesta instalação fotográfica uma série de retratos de figuras da nossa cultura e que, no seu entender, recorrem à expressão artística como forma de tornar melhor o mundo em que vivemos. Fotografias de grande formato em exposição no Espaço Ginjal tirando partido das caractertísticas físicas,  emocionais e de memória deste lugar. Ballet Gulbenkian (Adriana Queiroz, Benvindo Fonseca, Francisco Rousseau, Olg…a Roriz, Paula Fernandes, Sandra Rosado, Wilson Domingues), Diogo Dória, José Saramago e Rodrigo Leão retratados em situações de guerra e tensão, em ambientes frios, hostis e descaracterizados, com as suas “armas” sejam elas o corpo, os livros, os instrumentos musicais, testemunhando na primeira pessoa que, se cada um der o seu contributo, é possível o mundo ser mais consciente, mais justo, mais humano. Um apelo à nossa própria reflexão.

A exposição é no Espaço Ginjal, Companhia de Teatro Útero, Rua do Cais do Ginjal, 53/54 Cacilhas, Almada, ali com vista para Lisboa e mesmo junto ao rio. A inauguração é a 11 de Setembro (sábado), às 18:30 e estará patente até 2 de Outubro, de 3ª a domingo das 17h às 21h.

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encontros da imagem 2010, braga

Mais uma edição deste excelente certame da fotografia em Portugal. São já 20 anos de trabalho, mesmo que nalguns deles, sem o interesse, o carinho e o reconhecimento da cultura nacional. É de pugnar pela perspectiva budista, “põe-te todo em tudo o que fazes, não te preocupes com os resultados.”

Este ano estarei presente com o trabalho “180º graus”, patente no Museu Pio XII. Este trabalho prende-se com várias perspectivas, por uma lado a relação que se estabelece com a fruição estética da paisagem, a dualidade fracturante que se estabelece na dicotomia belo/feio apela a ser ultrapassada por um movimento de integração, um registo mais contemplativo que devolva a equanimidade ao olhar, pelo que a série funciona a um nível subjectivo como um apelo espiritual. Por outro lado, procurou-se integrar uma parte mais objectiva que enquadrasse questões acerca dos usos do território urbano, no caso Torres Vedras, dados esses que no fundo podem ser universalizados, apelando à reflexão colectiva sobre problemáticas que são do interesse geral.

Uma palavra de agradecimento ao Rui Prata, director dos Encontros, pela aposta no meu trabalho, bem como aqueles que inicialmente apoiaram a sua concretização: a direcção da Cooperativa de Comunicação e Cultura de Torres Vedras, a SASLBM, através do Dr Jorge Santos, e também a Dulce Surgy, pelo apoio na concretização gráfica e no design.

O programa pode ser consultado aqui.

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180º na Cooperativa de Comunicação e Cultura

Imagens da primeira sala, ainda tem mais no andar de cima. Façam uma visita a Torres Vedras, se vierem digam olá! A Cooperativa está aberta à noite, até ás 02, sempre com ambiente animado, boa música e a simpatia local.

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“Nada” de Isaac Pereira, no Clube Literário do Porto

image

Um dos amigos que fiz nos Encontros da Imagem em Braga, o Isaac Pereira, a quem já tive o prazer de entrevistar, vai inaugurar amanhã “Nada” no Clube Literário do Porto. As imagens do Isaac, o local, com magnífica vista para Gaia, Ribeira e Douro, a livraria, o bar com piano, ou um bolo de chocolate de comer e chorar por mais, são motivos mais que suficientes para justificar a visita.

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Exposição “Id”, na Casa dos Cubos em Tomar


Inaugura a 4 de Março próximo, a exposição de fotografia “Id” na Casa dos Cubos, em Tomar, da minha autoria, que ficará patente até 5 de Abril. O post anterior anuncia uma outra exposição minha, com a particularidade de inaugurarem em dias consecutivos, o que, podem crer, não me tem dado tréguas, entre pós-produção e impressão das imagens, molduras, design de catálogo e livro respectivamente, lidar com a gráfica, etc. Acho que vou consultar os trânsitos astrológicos, para ver que boas “coincidências” são estas!
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Exposição da série “180º” na Cooperativa de Comunicação e Cultura de Torres Vedras

Inaugura no próximo dia 5 de Março, na Cooperativa de Comunicação e Cultura de Torres Vedras, ficando patente até 10 de Abril. A inauguração será pelas 22horas, apareçam para confraternizarmos um pouco!
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livros: kameraphoto, a state of affairs & 450

Mais duas sugestões para ofertas natalícias, do colectivo Kameraphoto dois livros recentemente lançados: “A STATE OF AFFAIRS“, medindo o pulsar do mundo em vários pontos do globo e o “Projecto 450“, encomenda da Universidade de Évora a pretexto da comemoração do aniversário daquela instituição. Ambos correspondem a exposições actualmente em curso, a primeira na Platafórma Revólver e a segunda no Palácio da Inquisição em Évora.

©guillaume pazat

    Do projecto “A STATE OF AFFAIRS“, podem ser vistas algumas imagens de Guillaume Pazat que fizeram parte desse trabalho, em Detroit.

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    joão pina, gangland

    É um autêntico prejuízo, deixar por visitar a exposição de João Pina na Galeria da Kamera, intítulada GANGLAND

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    “Jam Session”, entrevista com Nica Paixão


    ©Nica Paixão

    Adepta do jazz e amante da fotografia, Nica Paixão apresentou no sábado passado o seu mais recente trabalho “Jam Session”, no auditório municipal Augusto Cabrita, no Barreiro. A esse respeito, convidámo-la para uma pequena entrevista sobre este e outros projectos.

    1) Donde vem esse gosto pela fotografia e pelo jazz?
    O gosto pela fotografia estará certamente ligado ao facto do meu avô ser o fotógrafo António Paixão. Desde sempre adorei o cheiro dos químicos de revelação e quando o visitava na Filmarte tudo aquilo me era confortável. Sempre consumi imensa fotografia. Acho que existe algo de divino no acto de fotografar, mas na verdade o que me faz gostar de fotografia é o prazer enorme que me dá fotografar, pensar a fotografia, tratar fotografias, e tudo o que com ela se relaciona. Sou sempre feliz quando estou a fotografar. O jazz também começou cedo. Ouvia-se algum jazz em casa e a minha mãe cantava imenso pela casa. Há uns anos comecei a prestar atenção ao jazz feito cá em Portugal e fiquei surpreendida com a qualidade e diversidade de músicos.

    2) Que autores te influenciam ou influenciaram?
    O meu avô, obviamente. Era um pioneiro em técnicas de impressão ou como alguém da área o chamou “um percursor do photoshop”. A mim, quando o via imprimir, parecia-me sempre um druida a criar magias. Continuarei a aprender mais e mais na tentativa de me aproximar a ele, no domínio do filme e da impressão. Gosto muito do trabalho da Donata Wenders. A simplicidade eficaz das imagens dela. Gosto de fotografia de pessoas principalmente e talvez por isso me atraia o trabalho dela. Em termos de personagem na fotografia, fascina-me a Tina Modotti por inúmeras razões. Por cá sinto uma grande admiração pelo trabalho do Luís Rocha que tenho a sorte de ter sido e continuar a ser um dos meus professores. Acho que sou inflenciada por toda a fotografia que vejo, mesmo a que não gosto. A minha fotografia é também influenciada por autores de outras áreas nomeadamente a música.

    ©Nica Paixão

    3) Como é que surgiram estes “duetos”?
    Os duetos surgiram antes demais da minha obsessão pelo jazz. A estética visual e musical do jazz sempre me fascinaram. Se me perguntares sobre o meu instrumento preferido, a minha resposta instantânea nunca será o piano, mas a verdade é que sinto uma atracção inconsciente para a sua sonoridade e beleza estética e a maioria dos meus músicos de eleição são de facto pianistas. Temos a sorte, em Portugal, de ter excelentes pianistas e eu tenho a sorte de eles terem tido alguma paciência para me aturar. Em Março fiz um workshop de Projecto Fotográfico e Exposição, e nesse âmbito surgiu-me a ideia de aproveitar essa ocasião para investir na direcção que pretendo tomar na fotografia. Tenho uma preocupação com o estatuto do músico ídolo vs o músico ser humano, a fragilidade de quem vive da sua arte. É uma temática que me interessa e tentei explorá-la nesta série. Gostaria de a explorar ainda mais a fundo noutras séries que tenho já apontadas na minha moleskine. Daí para o contrabaixo foi um pequeno salto, uma vez que esse é claramente um dos meus instrumentos preferidos para além de extremamente fotogénico.

    IMG_6841


    ©Nica Paixão

    4) Sei que tens vários projectos em mãos actualmente, fala-nos um pouco deles.

    Tenho alguns sim. Tenho um projecto chamado “Mutações da Memória” em conjunto com a minha amiga e escritora Dulce Surgy. Este projecto alia texto a imagens, tentando reflectir sobre as memórias de infância e como ao longo da vida as vamos modficando quanto a significados e sensações. Este projecto vai ser exposto na Fábrica do Braço de Prata a partir de 5 de Novembro. Estou contente com este projecto e penso que esta parceria será para continuar. Fui também selecionada para o projecto “Periferias” do Movimento de Expressão Fotográfica – MEF e Oficina da Fotografia / C.M.L. com um projecto que me é muito querido e pessoal intitulado “Lisnave” e que, obviamente, é sobre o estaleiro da Lisnave na Margueira e o seu estado de abandono. Este projecto irá ser exposto, em Janeiro de 2010, no Palácio de Verride em Lisboa.
    Como já te disse, tenho também um projecto documental de longo curso sobre o Hot Club Portugal, que apesar de já bastante avançado, penso que ainda levará algum tempo até que se conclua, apesar de já terem surgido propostas da direcção do Hot para exposição do resultado já existente, todavia como o ambiciono para edição impressa, creio que terá que ter um corpo maior de trabalho.
    Ultimamente recebi também uma proposta para organizar em formato de série um pequeno projecto pessoal que tenho com o Alexandre, o meu filho de 9 anos, que são basicamente retratos quotidianos em filme preto e branco no formato half frame, que é um formato que me fascina desde criança e daí a opção de o trabalhar em conjunto com o meu filho.
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    Todos – Caminhada de Culturas

    Exposição de fotografia no Arquivo Municipal de Lisboa, Inaugura hoje, ver todoscaminhadadeculturas.blogspot.com

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    Os Sem Nome

    This exhibition is based in a research regarding new ways of thinking science fiction which we live between artistic production democratized by new technologies and curatorial research. Photographers that share images in the flickr internet network and who virtually meet in a globalized context sharing local images of a country that one might recognize as being Portugal. Exhibition of photographic images in digital forma of ways of look: roads, people at cafes, loves, cars, abandoned factories with sea and sky always present. The territory we draw today doesn’t bring borders, but an enlightenment that distinguishes itself from other geographies; Authors without first name, without signature, the work of art to be found within an invented name and real as the fiction which we live in our day by day between facebooks and video-conferences; This is the portrait of a country who thinks its Present from a distance, with the clarity that this doesn’t allow to have. We don’t sign a collective story, but we keep in a virtual memory, the images that we built through our passage by a real territory. Os Sem Nome are all of us, but their portrait still might be unknown to us.

    Uma proposta anónima. (via The F Blog)

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    Brohm/Ottersbach – Culatra/Areal


    Joachim Brohm
    , Culatra 08: Tractor #1


    Heribert Ottersbach, Transformation, 2009


    Joachim Brohm, Culatra 08: Beach


    Heribert Ottersbach, untitled (Areal), 2009

    Inspired by a series of paintings Ottersbach created in 2005/06 after travelling to the Portuguese island of Culatra, Brohm starts working on his Culatra cycle in 2008 after the artist’s first joint visit to the island. Harbouring fishermen, immigrants and dropouts, the scarcely populated island does not remain unaffected by the challenges of social change. Brohm returns three times within a year to produce his new series of 21 photographs, in which he reformulates the image of Culatra not only in a different medium, but also through a fundamentally different approach to the subject matter. Ottersbach, meanwhile, seeks inspiration from Areal, a series of some 300 photographs taken by Brohm between 1992 and 2002 on an industrial estate under redevelopment on the outskirts of Munich. Fascinated with Brohm’s accuracy in terms of composition and content, Ottersbach manages to extract details from his documentary photographs, on the basis of which he then creates new images which can only be achieved in this form through painting. Rather than reformulating the image, he completely transforms it. All photographs and paintings born of this creative dialogue are readily identifiable as an integral part of each artist’s respective oeuvre.”

    Infelizmente esta exposição encontra-se um pouco fora de mão(Colónia-Galerie Michael Wiesehöfer), mas esta influência mútua entre fotografia e pintura dá-me sempre muita curiosidade em ver.

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    #17 … no país da fotografia

    Valter Vinagre, HúmusFundação D Luís I, Centro Cultural de Cascais


    Húmus - Exposição de Valter Vinagre no Centro Cultural de Cascais


    Retrospectiva dos últimos 20 anos de trabalho de Valter Vinagre, espalhada por 2 salas do Centro Cultural de Cascais. Não terá sido fácil a tarefa do curador
    Alejandre Castellote, de escolher o que mostrar deste fotógrafo, que assumiu a aventura e o risco da diversificação para consolidar o seu trabalho no circuito artístico e comercial. Embora na visibilidade da sua obra pareça existir uma proeminência do género fotodocumental, o mesmo é praticado tendo em conta um conjunto de assumpções mais vastas e que parecem integrar algumas das preocupações derivadas das buscas que outros géneros fotográficos foram elaborando. O que nos é mostrado parece ser uma via possível de abordagem à amplitude temática com que o autor foi moldando o seu percurso, aqui predominando uma sensação de busca do sentido oculto e do misterioso (a morte, o sexo, o religioso), algo que se vê potenciado pela forma como as imagens estão dispostas, permitindo que o enigma se estabeleça, através de imagens de aparentemente simples recorte, mas que ganham uma nova dimensão narrativa pela estruturação proposta. O exercício de curadoria revela-se fundamental neste acto expositivo, pois são imagens que se retiram do contexto original em que foram produzidas e que ambicionam agora no seu conjunto alongar uma perspectiva mais funda sobre um pouco daquilo que tem sido a demanda e o devir da obra deste fotógrafo. Só me foi possível uma única visita à exposição, apressada já pelo encerrar do local, pelo que teria sido bem merecido um visionamento mais profundo e cuidado, facto que me leva a considerar estas breves palavras como potencialmente pouco justas, prejuízo que embora no qual talvez tenha já incorrido noutras situações, nada mais visa reflectir que a mera visão pessoal.

    “LA MIRADA EN EL OTRO” , Galeria do Rei D. Luís, Palácio Nacional da Ajuda


    Juan Fontcuberta, Momificaciones


    Chema Madoz, Sem Título


    Manuel Vilariño, Orixes


    Ouka Leele, Peluqueria


    P.P. Minguez, Torero-Cordero

    Exposição colectiva dos prémios nacionais da fotografia espanhola, a primeira nota não pode deixar de ir para aquela que me parece pouco feliz divisão desta mostra, entre pés, corpos, mãos, cadeiras e sei lá que mais que os curadores decidiram “inventar” para a catalogar, quase apetecendo perguntar se estariam a ilustrar algum ditado português do tipo “meter os pés pelas mãos” ou se o simplex já invadiu a peninsula, por oposição à tão ubiqua e por vezes demasiada complexificação a que aspira certa fotografia contemporânea. Descontando essa minudência, vi-me perante uma mão cheia de pérolas, o que não significa contudo que se trate de mostra isenta de altos e baixos, mas que prenuncia uma enorme vitalidade e originalidade, talvez possível por uma ampla configuração que incluí todo um património histórico e artístico ímpar, bem com condições sócio-económicas e culturais bem diferentes das da realidade portuguesa, de modo que traçar aqui uma oposição aquela que parece ser a tendência nacional,
    aparentemente muito menos alinhada com as questões da identidade ou cultura nacional, pode parecer um gesto relativamento injusto, quando não fútil. Relevo alguma ignorância perante o universo da fotografia espanhola, pelo que se tomada em conta exclusivamente esta exposição e desconhecendo os critérios de atribuição destes prémios, diría genéricamente estarmos perante um conjunto de fotógrafos cuja matéria prima base é a sua própria cultura, mas talvez seja apenas uma impressão derivada da forma como nos é apresentada, dedução a que o senso comum provavelmente não fugirá, pois que são reconhecidas ganas à forma como a nação castelhana evidencia e defende aquilo que é seu. Curiosamente dois dos mais conhecidos artistas no exterior, Juan Fontcuberta e Chema Madoz, são dos que nesta mostra menos evidenciam essa conotação claramente nacional. A par da mostra referente à Photo Espana 2009 de Cristóbal Hara e Mabel Palacín no Museu Berardo, uma excelente oportunidade para ficar a conhecer melhor a fotografia que vêm das nossas vizinhanças.

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    #16 … no país da fotografia

    José Cabral, Anjos UrbanosP4Photography

    Embora África nas suas diferentes expressões e convulsões esteja relativamente bem documentada por fotógrafos exógenos, é pouco conhecida entre nós a fotografia vinda daqueles que nela vivem e trabalham, à excepção de um pequeno número de fotógrafos sul-africanos que encontram eco a nível internacional, casos de David Goldblatt, Guy Tillim e Michael Subotzky. A fotografia dos Palop’s parecem não fugir a essa excepção, que agora se vê um pouco contrariada com esta exposição do moçambicano José Cabral,  em que são mostradas imagens efectuadas desde os finais dos anos 80 até à data. Vindas de um quotidiano que demonstra particular interesse pelo universo infantil, são as crianças que na sua alegria, serenidade e inocência se enquadram em contraponto ao que o resto das fotos permitem entrever, degradação, pobreza, as promessas ainda por cumprir do pós-colonialismo, num Moçambique felizmente menos exaurido pela guerra e tentando a sua caminhada pelo regime democrático, contudo creio deaumbular sobre o sentido desta exposição, aparentemente muito mais pessoal do que documental, pese embora o facto do largo horizonte temporal das fotos nos poder colocar perante um exercício retrospectivo ou de aparente coadjuvante da história. Não é isso que impede que este seja um conjunto fotográfico que nos transporta para um universo de esperança, algo diferente dos desditosos testemunhos que nos chegam de África, o que só por si já é uma enorme benção.

    Inês Gonçalves, S. Tomé, Máscaras e MitosGaleria Pente 10


    Esta autora trás-nos um conjunto de retratos dos habitantes de S. Tomé e à semelhança com José Cabral, poupa-nos às habituais litanias da desgraça africana, se bem que nas fotos não deixe de se ler a dureza com que a vida cavou alguns desses rostos e corpos. Com o continuado massacre de imagens em volta da perda, da morte, da fome, da violência, etc., quase nos habituámos a considerar que tudo o resto não existe, que a felicidade ou a alegria são miragens que nos estão vedadas, e o que nos é apresentado como proposta de felicidade, geralmente assenta sobre uma imensa e enganadora base de maquilhagem e artifício. Aqui, também o olhar se interroga perante a artificialidade destas vestimentas, que apesar de transformarem os seus utentes em personagens das Tragédias, em simultâneo lhes confere um certo sentido de estranheza, de deslocamento, sendo de notar o ar de seriedade com que as imagens nos surgem, pese embora a auréola de teatralidade que carregam. A grande maioria são retratos em PB, mas o conjunto é interrompido por pontuais imagens a cores, num aparente quebrar de expectativas, algo que creio poderia ser dispensado, face à tremenda ambiguidade e riqueza que os retratos em PB já carregam, mas essa é mera opinião, antes importaria perceber a razão por detrás desta opção, que de modo algum obnubila a beleza do conjunto.
    Catarina Botelho, Dias Úteis, R Anchieta 31 (ao Chiado)

    Reunidos sob o título ”Dias Úteis” estão 3 trabalhos da autora (“s/ titulo”, “modo funcionário de viver” e “termo de identidade e residência”). O pequeno gesto e o fragmento do quotidiano são valores em alta no mercado fotográfico, situação para a qual tem contribuido o continuado discurso de crise, financeira e de valores, resultando num apelo a um retorno ao básico, naquilo que aparenta ser uma nostalgia do passado com tanto de anseio de segurança como de receio pelo futuro, sintomático não apenas da errância e falta de direcção, mas sobretudo e mais grave, da incapacidade para assumir o presente e acolher o desconhecido. Esta idéia sai reforçada pela quantidade inusitada de trabalhos que reflectem estes sintomas, pontuados pelo desespero, pela impotência, pelo desinteresse, pela desresponsabilização, pela incapacidade em encontrar um rumo, mas sem dúvida que esse parece ser o real de muitos, há que entendê-lo e aceitá-lo dessa maneira, mas conviria sublinhar que existem outras realidades possíveis e que nem todos estão desejosos de contribuir para o ecrã negro que actualmente teima em querer desfilar perante os nossos olhos.

    Por outro lado, consecutivas acusações de que a fotografia não “reflecte” o real, algo que advém das suas propriedades específicas e que aliás me parece injusto, dado que nada existe que possa condensar uma tarefa que já de si é impossível, e aliadas também às acusações de “estetização” desse real, são alguns dos factores que ajudam a condensar e perceber as águas em que navegam estas séries, que bafejam o banal mas que paradoxalmente eliminam o acessório, o que de algum modo as torna num inverosímil excesso de realidade ou porventura numa ficção. Se o mundo da fotografia parece carente de maior conhecimento acerca da interioridade e profundidade, em oposição às tendências objectivas, gesto que só por si garantiria maior realismo ao acto fotográfico, isso é-nos sem dúvida mostrado neste registo do universo feminino proposto por Catarina Botelho, em contraposição a uma utilização massificada e objectificada do corpo. No entanto parece assistir-se a uma proposta de narratividade do real em que a vida se forma de um conjunto de gestos ausentes, quiçá distantes, a caminho de um universo claustrofóbico e sem saída, tão distante da realidade como o outro do final feliz e embelezado, em que certas fotografias nos querem fazer acreditar. Esta tendência actual, em que se tenta mostrar o real como ele é, quase como acto expiatório de uma culpa pelo facto de tanto tempo se andar a viver sob a égide da ilusão, embora apresentando simbolicamente a necessidade de assentar os pés na terra – o que é meritório – não deixa contudo de ser uma visão parcelar daquilo que efectivamente pode ser a realidade e a sua construção. Provavelmente, o que nos é mostrado é apenas aquilo que a autora desejaria exprimir, no entanto esse é um dos dramas destas séries, que de tão abertas nos seus sentidos, acabamos por desconhecer se estão ancoradas em real ou se se tratam de ficções, pois que me parece que a viverem neste limbo, claramente perdem a sua vitalidade. Numa nota final, alguns dos planos vislumbrados, tem claras similaridades com o cinema de pendor mais documental ou até realista, como é o caso do português Pedro Costa, não deixando de ser interessante o facto de ter ele sido escolhido para esta edição da Photo Espana, uma edição em que claramente se faz sentir o apelo ao real, no entanto, fica por conhecer de que forma sai a fotografia engrandecida ou desvalorizada nesta comparação, o que só por si, já daria para outro artigo.

    Sandra Rocha – “Há Metafísica Bastante Em Não Pensar Em Nada”, Casa Fernando Pessoa

    Desta vez não tenho nem uma foto que suporte esta pequena recensão. No dia em que fui visitar a mostra aconteceu um pequeno recital de piano no andar de baixo, o qual confina com o espaço expositivo, pelo que me sentei numa cadeira ali deixada, quiça propositadamente à apreciação das imagens, certo é que dormitei um pedaço, acordei ao som das palmas, levantei-me e saí, qual concerto, quando se sabe que já não há encore, esquecendo-me de registar algumas imagens. Sobre poemas de Alberto Caeiro, um heterónimo de Fernando Pessoa estas fotografias de Sandra Rocha, não me deixaram vontade de gritar pelo encore, pese embora alguma associação bem conseguida entre o simbólico e o imaginário da genialidade pessoana. A escolha dos motivos, algo decalcados uns dos outros, a má qualidade das ampliações, não serviram bem a esta proposta da autora, que se reconhece como alguém que cultiva a excelência sobretudo em trabalhos de pendor documental. Já as imagens (“made in china”) que mostrara nos Encontros da Imagem em Braga me tinham transmitido alguma sensação de decepção, mas é assim a proposta artistica, agradando a uns, desagradando a outros. Talvez estas palavras de Inês Pedrosa, directora da casa, sejam mais sensatas que as minhas… «Alberto Caeiro foi o Mestre e o menos erudito dos heterónimos de Pessoa. O aviso concreto contra as máscaras do conhecimento, o sábio guardador dosrebanhos do pensamento original. Por isso é, dentro do universo Pessoa, o poeta favorito dos amantes da natureza e dos defensores do regresso a um hipotético « mundo natural». Mas Caeiro é outra coisa, mais complexa e simples: um escritor que não tem medo das palavras, que não faz cerimónia com a vida. Olha e vê – e não se inquieta com a distância existente entre o olhar e a escrita, nem procura diminui-la. As imagens de Sandra Rocha fixam essa tranquilidade essencial de Caeiro, e o seu dom para contemplar a beleza das coisassem se sentir ameaçado ou, de alguma forma, intimidado por elas. Caeiro é o poeta do bom senso, essa qualidade essencial da inteligência humana que a velocidade feérica das artes e engenharias tantas vezes apaga. É essa, talvez, a grande marca da sua singularidade: o desassombro de lançar sobre tudo o que existe um pensamento sem vénias nem preconceitos. As fotografias de Sandra Rocha iluminam essa busca de uma justiça atenta e inaugural; usam a coragem do pormenor e a limpidez da liberdade. Fazendo-nos respirar o ar do exterior, a vida, a morte, a imensidão, os limites e a provocação eterna da beleza, convocam-nos para uma relativização de todos os nossos ilusórios saberes e sentimentos. Conduzem-nos à sensatez da alegria.»

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    De que é que falamos, quando falamos de fotografia?

    Algumas das exposições actualmente em cartaz em Lisboa, aludem directamente à questão em título. Jochen Lempert com Trabalho de Campo na Culturgest, é uma delas, recorrendo a processos aparentemente simples e exibindo de forma modesta, coloca o espectador perante a sua própria expectativa, abalando convenções e convicções, é isto a realidade, é possível evidenciá-la em fotografia, numa espécie de questionamento em circuito fechado que parece sempre remeter mais na direcção daquele que vê do que propriamente sobre aquilo que está a ser visto. Embora pudesse ser visto sob a capa do conceptualismo na vertente da recusa do estético e da estilização em detrimento do ontológico, este trabalho parece apresentar uma poética própria que o distancia da frieza analítica, além do mais, pouco se socorrendo do apoio da linguagem para se “explicar ou da vontade ou necessidade de comunicar idéias ou conceitos.

    Com Rodrigo Tavarela Peixoto e Aparelhos Breves na Galeria Sopro, em Lisboa, parece ser colocada em causa a função do objecto e também a noção de finalidade da arte (a cenoura à frente do burro…), para que serve, o que é, apenas existe aquilo que tem uma função? A noção de foto-escultura é patente, sublinhando a contradição entre a forma e a função, utilidade e ornamento, e tal como na exposição anterior, alguma aproximação à pintura, neste caso no modo como a luz cai no still life.

    Na galeria Pente 10, em Lisboa, o fotógrafo ucraniano Alexandr Glyadyelov com The Prison Within, um pouco diferente das propostas anteriores, esta talvez mais reconhecível como “fotografia”, face ao âmbito profusamente ilustrado e divulgado do fotojornalismo artístico, em jornais, revistas, prémios, etc. O documentário social tem características próprias que o distinguem e valorizam, a actualidade do tema, a ética, o humanismo, etc, contudo na utilização do preto e branco, é hoje práticamente impossível distinguir entre fotógrafos, Garry Winogrand, William Klein, Henry Cartier-Bresson, Robert Capa, James Nachtwey, firmaram o idioma desta categoria fotográfica, pelo que é sobretudo através da identificação do tema, que se faz a separação entre autores. Porém, a profundidade com que é trabalhado, a proximidade e a sensibilidade do fotógrafo e quiçá, a ubiquidade da presença mediatizada, são os factores que o tornam talvez no mais apetecido registo fotográfico, pelo grande público. Nesta exposição, são apresentadas visões da vida nas prisões na Rússia e Ucrânia, de meninos de rua e da toxicodependência.

    No Museu do Oriente, Topologias, de Edgar Martins, que está também exposto, como nomeado, na exibição do prémio Bes Photo 2008, no Museu Berardo. Alguns excertos: «Ele (o trabalho) focaliza-se nos espaços onde se vislumbra a polaridade entre o espaço construído e o espaço natural. É um trabalho baseado em metáforas muito simples. À primeira vista, penso que poderia dizer-se que lida essencialmente com dois temas: o impacte do modernismo no meio ambiente e a fotografia enquanto processo de representação. O meu trabalho é auto-referente, ou seja, comunica ideias sobre o quão difícil é comunicar (…) Quando as coisas são simples, as pessoas são levadas a comprometer-se com o trabalho. Também me agrada partir do princípio de que a minha obra as leva a reflectir na fotografia como um processo. Os meios de comunicação tornam-nos muito passivos em relação à imagem visual. O que eu pretendo verdadeiramente é que as pessoas se comprometam cada vez mais com a imagem e com o ambiente exterior.»;

    Sobre a série representada na imagem exposta (O Teórico Acidental): «Todo o meu trabalho que envolve a noite lida com a questão da representação através da ausência.(…)Estou interessado no aspecto teatral das imagens, na performance, mas não no sentido tradicional da palavra. Estou interessado em representar a performance do mundo consigo próprio enquanto conjunto de processos e factos.(…)Muitas vezes perguntam-me se estas fotografias são feitas com recurso a pequenos cenários de estúdio. A ambiguidade é importante porque confere ao trabalho um lado teatral que é o que dá vida às imagens. A luz misteriosa é uma característica que une todos os trabalhos nocturnos e um dos aspectos que transmite uma carácter surreal a estas obras.(…)Haverá pessoas que vão considerar que são controladas digitalmente – mas a verdade é que não são. Não há qualquer intervenção da minha parte, para além do enquadramento.»

    Este trabalho de Edgar Martins aponta para uma simplificação dos códigos estruturantes da linguagem conceptual (e convencional) na fotografia, ainda que não deixa de ladoa noção de explicação da arte, contudo o objectivo é aproximar, não distanciar, num atitude que talvez apressadamente se possa designar de pós-conceptualista. Karl Popper tem uma posição muito semelhante sobre a linguagem, tornando-a difícil, leva-se à incompreensão e ao abandono, Einstein, por sua vez falou na diferença entre simplificar e tornar simplório. O artista parte de algumas das convenções idiomáticas da fotografia, sem perder de vista o aspecto ambivalente da representação/simbologia da imagem, na série Paisagens do Além, reverte para o aspecto belo e sublime, ancorando a perspectiva da morte e da mutação, partilhando com Roni Horn o fascínio pela Islândia,; na série O Teórico Acidental, o aspecto representacional faz-se também pela ausência, o que pode ser revelado pela escuridão; em O Ensaio do Espaço, a narrativa sobre o impacto do fogo na floresta portuguesa, que embora reflectindo sobre a impotência, apresenta também a capacidade de regeneração, o mito da Fénix; em Aproximações, o contacto com os Terrains Vagues, em que à semelhança com John Gossage se fazem experimentações formais, neste caso de luz.
    Na escolha do título Topologias, pode ser entendível a associação com a corrente americana designada como “novos topógrafos”, com quem parece ser partilhável uma visão artística objectiva, apoiada em rigor formal, analítico, quase parecendo tabelar em Robert Adams no acto de apreciação da beleza ao mesmo tempo ambicionando à mudança social, estetizando, sem no entanto deixar de remeter para uma realidade que é mais complexa que aquela que qualquer imagem pode abarcar.

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    Exposições

    Imagemd e Lu´si Palam, da série "O Teórico Acidental"

    Imagem de Luís Palma, série "O Teórico Acidental"

    Inaugurou ontem a edição Bes Photo 2008 no Museu Berardo, com os nomeados Luís Palma, André Gomes e Edgar Martins, este tendo também inaugurado no Museu do Oriente na sexta-feira passada a exposição Topologias. Ainda no Museu Berardo, pode ser vista Arquivo Universal – o Documento e a Utopia Fotográfica, uma retrospectiva sobre a fotografia enquanto documento. São cerca de 1000 fotografias, das quais emanam todas as dúvidas que se reconhecem acerca dos limites e perspectivas da fotografia, numa pluralidade vivificante de pontos de vista, que embora não fornecendo resposta, caminho ou direcção, tem o mérito de permitir equacionar algumas dinâmicas presentes na paisagem fotográfica actual.

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    Foto: Dorothea Lange

    A não desperdiçar, a oportunidade de ver de perto imagens de Dorothea Lange, August Sander, William Klein, Ed Ruscha, Robert Adams, Dan Graham, Gerry Winogrand, etc. Sobre esta exposição, José Marmeleira questiona-se sobre  “que caminhos restam à fotografia?“, enquanto que Alexandre Pomar releva considerações políticas quando escreve que existem “limitações da mostra que decorrem da retórica esquerdista do seu comissariado“.

    Para uma inventariação mais intensiva de exposições fotográficas em território nacional, clicar em agenda.

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    #14 … no país da fotografia

    Domingo de manhã, rodando pela A17, deparo, no vidro traseiro de uma camioneta de transporte de passageiros, ou deverei já dizer passageiras, revelando antecipadamente a trama, num cartaz onde se inscrevera “Dia Internacional da Mulher: fazemos o mesmo que os homens! E de salto alto!”. Ultrapassei o veiculo mas não o escrito,  pois até confirmei pelo retrovisor se a frente corresponderia ao verso. Atrás do condutor, mumificado, talvez pela monotonia do conduzir em linha recta, e indiferente às mulheres em pé, uma nuvem de braços no ar, batendo palmas. Imaginei que cantavam, de preferência de salto alto. Sorri.

    Este fim de semana foi de cálice cheio (de Porto), eis as notas da prova…

    Li ZhenshengO Livro Vermelho de Um Fotógrafo Chinês – Centro Português de Fotografia

    20090307_lx_expo_019©Li Zhensheng

    O Livro Vermelho foi um dos símbolos maiores do domínio que uma ideologia pode atingir, quando servida por uma máquina de propaganda e repressão como a que foi montada na China de Mao Tse-Tung.  As imagens apresentadas são disso testemunho, como afirma Maria do Carmo Séren, “fotografias que, vivendo, acima de tudo, a Revolução Cultural e a indefectível admiração por Mao Tsé Tung (…) um mito de muita esquerda ocidental e (que) entusiasmou a contracultura. Trouxe-nos os kispos de nylon baratos, as camisas à Mao, os workshops de cultura de rua. Trouxe-nos, acima de tudo, uma China que parecia feliz e muito jovem, construindo um país com o Livro Vermelho e a ciência dos estudantes dos cursos médios, esses guardas vermelhos que Mao agraciou. Com as imagens de Li Zhensheng a humilhação inútil substitui a intransigência, a simulação do mito destrói a fé” (texto integral aqui).

    É-nos mostrado em tom de proximidade o que foi uma ditadura do proletariado que se transformou numa ditadura no protelariado, ilustrando o impacto da ideologia numa consciência colectiva que com ela não soube o que fazer, testemunho que felizmente sobreviveu, graças à teimosia e astúcia de um fotógrafo, ele próprio vítima posterior das tentações revisionistas do seu país e daqueles para quem e com quem trabalhava. O aspecto propagandístico ressalta na maioria das fotos, muitas delas com um conteúdo estético quase cinematográfico a que certamente não será alheia a paixão inicial  que Li Zhensheng nutria pelo cinema, à força convertida em serviço à pátria. Uma palavra para a legendagem, acrescendo à compreensão do abundante conjunto de imagens mostradas. No final, uma sensação algo apreensiva, se considerarmos que nestas fotografias estão simbólicamente contidas as sementes daquilo que parece ser a China actual, aparentando ainda ter uma visão sobre o mundo quase literalmente decalcada das páginas do defunto manual, com a diferença crucial de que agora o mesmo é debruado a ouro e o seu alcance se faz sentir muito para além das fronteiras internas desse país.

    Colectiva – Hospital de S. João, 3 Formas de VerCentro Português de Fotografia

    lfalves©luís ferreira alves

    O formato de exposição colectiva em redor de um sujeito, é presentemente um dos conceitos mais complexos e interessantes que se pode encontrar na vertente da fotografia documental. Embora possa não existir uma colaboração estreita como existirá por exemplo numa equipa de investigação, em que os esforços comuns giram em volta de um sujeito confinado muitas vezes à hipótese-validação, no colectivo de fotógrafos existe uma soma de contributos individuais que, não estando confinados pelas barreiras do método cientifico, ainda assim não deixam de contribuir para uma noção de veracidade (não de verdade objectiva). Neste projecto, inserido nas comemorações dos 50 anos do Hospital de S. João, no Porto, é interessante o contraste obtido nas fotografias de 3 artistas com estilos, escolas e sensibilidades tão distintas, são eles Luís Ferreira Alves, Olívia da Silva e Paulo Pimenta.

    lfa©luís ferreira alves

    Previamente à visita, já tinha visionado este post multimédia no Arte Photográphica, que começa com uma curiosa frase de Luís Ferreira Alvescheguei à conclusão que o esquema conceptual das fotografias iria ser eu próprio, as fotografias que me saltassem ao caminho, eu tirava-as”. Uma vez demonstrado ao que vinha, o fotógrafo exibe uma mão cheia de fotos absolutamente espantosas de rigor formal, de domínio técnico, mas que sem dúvida interpretam os valores do mesmo em relação ao local, um sítio feio, desinteressante, frio, escuro, sombrio, mórbido, que só a muito custo e de forma artificial consegue devolver algum lado de calor humano, contudo, isso não impedindo que o mesmo seja fotografado de forma verdadeira, realista e com tudo o que a palavra possa implicar, subjectiva. O “abalo ao conceptual” e a subjectividade do portfolio proposto poderão não deixar indiferentes os cultores da actual vertente neutral e objectiva da fotografia.

    osilva

    osilva2©olívia silva

    Olívia da Silva exibe uma visão também ela dotada de rigor e formalismo, embora neste caso talvez mais académico que estético. Pelas suas palavras, depreende-se que tenta fundir neste projecto de retrato, uma amostra de colaboradores, um aspecto artístico já presente no edifício que evidenciasse o aspecto de retrato (o quadro de D. João VI) e a mais complexa idéia de trazer colaboradores de várias áreas a um espaço cerimonial do hospital (a sala onde o quadro estava exposto) espaço esse que não lhes seria muito familiar. Confesso o meu gosto pelo retrato em formato quadrado, mas os planos escolhidos bem como a iluminação não me pareceram especialmente felizes. Por outro lado, a figura de D. João VI pela repetição (e posição ocupada no plano) parece ascender sobre as pessoas que estão a ser fotografadas, parecendo provocar um desequílibrio hierárquico que retira importância ao fotografado e fazendo duvidar sobre quem está a ser efectivamente a ser fotografado/representado. Quanto à ideia de colocar colaboradores em ambientes que lhes não são familiares, tal pode ser um interessante ponto de confluência entre escalões hierárquicos, todavia de que modo pode essa aproximação ser duradoura, ou temos apenas essa ilusão patente nas fotografias de que a fotografia supostamente pode ou deve promover alguma horizontalização da hierarquia? E poderá esse nivelamento ser compatível debaixo da égide de uma figura autocrática omnipresente nas fotografias, ou é apenas forjado com base no facto de D. João VI ter sido patrocinador da medicina em Portugal?

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    ppimenta21©paulo pimenta

    Paulo Pimenta apresenta uma abordagem cunhada no fotojornalismo, tal como num ensaio de cobertura de um evento, tentando dar uma visão abrangente do mesmo, ou para utilizar  as suas próprias palavras “da entrada até à saída” (do hospital, leia-se) proporcionando uma visão que tenta aproximar o  espectador da vivência na vida hospitalar, os aspectos íntimos e reconhecidos da vivência hospitalar, a dor, o sofrimento, a angústia, a espera, o acto laboral, alternando entre o fotograma realista e algumas metáforas visuais, complementando e completando este interessante projecto.

    Júlio de MatosFlat Water – Galeria Serpente, Porto

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    Para quem não conhece o Porto, a Rua Miguel Bombarda é o ponto fulcral das artes na cidade, onde se contam fácilmente umas 4/5 dezenas de estabelecimentos, entre lojas, galerias, ateliers, etc, ligados às artes, ao design, etc, sendo promovido mensalmente o dia das inaugurações, que a torna numa artéria apinhada de pessoas e eventos interessantes, quase porta sim porta sim, num frenesim cultural sem paralelo no país (infelizmente). Este sábado foi um desses dias, o que conjugado com o dia solarengo, trouxe a essa arty rua um ambiente de festa, quase a descambar na overdose cultural.

    É nessa rua, mais concretamente na Galeria Serpente que reside até 4 de Abril esta exposição de Júlio de Matos em cujo statemente se lê “1 – A bidimensionalidade e horizontalidade da superfície da água, quando em repouso. A água enquanto conceito inicial de espelho, que gerou mais tarde o conceito de espelho com memória.
    2 – A bidimensionalidade da impressão fotográfica, e a sua aparente tridimensionalidade provocada pela nossa incontrolada capacidade para descodificar a informação fotográfica como uma janela sobre a realidade.
    3 – A bidimensionalidade dos artefactos gráficos justapostos com um rigor pixelizante na superficie da imagem fotográfica, podem questionar a aparente tridimensionalidade da imagem ao propor á visão um exercício mental de reconciliação perceptiva.

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    A apresentação desta série, está também complementada por um texto a cargo de Bernardo Pinto de Almeida, intítulado “Para uma semiologia prática da imagem”, possívelmente ancorado na incapacidade descodificadora a que alude o artista no ponto 2 do statement. A temática do elemento Água é usada como pretexto para um paralelo encontrado com os limites do fotográfico, a água como espelho e como elemento portador de memória (a este respeito ver os trabalhos de Masaru Emoto: Mensagens da Àgua), a bidimensionalidade da superfície aquática, qual prova de impressão e finalmente, numa vertente talvez menos percetível à ligação com a Água, os elementos gráficos introduzidos, digitalmente suponho , os quais confesso, me fizeram vir à  cabeça uma frase que vi num projecto fotográfico americano “i’m going Baldessari”. O aparente quebrar daquilo que se espera perceber numa imagem onde a natureza é dominante, induzido pelas linhas geométricas introduzidas artificialmente, tem efectivamente o dom de relançar o questionamento sobre a forma de olhar não só a natureza, como a matriz simbólica nela aposta, contudo parece também esse acto introduzir nesta série um elemento de complexidade talvez dispensável, pois creio que a mesma já contém uma riqueza conceptual considerável, mesmo considerando apenas a proposta dos pontos 1 e 2 do statement.

    20090307_lx_expo_046Não que discorde de um certo desconforto provocado pelo sobreposição gráfica em imagens algumas delas de uma beleza relativamente kitsch, a arte também pode desconfortar mesmo sem que para isso tenha que necessiriamente epater le bourgeois, chocando ou subvertendo. A minha dúvida prende-se talvez com o facto de que o dispositivo empregue parece não contracenar adequadamente não só com o conceito de espelho e memória, mas além disso, dificulta a leitura simbólica da imagem, mais contribuindo para o adensar semiótico da mesma, ainda que sendo trabalhado no espectador talvez o desconstruir de uma certa forma de olhar, para posterior reconstrução da mesma com base em novos dados. Não conheço o trabalho anterior deste fotógrafo, pelo que se torna difícil perceber a sua trajectória apenas com base no texto introdutório ou no CV, todavia parece aparente a vontade de abrir novos caminhos da sua expressão fotográfica, ainda que não descolando do cariz identificador da prática anterior. Com base no que nesta exposição é dado a observar, existem dados suficientes que permitem antecipar entusiasmo e expectativa na antevisão de novos desenvolvimentos, face a esta exposição que foi talvez a mais interessante da tarde, não tanto pelo aspecto pictórico,  mas sobretudo pela proposta conceptual nela contida.

    O dia não quis terminar sem mais uma exposição, desta feita uma pequena mostra de artistas do colectivo lab65 na FNAC do NorteShopping. Pouco há a dizer, apenas duas fotos de cada fotógrafo, deu para ficar com uma idéia acerca dos trabalhos promissores das gentes sobretudo ligadas ao Norte, mas com um ou outro elemento também do Sul, quase todos com o denominador comum da premiação em concursos de renome. Foi pena não ter conseguido apanhar a “Hospitalidade” do Paulo Catrica, que esteve na galeria dos Silos do NorteShopping, pois que já estava em fase de desmontagem.

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