![]()
![]()
Imagens da primeira sala, ainda tem mais no andar de cima. Façam uma visita a Torres Vedras, se vierem digam olá! A Cooperativa está aberta à noite, até ás 02, sempre com ambiente animado, boa música e a simpatia local.
Comentarfotografias, minhas e as de todos
![]()
![]()
Imagens da primeira sala, ainda tem mais no andar de cima. Façam uma visita a Torres Vedras, se vierem digam olá! A Cooperativa está aberta à noite, até ás 02, sempre com ambiente animado, boa música e a simpatia local.
Comentar
Um dos amigos que fiz nos Encontros da Imagem em Braga, o Isaac Pereira, a quem já tive o prazer de entrevistar, vai inaugurar amanhã “Nada” no Clube Literário do Porto. As imagens do Isaac, o local, com magnífica vista para Gaia, Ribeira e Douro, a livraria, o bar com piano, ou um bolo de chocolate de comer e chorar por mais, são motivos mais que suficientes para justificar a visita.
ComentarMais duas sugestões para ofertas natalícias, do colectivo Kameraphoto dois livros recentemente lançados: “A STATE OF AFFAIRS“, medindo o pulsar do mundo em vários pontos do globo e o “Projecto 450“, encomenda da Universidade de Évora a pretexto da comemoração do aniversário daquela instituição. Ambos correspondem a exposições actualmente em curso, a primeira na Platafórma Revólver e a segunda no Palácio da Inquisição em Évora.
Do projecto “A STATE OF AFFAIRS“, podem ser vistas algumas imagens de Guillaume Pazat que fizeram parte desse trabalho, em Detroit.
Comentar
![]()
![]()
É um autêntico prejuízo, deixar por visitar a exposição de João Pina na Galeria da Kamera, intítulada GANGLAND

![]()
©Nica Paixão
Adepta do jazz e amante da fotografia, Nica Paixão apresentou no sábado passado o seu mais recente trabalho “Jam Session”, no auditório municipal Augusto Cabrita, no Barreiro. A esse respeito, convidámo-la para uma pequena entrevista sobre este e outros projectos.
1) Donde vem esse gosto pela fotografia e pelo jazz?
O gosto pela fotografia estará certamente ligado ao facto do meu avô ser o fotógrafo António Paixão. Desde sempre adorei o cheiro dos químicos de revelação e quando o visitava na Filmarte tudo aquilo me era confortável. Sempre consumi imensa fotografia. Acho que existe algo de divino no acto de fotografar, mas na verdade o que me faz gostar de fotografia é o prazer enorme que me dá fotografar, pensar a fotografia, tratar fotografias, e tudo o que com ela se relaciona. Sou sempre feliz quando estou a fotografar. O jazz também começou cedo. Ouvia-se algum jazz em casa e a minha mãe cantava imenso pela casa. Há uns anos comecei a prestar atenção ao jazz feito cá em Portugal e fiquei surpreendida com a qualidade e diversidade de músicos.
2) Que autores te influenciam ou influenciaram?
O meu avô, obviamente. Era um pioneiro em técnicas de impressão ou como alguém da área o chamou “um percursor do photoshop”. A mim, quando o via imprimir, parecia-me sempre um druida a criar magias. Continuarei a aprender mais e mais na tentativa de me aproximar a ele, no domínio do filme e da impressão. Gosto muito do trabalho da Donata Wenders. A simplicidade eficaz das imagens dela. Gosto de fotografia de pessoas principalmente e talvez por isso me atraia o trabalho dela. Em termos de personagem na fotografia, fascina-me a Tina Modotti por inúmeras razões. Por cá sinto uma grande admiração pelo trabalho do Luís Rocha que tenho a sorte de ter sido e continuar a ser um dos meus professores. Acho que sou inflenciada por toda a fotografia que vejo, mesmo a que não gosto. A minha fotografia é também influenciada por autores de outras áreas nomeadamente a música.
![]()
©Nica Paixão
3) Como é que surgiram estes “duetos”?
Os duetos surgiram antes demais da minha obsessão pelo jazz. A estética visual e musical do jazz sempre me fascinaram. Se me perguntares sobre o meu instrumento preferido, a minha resposta instantânea nunca será o piano, mas a verdade é que sinto uma atracção inconsciente para a sua sonoridade e beleza estética e a maioria dos meus músicos de eleição são de facto pianistas. Temos a sorte, em Portugal, de ter excelentes pianistas e eu tenho a sorte de eles terem tido alguma paciência para me aturar. Em Março fiz um workshop de Projecto Fotográfico e Exposição, e nesse âmbito surgiu-me a ideia de aproveitar essa ocasião para investir na direcção que pretendo tomar na fotografia. Tenho uma preocupação com o estatuto do músico ídolo vs o músico ser humano, a fragilidade de quem vive da sua arte. É uma temática que me interessa e tentei explorá-la nesta série. Gostaria de a explorar ainda mais a fundo noutras séries que tenho já apontadas na minha moleskine. Daí para o contrabaixo foi um pequeno salto, uma vez que esse é claramente um dos meus instrumentos preferidos para além de extremamente fotogénico.
![]()
![]()
©Nica Paixão
4) Sei que tens vários projectos em mãos actualmente, fala-nos um pouco deles.

![]()
Exposição de fotografia no Arquivo Municipal de Lisboa, Inaugura hoje, ver todoscaminhadadeculturas.

This exhibition is based in a research regarding new ways of thinking science fiction which we live between artistic production democratized by new technologies and curatorial research. Photographers that share images in the flickr internet network and who virtually meet in a globalized context sharing local images of a country that one might recognize as being Portugal. Exhibition of photographic images in digital forma of ways of look: roads, people at cafes, loves, cars, abandoned factories with sea and sky always present. The territory we draw today doesn’t bring borders, but an enlightenment that distinguishes itself from other geographies; Authors without first name, without signature, the work of art to be found within an invented name and real as the fiction which we live in our day by day between facebooks and video-conferences; This is the portrait of a country who thinks its Present from a distance, with the clarity that this doesn’t allow to have. We don’t sign a collective story, but we keep in a virtual memory, the images that we built through our passage by a real territory. Os Sem Nome are all of us, but their portrait still might be unknown to us.
Uma proposta anónima. (via The F Blog)


Joachim Brohm, Culatra 08: Tractor #1

Heribert Ottersbach, Transformation, 2009

Joachim Brohm, Culatra 08: Beach

Heribert Ottersbach, untitled (Areal), 2009
“Inspired by a series of paintings Ottersbach created in 2005/06 after travelling to the Portuguese island of Culatra, Brohm starts working on his Culatra cycle in 2008 after the artist’s first joint visit to the island. Harbouring fishermen, immigrants and dropouts, the scarcely populated island does not remain unaffected by the challenges of social change. Brohm returns three times within a year to produce his new series of 21 photographs, in which he reformulates the image of Culatra not only in a different medium, but also through a fundamentally different approach to the subject matter. Ottersbach, meanwhile, seeks inspiration from Areal, a series of some 300 photographs taken by Brohm between 1992 and 2002 on an industrial estate under redevelopment on the outskirts of Munich. Fascinated with Brohm’s accuracy in terms of composition and content, Ottersbach manages to extract details from his documentary photographs, on the basis of which he then creates new images which can only be achieved in this form through painting. Rather than reformulating the image, he completely transforms it. All photographs and paintings born of this creative dialogue are readily identifiable as an integral part of each artist’s respective oeuvre.”
Infelizmente esta exposição encontra-se um pouco fora de mão(Colónia-Galerie Michael Wiesehöfer), mas esta influência mútua entre fotografia e pintura dá-me sempre muita curiosidade em ver.


Retrospectiva dos últimos 20 anos de trabalho de Valter Vinagre, espalhada por 2 salas do Centro Cultural de Cascais. Não terá sido fácil a tarefa do curador Alejandre Castellote, de escolher o que mostrar deste fotógrafo, que assumiu a aventura e o risco da diversificação para consolidar o seu trabalho no circuito artístico e comercial. Embora na visibilidade da sua obra pareça existir uma proeminência do género fotodocumental, o mesmo é praticado tendo em conta um conjunto de assumpções mais vastas e que parecem integrar algumas das preocupações derivadas das buscas que outros géneros fotográficos foram elaborando. O que nos é mostrado parece ser uma via possível de abordagem à amplitude temática com que o autor foi moldando o seu percurso, aqui predominando uma sensação de busca do sentido oculto e do misterioso (a morte, o sexo, o religioso), algo que se vê potenciado pela forma como as imagens estão dispostas, permitindo que o enigma se estabeleça, através de imagens de aparentemente simples recorte, mas que ganham uma nova dimensão narrativa pela estruturação proposta. O exercício de curadoria revela-se fundamental neste acto expositivo, pois são imagens que se retiram do contexto original em que foram produzidas e que ambicionam agora no seu conjunto alongar uma perspectiva mais funda sobre um pouco daquilo que tem sido a demanda e o devir da obra deste fotógrafo. Só me foi possível uma única visita à exposição, apressada já pelo encerrar do local, pelo que teria sido bem merecido um visionamento mais profundo e cuidado, facto que me leva a considerar estas breves palavras como potencialmente pouco justas, prejuízo que embora no qual talvez tenha já incorrido noutras situações, nada mais visa reflectir que a mera visão pessoal.
Exposição colectiva dos prémios nacionais da fotografia espanhola, a primeira nota não pode deixar de ir para aquela que me parece pouco feliz divisão desta mostra, entre pés, corpos, mãos, cadeiras e sei lá que mais que os curadores decidiram “inventar” para a catalogar, quase apetecendo perguntar se estariam a ilustrar algum ditado português do tipo “meter os pés pelas mãos” ou se o simplex já invadiu a peninsula, por oposição à tão ubiqua e por vezes demasiada complexificação a que aspira certa fotografia contemporânea. Descontando essa minudência, vi-me perante uma mão cheia de pérolas, o que não significa contudo que se trate de mostra isenta de altos e baixos, mas que prenuncia uma enorme vitalidade e originalidade, talvez possível por uma ampla configuração que incluí todo um património histórico e artístico ímpar, bem com condições sócio-económicas e culturais bem diferentes das da realidade portuguesa, de modo que traçar aqui uma oposição aquela que parece ser a tendência nacional,
aparentemente muito menos alinhada com as questões da identidade ou cultura nacional, pode parecer um gesto relativamento injusto, quando não fútil. Relevo alguma ignorância perante o universo da fotografia espanhola, pelo que se tomada em conta exclusivamente esta exposição e desconhecendo os critérios de atribuição destes prémios, diría genéricamente estarmos perante um conjunto de fotógrafos cuja matéria prima base é a sua própria cultura, mas talvez seja apenas uma impressão derivada da forma como nos é apresentada, dedução a que o senso comum provavelmente não fugirá, pois que são reconhecidas ganas à forma como a nação castelhana evidencia e defende aquilo que é seu. Curiosamente dois dos mais conhecidos artistas no exterior, Juan Fontcuberta e Chema Madoz, são dos que nesta mostra menos evidenciam essa conotação claramente nacional. A par da mostra referente à Photo Espana 2009 de Cristóbal Hara e Mabel Palacín no Museu Berardo, uma excelente oportunidade para ficar a conhecer melhor a fotografia que vêm das nossas vizinhanças.

Embora África nas suas diferentes expressões e convulsões esteja relativamente bem documentada por fotógrafos exógenos, é pouco conhecida entre nós a fotografia vinda daqueles que nela vivem e trabalham, à excepção de um pequeno número de fotógrafos sul-africanos que encontram eco a nível internacional, casos de David Goldblatt, Guy Tillim e Michael Subotzky. A fotografia dos Palop’s parecem não fugir a essa excepção, que agora se vê um pouco contrariada com esta exposição do moçambicano José Cabral, em que são mostradas imagens efectuadas desde os finais dos anos 80 até à data. Vindas de um quotidiano que demonstra particular interesse pelo universo infantil, são as crianças que na sua alegria, serenidade e inocência se enquadram em contraponto ao que o resto das fotos permitem entrever, degradação, pobreza, as promessas ainda por cumprir do pós-colonialismo, num Moçambique felizmente menos exaurido pela guerra e tentando a sua caminhada pelo regime democrático, contudo creio deaumbular sobre o sentido desta exposição, aparentemente muito mais pessoal do que documental, pese embora o facto do largo horizonte temporal das fotos nos poder colocar perante um exercício retrospectivo ou de aparente coadjuvante da história. Não é isso que impede que este seja um conjunto fotográfico que nos transporta para um universo de esperança, algo diferente dos desditosos testemunhos que nos chegam de África, o que só por si já é uma enorme benção.


Reunidos sob o título ”Dias Úteis” estão 3 trabalhos da autora (“s/ titulo”, “modo funcionário de viver” e “termo de identidade e residência”). O pequeno gesto e o fragmento do quotidiano são valores em alta no mercado fotográfico, situação para a qual tem contribuido o continuado discurso de crise, financeira e de valores, resultando num apelo a um retorno ao básico, naquilo que aparenta ser uma nostalgia do passado com tanto de anseio de segurança como de receio pelo futuro, sintomático não apenas da errância e falta de direcção, mas sobretudo e mais grave, da incapacidade para assumir o presente e acolher o desconhecido. Esta idéia sai reforçada pela quantidade inusitada de trabalhos que reflectem estes sintomas, pontuados pelo desespero, pela impotência, pelo desinteresse, pela desresponsabilização, pela incapacidade em encontrar um rumo, mas sem dúvida que esse parece ser o real de muitos, há que entendê-lo e aceitá-lo dessa maneira, mas conviria sublinhar que existem outras realidades possíveis e que nem todos estão desejosos de contribuir para o ecrã negro que actualmente teima em querer desfilar perante os nossos olhos.
Por outro lado, consecutivas acusações de que a fotografia não “reflecte” o real, algo que advém das suas propriedades específicas e que aliás me parece injusto, dado que nada existe que possa condensar uma tarefa que já de si é impossível, e aliadas também às acusações de “estetização” desse real, são alguns dos factores que ajudam a condensar e perceber as águas em que navegam estas séries, que bafejam o banal mas que paradoxalmente eliminam o acessório, o que de algum modo as torna num inverosímil excesso de realidade ou porventura numa ficção. Se o mundo da fotografia parece carente de maior conhecimento acerca da interioridade e profundidade, em oposição às tendências objectivas, gesto que só por si garantiria maior realismo ao acto fotográfico, isso é-nos sem dúvida mostrado neste registo do universo feminino proposto por Catarina Botelho, em contraposição a uma utilização massificada e objectificada do corpo. No entanto parece assistir-se a uma proposta de narratividade do real em que a vida se forma de um conjunto de gestos ausentes, quiçá distantes, a caminho de um universo claustrofóbico e sem saída, tão distante da realidade como o outro do final feliz e embelezado, em que certas fotografias nos querem fazer acreditar. Esta tendência actual, em que se tenta mostrar o real como ele é, quase como acto expiatório de uma culpa pelo facto de tanto tempo se andar a viver sob a égide da ilusão, embora apresentando simbolicamente a necessidade de assentar os pés na terra – o que é meritório – não deixa contudo de ser uma visão parcelar daquilo que efectivamente pode ser a realidade e a sua construção. Provavelmente, o que nos é mostrado é apenas aquilo que a autora desejaria exprimir, no entanto esse é um dos dramas destas séries, que de tão abertas nos seus sentidos, acabamos por desconhecer se estão ancoradas em real ou se se tratam de ficções, pois que me parece que a viverem neste limbo, claramente perdem a sua vitalidade. Numa nota final, alguns dos planos vislumbrados, tem claras similaridades com o cinema de pendor mais documental ou até realista, como é o caso do português Pedro Costa, não deixando de ser interessante o facto de ter ele sido escolhido para esta edição da Photo Espana, uma edição em que claramente se faz sentir o apelo ao real, no entanto, fica por conhecer de que forma sai a fotografia engrandecida ou desvalorizada nesta comparação, o que só por si, já daria para outro artigo.

Algumas das exposições actualmente em cartaz em Lisboa, aludem directamente à questão em título. Jochen Lempert com Trabalho de Campo na Culturgest, é uma delas, recorrendo a processos aparentemente simples e exibindo de forma modesta, coloca o espectador perante a sua própria expectativa, abalando convenções e convicções, é isto a realidade, é possível evidenciá-la em fotografia, numa espécie de questionamento em circuito fechado que parece sempre remeter mais na direcção daquele que vê do que propriamente sobre aquilo que está a ser visto. Embora pudesse ser visto sob a capa do conceptualismo na vertente da recusa do estético e da estilização em detrimento do ontológico, este trabalho parece apresentar uma poética própria que o distancia da frieza analítica, além do mais, pouco se socorrendo do apoio da linguagem para se “explicar ou da vontade ou necessidade de comunicar idéias ou conceitos.
Com Rodrigo Tavarela Peixoto e Aparelhos Breves na Galeria Sopro, em Lisboa, parece ser colocada em causa a função do objecto e também a noção de finalidade da arte (a cenoura à frente do burro…), para que serve, o que é, apenas existe aquilo que tem uma função? A noção de foto-escultura é patente, sublinhando a contradição entre a forma e a função, utilidade e ornamento, e tal como na exposição anterior, alguma aproximação à pintura, neste caso no modo como a luz cai no still life.

Na galeria Pente 10, em Lisboa, o fotógrafo ucraniano Alexandr Glyadyelov com The Prison Within, um pouco diferente das propostas anteriores, esta talvez mais reconhecível como “fotografia”, face ao âmbito profusamente ilustrado e divulgado do fotojornalismo artístico, em jornais, revistas, prémios, etc. O documentário social tem características próprias que o distinguem e valorizam, a actualidade do tema, a ética, o humanismo, etc, contudo na utilização do preto e branco, é hoje práticamente impossível distinguir entre fotógrafos, Garry Winogrand, William Klein, Henry Cartier-Bresson, Robert Capa, James Nachtwey, firmaram o idioma desta categoria fotográfica, pelo que é sobretudo através da identificação do tema, que se faz a separação entre autores. Porém, a profundidade com que é trabalhado, a proximidade e a sensibilidade do fotógrafo e quiçá, a ubiquidade da presença mediatizada, são os factores que o tornam talvez no mais apetecido registo fotográfico, pelo grande público. Nesta exposição, são apresentadas visões da vida nas prisões na Rússia e Ucrânia, de meninos de rua e da toxicodependência.
No Museu do Oriente, Topologias, de Edgar Martins, que está também exposto, como nomeado, na exibição do prémio Bes Photo 2008, no Museu Berardo. Alguns excertos: «Ele (o trabalho) focaliza-se nos espaços onde se vislumbra a polaridade entre o espaço construído e o espaço natural. É um trabalho baseado em metáforas muito simples. À primeira vista, penso que poderia dizer-se que lida essencialmente com dois temas: o impacte do modernismo no meio ambiente e a fotografia enquanto processo de representação. O meu trabalho é auto-referente, ou seja, comunica ideias sobre o quão difícil é comunicar (…) Quando as coisas são simples, as pessoas são levadas a comprometer-se com o trabalho. Também me agrada partir do princípio de que a minha obra as leva a reflectir na fotografia como um processo. Os meios de comunicação tornam-nos muito passivos em relação à imagem visual. O que eu pretendo verdadeiramente é que as pessoas se comprometam cada vez mais com a imagem e com o ambiente exterior.»;
Sobre a série representada na imagem exposta (O Teórico Acidental): «Todo o meu trabalho que envolve a noite lida com a questão da representação através da ausência.(…)Estou interessado no aspecto teatral das imagens, na performance, mas não no sentido tradicional da palavra. Estou interessado em representar a performance do mundo consigo próprio enquanto conjunto de processos e factos.(…)Muitas vezes perguntam-me se estas fotografias são feitas com recurso a pequenos cenários de estúdio. A ambiguidade é importante porque confere ao trabalho um lado teatral que é o que dá vida às imagens. A luz misteriosa é uma característica que une todos os trabalhos nocturnos e um dos aspectos que transmite uma carácter surreal a estas obras.(…)Haverá pessoas que vão considerar que são controladas digitalmente – mas a verdade é que não são. Não há qualquer intervenção da minha parte, para além do enquadramento.»
Este trabalho de Edgar Martins aponta para uma simplificação dos códigos estruturantes da linguagem conceptual (e convencional) na fotografia, ainda que não deixa de ladoa noção de explicação da arte, contudo o objectivo é aproximar, não distanciar, num atitude que talvez apressadamente se possa designar de pós-conceptualista. Karl Popper tem uma posição muito semelhante sobre a linguagem, tornando-a difícil, leva-se à incompreensão e ao abandono, Einstein, por sua vez falou na diferença entre simplificar e tornar simplório. O artista parte de algumas das convenções idiomáticas da fotografia, sem perder de vista o aspecto ambivalente da representação/simbologia da imagem, na série Paisagens do Além, reverte para o aspecto belo e sublime, ancorando a perspectiva da morte e da mutação, partilhando com Roni Horn o fascínio pela Islândia,; na série O Teórico Acidental, o aspecto representacional faz-se também pela ausência, o que pode ser revelado pela escuridão; em O Ensaio do Espaço, a narrativa sobre o impacto do fogo na floresta portuguesa, que embora reflectindo sobre a impotência, apresenta também a capacidade de regeneração, o mito da Fénix; em Aproximações, o contacto com os Terrains Vagues, em que à semelhança com John Gossage se fazem experimentações formais, neste caso de luz.
Na escolha do título Topologias, pode ser entendível a associação com a corrente americana designada como “novos topógrafos”, com quem parece ser partilhável uma visão artística objectiva, apoiada em rigor formal, analítico, quase parecendo tabelar em Robert Adams no acto de apreciação da beleza ao mesmo tempo ambicionando à mudança social, estetizando, sem no entanto deixar de remeter para uma realidade que é mais complexa que aquela que qualquer imagem pode abarcar.
Imagem de Luís Palma, série "O Teórico Acidental"
Inaugurou ontem a edição Bes Photo 2008 no Museu Berardo, com os nomeados Luís Palma, André Gomes e Edgar Martins, este tendo também inaugurado no Museu do Oriente na sexta-feira passada a exposição Topologias. Ainda no Museu Berardo, pode ser vista Arquivo Universal – o Documento e a Utopia Fotográfica, uma retrospectiva sobre a fotografia enquanto documento. São cerca de 1000 fotografias, das quais emanam todas as dúvidas que se reconhecem acerca dos limites e perspectivas da fotografia, numa pluralidade vivificante de pontos de vista, que embora não fornecendo resposta, caminho ou direcção, tem o mérito de permitir equacionar algumas dinâmicas presentes na paisagem fotográfica actual.
Foto: Dorothea Lange
A não desperdiçar, a oportunidade de ver de perto imagens de Dorothea Lange, August Sander, William Klein, Ed Ruscha, Robert Adams, Dan Graham, Gerry Winogrand, etc. Sobre esta exposição, José Marmeleira questiona-se sobre “que caminhos restam à fotografia?“, enquanto que Alexandre Pomar releva considerações políticas quando escreve que existem “limitações da mostra que decorrem da retórica esquerdista do seu comissariado“.
Para uma inventariação mais intensiva de exposições fotográficas em território nacional, clicar em agenda.
ComentarDomingo de manhã, rodando pela A17, deparo, no vidro traseiro de uma camioneta de transporte de passageiros, ou deverei já dizer passageiras, revelando antecipadamente a trama, num cartaz onde se inscrevera “Dia Internacional da Mulher: fazemos o mesmo que os homens! E de salto alto!”. Ultrapassei o veiculo mas não o escrito, pois até confirmei pelo retrovisor se a frente corresponderia ao verso. Atrás do condutor, mumificado, talvez pela monotonia do conduzir em linha recta, e indiferente às mulheres em pé, uma nuvem de braços no ar, batendo palmas. Imaginei que cantavam, de preferência de salto alto. Sorri.
Este fim de semana foi de cálice cheio (de Porto), eis as notas da prova…
Li Zhensheng – O Livro Vermelho de Um Fotógrafo Chinês – Centro Português de Fotografia
©Li Zhensheng
O Livro Vermelho foi um dos símbolos maiores do domínio que uma ideologia pode atingir, quando servida por uma máquina de propaganda e repressão como a que foi montada na China de Mao Tse-Tung. As imagens apresentadas são disso testemunho, como afirma Maria do Carmo Séren, “fotografias que, vivendo, acima de tudo, a Revolução Cultural e a indefectível admiração por Mao Tsé Tung (…) um mito de muita esquerda ocidental e (que) entusiasmou a contracultura. Trouxe-nos os kispos de nylon baratos, as camisas à Mao, os workshops de cultura de rua. Trouxe-nos, acima de tudo, uma China que parecia feliz e muito jovem, construindo um país com o Livro Vermelho e a ciência dos estudantes dos cursos médios, esses guardas vermelhos que Mao agraciou. Com as imagens de Li Zhensheng a humilhação inútil substitui a intransigência, a simulação do mito destrói a fé” (texto integral aqui).
É-nos mostrado em tom de proximidade o que foi uma ditadura do proletariado que se transformou numa ditadura no protelariado, ilustrando o impacto da ideologia numa consciência colectiva que com ela não soube o que fazer, testemunho que felizmente sobreviveu, graças à teimosia e astúcia de um fotógrafo, ele próprio vítima posterior das tentações revisionistas do seu país e daqueles para quem e com quem trabalhava. O aspecto propagandístico ressalta na maioria das fotos, muitas delas com um conteúdo estético quase cinematográfico a que certamente não será alheia a paixão inicial que Li Zhensheng nutria pelo cinema, à força convertida em serviço à pátria. Uma palavra para a legendagem, acrescendo à compreensão do abundante conjunto de imagens mostradas. No final, uma sensação algo apreensiva, se considerarmos que nestas fotografias estão simbólicamente contidas as sementes daquilo que parece ser a China actual, aparentando ainda ter uma visão sobre o mundo quase literalmente decalcada das páginas do defunto manual, com a diferença crucial de que agora o mesmo é debruado a ouro e o seu alcance se faz sentir muito para além das fronteiras internas desse país.
Colectiva – Hospital de S. João, 3 Formas de Ver – Centro Português de Fotografia
©luís ferreira alves
O formato de exposição colectiva em redor de um sujeito, é presentemente um dos conceitos mais complexos e interessantes que se pode encontrar na vertente da fotografia documental. Embora possa não existir uma colaboração estreita como existirá por exemplo numa equipa de investigação, em que os esforços comuns giram em volta de um sujeito confinado muitas vezes à hipótese-validação, no colectivo de fotógrafos existe uma soma de contributos individuais que, não estando confinados pelas barreiras do método cientifico, ainda assim não deixam de contribuir para uma noção de veracidade (não de verdade objectiva). Neste projecto, inserido nas comemorações dos 50 anos do Hospital de S. João, no Porto, é interessante o contraste obtido nas fotografias de 3 artistas com estilos, escolas e sensibilidades tão distintas, são eles Luís Ferreira Alves, Olívia da Silva e Paulo Pimenta.
©luís ferreira alves
Previamente à visita, já tinha visionado este post multimédia no Arte Photográphica, que começa com uma curiosa frase de Luís Ferreira Alves “cheguei à conclusão que o esquema conceptual das fotografias iria ser eu próprio, as fotografias que me saltassem ao caminho, eu tirava-as”. Uma vez demonstrado ao que vinha, o fotógrafo exibe uma mão cheia de fotos absolutamente espantosas de rigor formal, de domínio técnico, mas que sem dúvida interpretam os valores do mesmo em relação ao local, um sítio feio, desinteressante, frio, escuro, sombrio, mórbido, que só a muito custo e de forma artificial consegue devolver algum lado de calor humano, contudo, isso não impedindo que o mesmo seja fotografado de forma verdadeira, realista e com tudo o que a palavra possa implicar, subjectiva. O “abalo ao conceptual” e a subjectividade do portfolio proposto poderão não deixar indiferentes os cultores da actual vertente neutral e objectiva da fotografia.
![]()
©olívia silva
Olívia da Silva exibe uma visão também ela dotada de rigor e formalismo, embora neste caso talvez mais académico que estético. Pelas suas palavras, depreende-se que tenta fundir neste projecto de retrato, uma amostra de colaboradores, um aspecto artístico já presente no edifício que evidenciasse o aspecto de retrato (o quadro de D. João VI) e a mais complexa idéia de trazer colaboradores de várias áreas a um espaço cerimonial do hospital (a sala onde o quadro estava exposto) espaço esse que não lhes seria muito familiar. Confesso o meu gosto pelo retrato em formato quadrado, mas os planos escolhidos bem como a iluminação não me pareceram especialmente felizes. Por outro lado, a figura de D. João VI pela repetição (e posição ocupada no plano) parece ascender sobre as pessoas que estão a ser fotografadas, parecendo provocar um desequílibrio hierárquico que retira importância ao fotografado e fazendo duvidar sobre quem está a ser efectivamente a ser fotografado/representado. Quanto à ideia de colocar colaboradores em ambientes que lhes não são familiares, tal pode ser um interessante ponto de confluência entre escalões hierárquicos, todavia de que modo pode essa aproximação ser duradoura, ou temos apenas essa ilusão patente nas fotografias de que a fotografia supostamente pode ou deve promover alguma horizontalização da hierarquia? E poderá esse nivelamento ser compatível debaixo da égide de uma figura autocrática omnipresente nas fotografias, ou é apenas forjado com base no facto de D. João VI ter sido patrocinador da medicina em Portugal?
![]()
©paulo pimenta
Paulo Pimenta apresenta uma abordagem cunhada no fotojornalismo, tal como num ensaio de cobertura de um evento, tentando dar uma visão abrangente do mesmo, ou para utilizar as suas próprias palavras “da entrada até à saída” (do hospital, leia-se) proporcionando uma visão que tenta aproximar o espectador da vivência na vida hospitalar, os aspectos íntimos e reconhecidos da vivência hospitalar, a dor, o sofrimento, a angústia, a espera, o acto laboral, alternando entre o fotograma realista e algumas metáforas visuais, complementando e completando este interessante projecto.
Júlio de Matos – Flat Water – Galeria Serpente, Porto
![]()
Para quem não conhece o Porto, a Rua Miguel Bombarda é o ponto fulcral das artes na cidade, onde se contam fácilmente umas 4/5 dezenas de estabelecimentos, entre lojas, galerias, ateliers, etc, ligados às artes, ao design, etc, sendo promovido mensalmente o dia das inaugurações, que a torna numa artéria apinhada de pessoas e eventos interessantes, quase porta sim porta sim, num frenesim cultural sem paralelo no país (infelizmente). Este sábado foi um desses dias, o que conjugado com o dia solarengo, trouxe a essa arty rua um ambiente de festa, quase a descambar na overdose cultural.
É nessa rua, mais concretamente na Galeria Serpente que reside até 4 de Abril esta exposição de Júlio de Matos em cujo statemente se lê “1 – A bidimensionalidade e horizontalidade da superfície da água, quando em repouso. A água enquanto conceito inicial de espelho, que gerou mais tarde o conceito de espelho com memória.
2 – A bidimensionalidade da impressão fotográfica, e a sua aparente tridimensionalidade provocada pela nossa incontrolada capacidade para descodificar a informação fotográfica como uma janela sobre a realidade.
3 – A bidimensionalidade dos artefactos gráficos justapostos com um rigor pixelizante na superficie da imagem fotográfica, podem questionar a aparente tridimensionalidade da imagem ao propor á visão um exercício mental de reconciliação perceptiva.”
![]()
A apresentação desta série, está também complementada por um texto a cargo de Bernardo Pinto de Almeida, intítulado “Para uma semiologia prática da imagem”, possívelmente ancorado na incapacidade descodificadora a que alude o artista no ponto 2 do statement. A temática do elemento Água é usada como pretexto para um paralelo encontrado com os limites do fotográfico, a água como espelho e como elemento portador de memória (a este respeito ver os trabalhos de Masaru Emoto: Mensagens da Àgua), a bidimensionalidade da superfície aquática, qual prova de impressão e finalmente, numa vertente talvez menos percetível à ligação com a Água, os elementos gráficos introduzidos, digitalmente suponho , os quais confesso, me fizeram vir à cabeça uma frase que vi num projecto fotográfico americano “i’m going Baldessari”. O aparente quebrar daquilo que se espera perceber numa imagem onde a natureza é dominante, induzido pelas linhas geométricas introduzidas artificialmente, tem efectivamente o dom de relançar o questionamento sobre a forma de olhar não só a natureza, como a matriz simbólica nela aposta, contudo parece também esse acto introduzir nesta série um elemento de complexidade talvez dispensável, pois creio que a mesma já contém uma riqueza conceptual considerável, mesmo considerando apenas a proposta dos pontos 1 e 2 do statement.
Não que discorde de um certo desconforto provocado pelo sobreposição gráfica em imagens algumas delas de uma beleza relativamente kitsch, a arte também pode desconfortar mesmo sem que para isso tenha que necessiriamente epater le bourgeois, chocando ou subvertendo. A minha dúvida prende-se talvez com o facto de que o dispositivo empregue parece não contracenar adequadamente não só com o conceito de espelho e memória, mas além disso, dificulta a leitura simbólica da imagem, mais contribuindo para o adensar semiótico da mesma, ainda que sendo trabalhado no espectador talvez o desconstruir de uma certa forma de olhar, para posterior reconstrução da mesma com base em novos dados. Não conheço o trabalho anterior deste fotógrafo, pelo que se torna difícil perceber a sua trajectória apenas com base no texto introdutório ou no CV, todavia parece aparente a vontade de abrir novos caminhos da sua expressão fotográfica, ainda que não descolando do cariz identificador da prática anterior. Com base no que nesta exposição é dado a observar, existem dados suficientes que permitem antecipar entusiasmo e expectativa na antevisão de novos desenvolvimentos, face a esta exposição que foi talvez a mais interessante da tarde, não tanto pelo aspecto pictórico, mas sobretudo pela proposta conceptual nela contida.
O dia não quis terminar sem mais uma exposição, desta feita uma pequena mostra de artistas do colectivo lab65 na FNAC do NorteShopping. Pouco há a dizer, apenas duas fotos de cada fotógrafo, deu para ficar com uma idéia acerca dos trabalhos promissores das gentes sobretudo ligadas ao Norte, mas com um ou outro elemento também do Sul, quase todos com o denominador comum da premiação em concursos de renome. Foi pena não ter conseguido apanhar a “Hospitalidade” do Paulo Catrica, que esteve na galeria dos Silos do NorteShopping, pois que já estava em fase de desmontagem.
1 comentarioDesta vez, uma mão cheia de visitas, as do fim de semana, mais a atrasada nota da ida ao Porto, para ver o prémio BesRevelação 2008, exposto em Serralves.
A exposição está distribuída por 2 pisos, no primeiro são exibidas imagens retiradas de sites da Internet dedicados à busca de parceiro para fins matrimoniais, fotografadas directamente do ecrã. O fotógrafo seleccionou imagens que os utilizadores colocaram como sendo as mais propícias à auto descrição, num curioso exercício de “curadoria” acerca do retrato fotográfico. Esta exposição vem num momento quente acerca das apropriações e direitos de autor no fotográfico, com o processo movido a Richard Prince pela apropriação de fotos de Patrick Rastafarian na série Canal Zone e o caso mais conhecido do já icónico poster de Obama (agora toda a gente quer ter um obamavatar), resultando numa acção contra Sheppard Fairey, movida pela Associated Press.
O que senti ao olhar as fotos foi uma estranha sensação de falsidade, de irreal, todavia parece ser essa – pelo menos em parte – a dinâmica que está por detrás do desejo de se dar a conhecer nestes “lugares virtuais”, onde se mostra sobretudo a imagem “luminosa”, alegre, simpática, etc, resultando contudo numa sensação de artificialidade, ainda que pelo menos um dos candidatos tenha mostrado acerca de si uma coluna de fumo proveniente de uma explosão que ocorreu perto da sua casa, o que certamente daria uma tese sobre as motivações casamenteiras deste pretendente… Na sala mais abaixo, e na continuação do projecto, o fotógrafo desvenda algo dessa personagem virtual mas com uma vida real, a quem fora atribuído pelo site de busca o nome de código Valentina 170167. Recorrendo a um medley – para usar a linguagem musical, que pelos vistos privilegiou também nesta exposição – de imagens suas provenientes de outros projectos, é exibida uma sequência que remete para o estado interior da pessoal real subjacente, as suas motivações, desejos, fantasias, etc. Manuel L Cochofel urde uma narrativa ficcionada à qual não faltam motivos de interrogação, sabendo-se no entanto que à pergunta “o que está esta fotografia aqui a fazer” pode estar subjacente uma boa ou má intenção. A fotografia no molde “arte contemporânea” aprofunda-se neste artista, que embora desenvolvendo um empenhado trabalho de afirmação, aparenta, estranha e injustamente, ser ignorado pela crítica local, pelo que se saúda de forma ainda mais pronunciada a aposta da Pente10 neste fotógrafo.
Num formato muíto diferente do habitual, quer a nível da dimensão exterior, dos acabamentos ou até de alguns recursos estéticos, mas revelando a mesma alma empática perante o sofrimento e a dor no mundo que lhe é reconhecida, imagens sempre evocantes do limiar entre a redenção e a crucificação, pelo que o trabalho embora substancialmente alterado na forma apresentada, não deixa de ter uma marca autoral vincada. Como afirma Alexandre Pomar na crónica sobre a exposição em Nozolino 2009, e acerca da obra deste fotógrafo, “sem a distância que se recomenda ao testemunho e sem a arma segurizante da ironia trata-se de uma descida aos infernos“.
Parece evidente a existência de uma forte afirmação neste trabalho, da parte de um artista que tradicionalmente usou o mesmo grande formato expositivo anos a fio, ao apresentar agora material que cabe numa folha A4. Tal acto poderá ter subjacente várias leituras, por um lado, a possível ruptura com o caminho certo preconizado pela arte contemporânea, i.é, aquele que para ascender ao sucesso parece ter que passar por um aprisionante e asfixionante mais do mesmo, canône esse aqui parcialmente abalado, sobretudo numa faceta que até agora tem sido um dos focos da discussão sobre fotografia contemporânea, a de que o tamanho conta. Já era conhecida a invalidação, ao menos parcial, desse mesmo caminho pelo fotógrafo, ao recusar a nomeação para o prémio BesPhoto. Por outro lado, na actual conjuntura depressiva por todos conhecida, o artista parece emular o momento, através de um aparente “baixar” de expectativas, retornando a um formato aparentemente mais realista ou então, apenas mais deprimido financeiramente. Aspectos mais especulativos à parte, parece seguro o facto de Paulo Nozolino conseguir mais profundidade e mistério numa fotografia sua, ainda que suja, feia ou pequena, que outros fotógrafos em séries inteiras.

Jesus Never Fails, é o título desta série que António Júlio Duarte fotografou em Goa, frase encontrada num autocarro indiano – imagem que todavia não aparece na série mostrada, “para adensar o mistério” explica o fotógrafo, mas cuja leitmotiv poderia muito bem ter inspirado uma outra “God Doesn´t Exist” que tanta polémica deu recentemente, também ela escrita numa autocarro, desta feita europeu. O puzzle apresentado, e de facto, a fotografia quadrada presta-se bem a esta noção de puzzle enigmático, é composto por estranhas coreografias animais, fragmentos de memória da presença portuguesa no território, texturas de degradação, aspectos de construção/desconstrução do território, que embora apresentados sob a forma de uma realidade fragmentada, são unificados por um título feliz que evoca o não acaso, a desfragmentação,a unidade, a continuidade e sobretudo o infalível processo de contínua mutação entre nascimento, crescimento e morte, de todos-parte que dão origem a novos todos-parte, quer pela integração, quer pela dissolução dos elementos anteriores. Se existe exposição em que o título claramente é maior que a soma das fotografias, esta é certamente uma delas, sem qualquer desprimor para as imagens apresentadas.
Este BesRevelação visando a descoberta de jovens valores na fotografia, apresenta este ano trabalhos de Mariana Silva, Nikolai Nekh e David Infante.A primeira destes artistas, apresenta um espaço onde podem ser vistos pequenos registos filmícos do pós-25 de Abril, com recurso a um instrumento chamado moviola, que projecta a imagem num pequeno ecrã, onde se podem ver fotogramas manipulados e realinhados de modo a proporcionar um visionamento algo desconcertante, certamente visando colocar em causa a capacidade do meio para reter a verdade. Embora este projecto se enquadre num âmbito algo escorregadio face ao que se poderia considerar fotográfico, é de notar que os prémios Bes, em conjunto com o trabalho de alguns outros actores do meio, tem vindo a alargar um pouco o escopo do que tradicionalmente se conhecia como fotográfico, e embora não isentos de polémica, tem o condão de poder contribuir com novos horizontes. Nikolai Nekh apresenta imagens que transformou em postais e um video – editado e com velocidade alterada – de gravações familiares, trabalhando aspectos ligados á memória e ao local. David Infante apresenta aquele que pode ser o projecto mais fotográfico dos três, numa série aparentemente inspirada naquele que parece ser uma linha de influência em si, José Manuel Rodrigues, de quem é assistente. O uso dos quadrados, do preto e branco, das colagens, dos elementos Terra, da utilização das imagens do fotógrafo como sujeito, evocam essa filiação, que contudo descarta as linhas de mero decalque, conseguindo aportar novos destinos, criar originalidade, numa selecção onde a memória e a identidade parecem ser os conceitos privilegiados. Devo dizer que simpatizei com qualquer um dos projectos, no de Mariana, pelo aspecto conceptual que coloca em dúvida a capacidade das imagens apresentarem uma qualquer verdade, algo que foi apresentado de uma forma muito interessante. Em Nikolai, um registo fotográfico de forte conteúdo estético, adensando o conceito com o recurso á instalação video, hoje em dia tão em voga, embora nem sempre acrescentando algo de novo. (abaixo fotos de David Infante retiradas da galeria gasosa).



Esta série “no país da fotografia” começa a parecer-se um pouco com uma certa fase da minha vida em que fotografava Jazz até cair. Sendo a motivação nesse tempo o “ouvir”, menos o fotografar, dei por mim a ter que assitir a muito concerto secante, razão pela qual, entre outras, fui deixando a fotografia de jazz para trás. A situação dentro de mim era já de tal modo incomportável, que face á minha paralisia, o Universo enviou um ladrão para me sacar o equipamento todo, no seguimento de um dia e noite estranhos após um Estoril Jazz. Isto a propósito de andar a percorrer exposições, não por obrigação mas por gosto, todavia está-me a custar escrever sobre coisas que não gosto, portanto tenho que utilizar a táctica feia em termos críticos que é a de fechar os olhos e escrever apenas sobre o que gosto.
Este fim de semana fui ao Museu da EDP ver “Retratos, 10 anos do Microcrédito em Portugal” que conta com fotos de vários elementos do colectivo Kameraphoto entre outros fotógrafos. O retrato não é uma categoria fácil, talvez seja aliás das mais difíceis, pois na maioria das vezes não conta com a colaboração do retratado e se isso acontece, é por vezes complicado ensaiar a naturalidade. São 40 os retratos, de outras tantas pessoas que recorreram a essa bela iniciativa que se iniciou com Muhammad Yunus, a maioria dos registos que se observam nesta exposição seguem um tom relativamente fotojornalistico, ainda assim alguns fotógrafos optaram dentro do género por apresentar um trabalho um pouco diferente. Dentre os que me cativaram encontram-se os de Valter Vinagre, pode-se ver abaixo um deles, ![]()
uma outra série (cada fotógrafo entrou com 3 se não estou em erro) de que gostei foi a de Sandra Rocha, da qual abaixo se reproduz uma, já tinha gostado bastante do trabalho que apresentara no “Testemunhos – Trajectos de Qualificação“.
![]()
Para o fim deixo aquela que sem dúvida me cativou o olhar durante mais tempo, este trabalho de Nelson d’Aires, que está soberbo (fotos retiradas directamente do site do artista em nelson d’aires)



Terminei com a passagem pela galeria 3-em-1 VPF-Rock-Plataforma Revólver, para visitar Boys Need Yoga Too de Tatiana Macedo, da sinopse do projecto pode-se ler “as imagens que vemos nesta exposição são uma parte
do trabalho resultante de uma viagem de Tatiana Macedo à China, no Verão de 2008. Quando decidiu passar dois meses em Xangai, não foi cheia de ideias pré-definidas sobre o que iria desenvolver, investigar. Decidiu deixar coisas em aberto, para tentar perceber o que a cidade lhe proporcionava. Uma coisa é sempre certa. A fotografia é o seu suporte primordial. Em todas as suas múltiplas abordagens, seja mais documental, mais propositadamente “promocional”, mais conceptual. O importante em cada projecto seu é a maneira como se relaciona com o sujeito que escolhe, como se tentasse relatar e reflectir o seu contexto social, sem nunca o transformar num número ou numa percentagem. Para nos obrigar a pensar exaustivamente no outro, naquele
que não somos nós. Naquilo que nos aproxima, ou no que supostamente nos afasta. Em Xangai, ao fotografar quem passava na rua apercebeu-se de uma diferença marcante. As raparigas naquela cidade não usavam calças de ganga, não usavam roupa “casual”. Estavam sempre ultra femininas, bem vestidas, arranjadas. Os rapazes a seu lado eram quase invisíveis, não se destacavam. Foi irresistível, passou dois meses a fotografar as mulheres no metro, na rua, a comer, a divertirem-se. Em cada imagem relaciona-se sempre com uma mulher, de cada vez, por um breve instante. Temos a sensação que sem o conhecimento destas. Sentimos que quase sorrateiramente, a artista investiga as jovens raparigas chinesas. Investiga também, obviamente, o seu papel na China de hoje.”
Imagens retiradas de Tatiana Macedo – Boys need yoga too | VPF Rock Gallery
Não sei se é herdeira neste fotografar que aqui nos mostra do mestre August Sander (ver foto abaixo), mas tenta-se nesta exposição dar uma visão de um país, de uma cultura, através da moda, o que é sempre interessante, embora esta seja talvez uma perspectiva redutora sobre este trabalho…

Com muito menos, The Sartorialist, faz muito mais… mas fiquei com vontade de ir á China…
![]()
![]()
![]()
![]()
Inaugura na próxima sexta-feira, dia 15 na Cooperativa de Comunicação e Cultura de Torres Vedras, a exposição de fotografia “A Way of Life“, do meu amigo Nuno Moura, um registo de pendor documental acerca da vida no circo, na qual tive uma mãozinha de foto-editor, personagem também conhecido por “aquele que chateia”. Aproveitei para lhe disparar umas quantas perguntas acerca do seu trabalho…
ABP – Nuno, quais são as origens do teu romance com a fotografia?
NM – Não consigo precisar no tempo, o como, o quando e o porquê. Lembro-me contudo de duas coisas, para ganhar uns cobres para as despesas diárias, aquelas que uma família numerosa de classe média não podia financiar, comecei cedo (12 Anos) a trabalhar nas férias de Verão, e foi com o meu primeiro ordenado (1000.00 escudos/5€) que comprei o meu primeiro “caixote”… Acho que se chamava “agfamatic”. Recordo-me também da necessidade que tinha em trazer comigo instantes das muitas “viagens” curtas, ou menos curtas, que fazia… Assim como a necessidade que tinha em partilhá-las.
ABP – Quem te influenciou ou influencia no acto fotográfico?
NM – No início ninguém, nunca fui muito dado a ídolos. Só muito mais tarde passei a olhar com mais atenção as fotos, “a sério”, que ia vendo. Penso que os primeiros fotógrafos que “olhei” com atenção foram Steve McCurry e David Alan Harvey, aliás foram eles as minhas referências quando reiniciei a fotografia em finais do século passado (poético né?!). Um dia fiz um workshop com o Nanã Sousa Dias, no qual me foi pedido que batesse umas fotos com um rolo P/B, em que este serviria de suporte para a segunda parte do curso – ampliação. De partida para a Índia e contrariado, lá comprei o filme, o qual acabaria por ser exposto algures na cidade de Benares… “Lixado” por estar a perder as cores fabulosas do amanhecer. Quando vi a prancha de contacto, foi a “revelação”. Aquele era o único rolo onde aquilo que eu senti, as emoções que experimentei, estavam lá, depois disso ainda não voltei à cor…
Terei concerteza fotógrafos que, talvez inconscientemente, me poderão influenciar. Não procuro no entanto, copiar ou seguir um estilo ou fotógrafo em particular. Prefiro dizer-te alguns dos fotógrafos que mais admiro:
Ara Guller - O “Cartier-Bresson” Turco. Pela poesia com que retratou, especialmente, Istambul.
Arnold Newman – Pelos “retratos ambientais”.
Cartier-Bresson – “O instante decisivo”.
Gregory Colbert – Pelo estética sublime do projecto “ashes and snow”.
Helmut Newton – Pela forma como retratava a Mulher. As Mulheres “masculinas” com tendência para o andrógino… Extraindo toda a sensualidade para além da aparencia, fria, controlada… distante.
James Nachtway - Um dos meus fotógrafos preferidos na actualidade.
Kishin Shiroyama – Pela estética dos nus.
Philipe Halsmam - Um surrealista com uma criatividade fabulosa.
Robert Frank – O Mestre da reportagem subjectiva.
Sebastião Salgado – Pelos projectos. Pela atitude. Pelo “engajamento”.
Steve Mccurry – O meu colorista preferido.
Yousuf Karsh – O retrato perfeito… Volumes, tons, expressões.
Werner Bischof – Um mestre na reportagem objectiva. Com imagens fabulosas sob ponto de vista técnico.
Os meus amigos fotógrafos – Porque aprendi muito com eles.
ABP - Define a tua fotografia.
NM – Não gosto muito de definições porque ao definir estou a enquadrar em algo que já existe. Além de que estou a auto analisar-me o que também não me agrada visto que sendo a fotografia, também, uma forma de comunicação, prefiro deixá-lo para outros. Direi apenas que me preocupa o lado Humano da sociedade, que se vai esbatendo para dar lugar a relações estabelecidas com base no dinheiro, no consumo. Para te dar um exemplo, se vais ao mercado vês, para além do acto de comprar e vender, relações que se estabelecem dentro de outras premissas. Acaba por ser um local que transcende o mercantil e se alarga nos horizontes das relações Humanas. Por contraponto no hiper, existe apenas um lado comercial, um apelo manipulativo à compra. No hiper não se estabelecem relações… Porque as regras do espaço não permitem o estar, mas o comprar rápido. Porque tu não te relacionas com pessoas, mas com uma omnipresente marca. Não vais comprar ao Sr. Joaquim que tem uma história, mas, passe a publicidade, ao “modelo”. No fundo procuro registar o que o consumismo e a globalização, como forma de ditaduras… As novas ditaduras que legitimamos com um voto e acreditando que vivemos em democracia, vão fazendo desaparecer. A multiculturalidade, a biodiversidade… A livre iniciativa, estão em vias de extinção. Hoje é preciso ser testemunha para que existam no futuro e acreditando da reversibilidade do processo, referenciais que ajudem à tomada de consciência. E faço-o procurando, naquele momento em que o mundo para dar lugar à reflexão, criar uma imagem cujo sentido estético ajude a despertar emoções.
ABP - O que é que gostas e desgostas na fotografia de hoje
Agrada-me bastante o facto de existirem muitas formas de expressão fotográfica, mesmo naquelas que não consigo encontrar sentido, talvez por ignorância. Agrada-me o facto da fotografia se ter “democratizado”, pois é fácil a qualquer um comprar um objecto que registe o instante, mas essa “democracia” está a revelar-se, nalguns casos, um presente envenenado, pois duma certa banalização da imagem em que se perde o sentido estético e provavelmente também o seu valor, disso se aproveitam as grandes “centrais” de venda online de imagens, em detrimento dos fotógrafos profissionais que dessa forma veêm reduzido o valor do seu trabalho. Depois há a questão do digital que muitos acreditaram, perdoem-me a expressão, ingenuamente, que tornaria o custo da actividade mais barato, mas que na prática se revelou o contrário, embora reconheça o carácter prático do digital. Mas no geral acho que o balanço é positivo, a “democratização” digital trouxe muita gente com imensa qualidade, é apenas preciso separar o “trigo do joio”. A fotografia hoje está bem e recomenda-se.
ABP – Como é que surgiu esta série que vais agora expôr na Cooperativa?
NM – Periodicamente montavam-me um circo à porta de casa. Se tivermos em conta aquilo que disse anteriormente, temos os ingredientes necessários a uma reportagem. Um circo, a não ser que se trate de um qualquer projecto mediatizado, por isso naturalmente protegido, é uma atitude marginal, leia-se à margem. São elementos estranhos à nossa mentalidade burguesa e provinciana, de certo modo são o oposto dos “pequenos poderes” que tentam controlar a sociedade, dita civilizada, para proveito próprio. De vez em quando aparecem umas “almas caridosas desejosas de protagonismo” que se aproximam destas realidades humanas, mas não passa disso…
ABP Conta-nos um pouco da sua feitura.
NM - Como sempre, começo por uma abordagem com a explicação do projecto, na maior parte das vezes a recepção é positiva. Dificuldades tive certa vez na Índia ao tentar fotografar uma mesquita onde se juntavam radicais islâmicos, acabei por conseguir após horas de conversa, algo em que nós Portugueses somos peritos… Afinal somos todos humanos… E menos diferentes do que aquilo que, por vezes, pensamos. No circo fui tão bem aceite, que ao fim do terceiro dia já sabia como se faziam os truques de magia.
ABP – Projectos futuros?
NM – O facto de ser amador permite-me trabalhar sem pressões e fazer apenas o que gosto. Neste momento tenho vontade de continuar a fazer este tipo de levantamentos sobre “marginalidades”, leia-se formas de estar que embora tacitamente aceites, são vistas como ameaças ao status quo. Gostaria contudo de tornar a estética da minha reportagem menos objectiva para entrar num conceito mais subjectivo, enos evidente, mas com mais profundidade para os olhares atentos. É preciso fotografar mais….
1 comentario![]()
Analisada isoladamente esta imagem poderia demonstrar o “partido” tomado pelo fotógrafo, no caso eu, mas não se trata de fotojornalismo, ou documentalidade do contemporâneo, nem sequer da rápida associação ou denúncia da “escalada” do conflito, como a imagem pode sugerir, nesta guerra como em qualquer outra nunca há vencedores. Vou apenas tentar ilustrar uma idéia que hoje me ocorreu ao visitar a exposição do colectivo francês Odessa na Galeria K (kameraphoto) e que é justamente a da descontextualização e da sensação de desorientação daí advinda, também da dificuldade em penetrar, quando considerada uma foto individualmente. Pode-se ler no site “O projecto de Patrick, parte de um abcedário em que cada um dos fotógrafos foi livre de editar segundo a sua inspiração. Uma oportunidade para cada membro do colectivo compor um vocabulário imagético comum, a partir de uma escolha de palavras reveladora de sensibilidades e preocupações. Este projecto, POUR ZARMA, CHANGER À BABYLONE, é o primeiro passo na construção da identidade colectiva pois elseu modus operandi, estilo e objectivos.”
Ao percorrer as fotografias expostas, foi-me difícil encaixar na temática face à aparente diversidade estilística, formal, contextual, sem dúvida proporcionada pelo “colectivo” nas suas diferentes expressões fotográficas, mas informo que nada li previamente, assim que entrei fui ver as fotos. Como ultimamente me tenho embrenhado em ver sobretudo trabalhos individuais (à excepção das exposições colectivas tipo BESart), trabalhos esses que aparentam ter uma direcção, um cunho bem marcado, não que aqui essa direcção não exista, talvez por isso essa minha dificuldade. Embora a unicidade se vá revelando à medida que a atenção aumenta, confesso que inicialmente andei a tentar “colar as pontas” o que não foi de todo desagradável, até porque os puzzles têm o seu encanto. Á medida que fui estando um pouco mais com as imagens, mais o conteúdo se foi revelando e embora sentisse algumas fotografias como estando descontextualizadas, todavia o “chapéu” que as abriga é tão vasto que sem dúvida fazem outro sentido. Aparentemente a única ligação com a imagem que tenho acima é a de que por vezes isoladamente, é difícil apreender a essência do que se propõe.

Ainda visitei MANEL ARMENGOL. TRANSIÇÕES. 70s em Espanha, China, Estados Unidos no Arquivo Municipal de Lisboa, pode-se ler no site “Esta exposição reúne uma selecção de 75 fotografias da colecção da Fundación Foto Colectania, realizadas por Manel Armengol (Badalona, 1949) em Espanha, nos Estados Unidos e na China durante os anos setenta. Estes três países, apesar de muito diferentes, tanto geográfica como culturalmente, viviam em comum, um período de mudanças fundamentais na sua história. A obra de Manel Armengol representa este momento, numa perfeita simbiose entre o lugar, o tema fotografado e o olhar do próprio fotógrafo. ” Esta exposição é um caso curioso, as fotografias embora se possam confundir com tal, parecem não encaixar bem no icónico “momento exacto” da linhagem preto e branco-humanista-cartierbressoniano, aliás mais parecendo o pós-cartierbresson, um registo mais próximo do americano do que do europeu. Algo que me pareceu peculiar, sobretudo nas fotos da China, que de facto parece casar bem com a idéia de transição e que tem a ver com os olhares fotografados, em que quase nunca se consegue identificar para onde se dirigem, algo que inevitavelmente se associa à incerteza da mudança, todavia esta séria chinesa não é loquaz no retrato da mudança, ainda que em discretas filigranas ela se possa vislumbrar. Nas fotos de Espanha, as manifestações barbaramente rechaçadas pela polícia abrem um pouco mais o espaço ao contexto proposto da “mudança”, mas nas fotografias dos Estados Unidos novamente o véu se torna mais discreto, ainda que a questão racial, a sexualidade e outras temáticas sejam abordadas, a sensação que fica é a de que o fotojornalismo praticado é-o “ao longe”, nunca “close enough” como defendia Capa.
[Update, às 2 e tal da manhã do dia seguinte]
Um pouco na linha do que escrevi na primeira parte deste artigo acerca da foto que publiquei, encontrei um post de Alessandra Sanguinetti no blog da Magnum, discutindo a responsabilidade editorial da publicação de uma imagem sobre as tropas israelitas, na primeira página de uma edição do NY Times, que para quem não sabe, é um dos jornais de referência americanos. De certo modo, os blogs também tem uma responsabilidade editorial, daí ter escrito o que escrevi.
1 comentario

Visita à exposição Listen Darling… The World is Yours, na Ellipse Foundation em Alcoitão, mostra que “reúne trabalhos de mais de quarenta artistas que, no seu conjunto, evidenciam as mudanças radicais pelas quais a cultura passou nas suas dinâmicas psico-sexuais, durante os últimos trinta anos. A exposição, que se organiza em torno de alguns trabalhos fundamentais de Louise Bourgeois, Eija-Liisa Ahtila e Shirin Neshat, entre outros, observa o modo como as mulheres vêem as mulheres, as mulheres vêem os homens, os homens as mulheres e os homens os outros homens, muitas vezes através da confrontação directa com a sexualidade e as políticas sexuais(…)“Listen, Darling” – uma expressão extremamente comum na gíria gay, conotando simultaneamente uma intimidade ligeiramente irónica e um certo cinismo – segue-se a surpresa: “The World is Yours”. A sua conjugação coloca outras questões: A quem pertenceu esse mundo? A quem pertence agora? O que significa ser-se responsável e assumir a sua propriedade? ” A Ellipse Foundation for Contemporary Art, face ao nome, poderia pensar-se tratar de uma qualquer iniciativa estrangeira em Portugal, mas já é por demais sabido nestes dias que é tão sómente o depósito de arte do recentemente e in extremis salvo da forca, Banco Privado Português. As tricas dos últimos tempos deixam um rasto pouco diáfano sobre a operativa, mas são contas de outras auditorias.
Esta era uma exposição com muito interesse para mim, pois prossigo um trabalho de ligação entre o papel do género (gender role) e as danças tradicionais, não se tratando contudo da dissecação da mediatização simbólica do mesmo, à semelhança dos trabalhos de Cindy Sherman com a feminilidade. Das várias obras presentes nas diferentes categorias da arte contemporânea, conta-se alguma fotografia, que como seria de esperar face à tematica, contém Nan Goldin, Cindy Sherman, mas surpreendentemente, nada de Duane Michals, Robert Mapplethorpe ou Andy Warhol, contudo é desconhecido se a colecção foi pensada ou estruturada à volta de alguma dinâmica específica do contemporâneo, ou se, utilizando uma expressão contabilistica, face às existências, era a mostra possível, no entanto podem existir no acervo obras desses autores sem que tenham aqui sido mostradas, embora seja algo pouco provável, considerando a temática proposta, o nome dos autores e o respectivo valor comercial.
Da parte fotográfica destaco 3 retratos, este de Ryan McGinley, cheio de disponibilidade, de à vontade, insinuante, exalando sexualidade por todos os poros.
![]()
Estoutro de uma artista que me tem vindo a encher o olho, Rineke Dijkstra, aliás em seguida rumei à colecção do BES no CCB, quase só para olhar os retratos dos forcados, cuja paralelo com este parece ser a associação da masculinidade com o uso dos uniformes, aqui veja-se como é sintomática essa noção, pois trata-se dum soldado da Legião Francesa, exército para onde só iam de facto “homens”.![]()
Finalmente este de Hiroshi Sugimoto, que me deixou em suspensão, sem palavras, talvez um dos melhores retratos que jamais vi e que só por si valeu toda a exposição. Em abono da verdade, trata-se de uma obra “falsa”, reencenada a partir de uma figura de cera, com técnicas de iluminação estudadas da pintura Renascentista, mas a verosimilhança é tal, que conforme sugere o artista “If this photograph now appears lifelike to you, you had better reconsider what it means to be alive here and now”, após esta constatação, sinto-me verdadeiramente desapontado e enganado, é assim a fotografia…
![]()
No campo dos usos mais diferenciados da fotografia, um favorito é John Baldessari (na foto abaixo)
a quem claramento prefiro a Richard Prince, que embora fazendo correr rios de tinta das penas pensantes, como aliás Cindy Sherman, ambos pouco me divertem, curiosamente nesta mostra, uma foto do primeiro, em que ambos aparecem juntos (foto seguinte).
![]()
Finda esta panorâmica, onde espero voltar pois a mostra estará até Agosto do próximo ano, voltei a O Presente: Uma Dimensão Infinita, colecção do BES que está exposta no Museu Berardo . Já me referi por duas vezes aqui no blog a esta colecção, a primeira vez vi-a no espaço denominado BESart ao Marquês de Pombal, achei-a uma mostra estranhamente estruturada, talvez melhor dizendo, com critério vago. Referi após a primeira visita ao Museu Berardo que algumas obras da colecção não estavam expostas, de facto assim é, mas se não estou em erro a ala “Arquitectura” da primeira vez que lá fui, não se encontrava aberta ao público, tapada que estava detrás de uma foto de Jeff Wall. Na altura aludi ao sentimento de que gostaria de ter visto Sugimoto, ora nessa ala lá está não apenas uma, mas duas fotos do artista, bem como toda a tendência dusseldorfiana, minha besta negra, mas da qual me quero ver livre, ou como dizia alguém do whisky, “se não gostas, tens que beber mais até passar a gostar”… vai ser difícil, o único que me parece comover é Struth, mas sou um tanso que fotografa e vê fotografia à espera (também) de se emocionar.
Entre as duas exposições que visitei, o critério da mostra torna-se mais interessante na primeira, com efeito as subdivisões propostas no BES (retrato, arquitectura, natureza, etc) embora possam parecer fáceis à vista, são um exercício de facilitação parecido com os que algumas políticas educacionais portuguesas visam atingir, ao invés do simplificar, surge o simplório, preversa antitese do objectivo a que se propõe, mas aqui isto está tudo muito melhor explicado (ver caixa de comentários).
Comentar©2008 - autoretrato
Fim de semana bem passado, cheio de fotografia, mas não só, aparecem espaços artealternativos por Lisboa, por vezes com propostas interessantes, casos da Fábrica de Braço de Prata e da Lx Factory, ainda que estes sejam sobretudo frequentados por artistas em formação/afirmação, evidentemente ainda não integrados no circuito “oficial”. Comecei pela colecção de fotografia do Bes no Museu Berardo, aliás, por onde haveria de ser, já me tinha referido atrás à primeira (a)mostra da mesma no espaço denominado BesArte, no edifício do banco, ao Marquês de Pombal. Em face da pouca informação disponibilizada na altura da visita, despercebi o caminho que a colecção tomava, agora, é-nos levantado não só um pouco do véu que presidiu à aquisição das obras, como também um maior número delas, permitindo um olhar mais aprofundado. Muito animadora a grande aposta em autores portugueses e sobretudo em jovens, alguns deles agraciados pelo BesRevelação (autores até 30 anos, não percebo bem porque é que não pode haver revelações mais tardias), posso dizer que gostei muito de algumas dessas propostas, aliás mais, do que da maioria das dos autores consagrados portugueses.
A esse propósito fiz uma viagem pelo site Anamnese, um tremendo trabalho de Miguel von Hafe Perez e colaboradores, “Anamnese é um projecto que visa a criação de uma plataforma de informação sobre as artes plásticas em Portugal e sobre a actividade dos artistas portugueses no contexto internacional na segunda metade do séc. XX, a partir de uma cronologia de eventos no período compreendido entre 1993 e 2003.” Tentei revisitar toda a fotografia produzida/exposta nesse período e um fenómeno curioso sucedeu comigo, gostei imenso de muitas das primeiras obras de vários autores, mas em face de visões de trabalhos mais recentes dos mesmos, desgostei da maior parte. Uns, poucos, de quem não aprecio particularmente a obra agora, o registo manteve-se, porque a obra deles não mudou de tom, talvez se chame a isso coerência, que provavelmente tem um determinado valor de mercado, outros de quem gostava, continuei a gostar. Ou seja, na minha percepção do percurso de alguns desses autores, houve uma degradação visível na qualidade da obra, mas como não sou expert nem crítico, dificilmente descortinarei razões para tal, se existem.
Nesta mostra da colecção do BES não estão expostas algumas obras, mas que se sabem presentes, após visionamento do catálogo editado, ele próprio um esforço louvável de várias pessoas ligadas ao meio fotográfico. A aposta da aquisição foi centrada no séc. XXI, pois desse modo reflectiria os valores do banco, modernidade, inovação e o bla bla bla que se sabe. Todavia, como se sabe os bancos não são instituições de misericórdia, portanto haverá outros valores por detrás e certamente um deles será o potencial de valorização, pois criam-se fundos para tudo e mais alguma coisa, algum deles estará indexado à cotação da colecção, sacando-se uns cobres a clientes ávidos de risco, faz-se uma colecção com o “pêlo do cão”. Se o mercado cair, o risco é tranferido para o detentor da participação et voilá, o mecenato a fazer grande figura. Mas pode não ser bem assim e apenas deliro… Se neste caso a procura cria a oferta e se tal está ligado com a degradação (às minhas vistas) do trabalho de alguns artistas, é uma questão que ainda pode carecer de maior clarificação. Mas tudo isto são apenas possibilidades, não existe aqui nada de ilegal nem de condenável, agora porque é que tanta instituição financeira compra arte actualmente, sabendo que não há almoços de borla… Aliás a posição do BES é interessante sobretudo no domínio da fotografia, cria 2 ou 3 prémios, adquire obras aos premiados, sabendo que o simples facto de adquirir a A ou B pode fazer aumentar a cotação do artista, uma engenhoca destas no mercado de capitais teria que ser muito bem explicada, como estamos nas artes, está tudo correcto.
Mas nada disto tem que ver com a qualidade das obras, portanto fora estes apartes, do ponto de vista didático foi para mim uma excelente visita, que aliás espero repetir mais vezes antes de acabar. Foi maravilhoso ver ao vivo a obra de alguns autores, Baldessari, Struth, Wall, Eggelston, Dijkstra, Goldin, Michals, Moffatt, Tillmans, fiquei com pena de não ver Alessandra Sanguinetti, Sugimoto. Dos portugueses que ainda não conhecia, gostei bastante do que estava exposto de Gabriela Albergaria, Vasco Araújo e Pedro Barateiro. Embora não pudesse ter uma visão do conjunto dos portugueses por se encontrarem espalhados pelas diversas temáticas em que se encontram agrupadas as obras, revisito o catálogo e vejo muito aparato, mas pouca ousadia, risco, criatividade, diferença, dizer que há muita natureza morta, é uma metáfora…
De caminho, uma boa exposição da pintura provocante e sem concessões de Nuno Viegas, um autor que desconhecia e que muito apreciei (apesar do choque de cores e traços), na Galeria Arte Periférica ao CCB. De seguida ainda fui à Lx Factory, por onde ainda não tinha passado, uma exposição de fotografia intitulada “Insular” de Alexander Koch, fotógrafo ligado á moda e publicidade portuguesa, em que o desenho da interacção entre os corpos e o vidro onde desempenham figuras de dança, confere ao corpo um carácter de ilha. As fotos estão bem trabalhadas mas acho-as talvez mais interessantes como ensaio para uma revista de moda do que para uma exposição, ou então ainda vinha de vistas alagadas pela colecção do BES. A alegoria do título é interessante, embora os corpos como ilhas, na maneira como o fotógrafo registou a interacção, pareça tudo menos solitária ou isolada, talvez possa significar que vivemos como ilhas, mesmo quando aproximamos e tocamos o outro. Ainda deu para visitar a exposição dos alunos finalistas de Artes Plásticas do politécnico de Tomar, onde a simpática autora Gabriela Carraínho, teve a bondade de me ciceroniar, devo confessar que vi alguns trabalhos muito interessantes, embora nenhuma proposta inestimável ao nível da fotografia. O potencial desta Lx Factory para a animação cultural alternativa lisboeta é enorme.
Comentar
X Bienal de Vila Franca de Xira
Importante certame da fotografia nacional, esta Bienal é um ponto de paragem obrigatório a quem se pretende afirmar no panorama fotográfico luso, folheando o catálogo de 1999 por lá estavam nomes hoje reconhecidos como Daniel Malhão, Valter Vinagre, Virgílio Ferreira, etc. Embora não tenha lido o regulamento (porque já não está online), não sei quais foram os critérios de selecção, mas é de acreditar que o amadorismo iniciado se mantenha de fora deste género de concursos, desse modo facilitando a tarefa ao júri, que se vê dispensado de analisar propostas pouco consistentes, mas e se é admitida a concurso uma dessas propostas, que por acaso (???) até o vem a ganhar? Do fotógrafo pouco se pode dizer, ambicionou-ganhou, é (quase) tão fácil como enviar um cupão, mas do júri? Que estava comprado (o fotógrafo em questão é de Vila Franca)? Que teve uma branca colectiva no acto de analisar aquelas fotos? Quanto ao regulamento, não há uma alinea a impedir que os fotógrafos ganhadores dos anos transactos se voltem a inscrever no ano seguinte ou seguintes? Isto é algum campeonato de futebol de salão, com taças para todos os gostos e sempre com os mesmos concorrentes, que a avaliar pelo catálogo da competição se vão revezando nas participações e prémios? É também questionável o prestígio com que ficam os fotógrafos vencedores das edições anteriores face a estas políticas.
Mas vamos ao que interessa, que são as fotos, mencionarei brevemente algumas que me chamaram à atenção, da série de 6 com que cada autor podia concorrer:
alipio padilha
Este trabalho de Alípio Padilha provocou-me sentimentos um pouco contraditórios, bom domínio da técnica fotográfica, mas creio não ter entendido a série no seu todo, são as vicissitudes de se ver uma exposição a correr, ainda assim sinal positivo. Depois de dar uma volta por este blog, talvez se faça mais luz.
manuel luis cochofel
A série “Youth” (que estava também exposta na Biblioteca Municipal em paralelo com estas fotos a concurso) de Manuel Luís Cochofel não deixou grandes memórias, um ou outro retrato interessante, mas o efeito de solarização vincado, creio não ter beneficiado esta série, ainda assim é notória na sua obra, uma vontade de experimentação ao nível do “efeito especial” (ver Infrared), portanto pode-se tratar de uma marca distintiva. Contudo há um pulular de géneros na sua fotografia, retrato, paisagem, fotojornalismo, arquitectura, grafismos, que não consigo descortinar bem em que linha se assume, talvez não seja essa a sua idéia, saúda-se o ecletismo. Sucedendo-se as técnicas e os géneros, a temática geral parece estar ligada a metáforas do contemporâneo (Rolling Lives, Tags), cujos trabalhos embora composicionalmente interessantes, no tratamento do contéudo parecem por vezes trabalhados de modo um pouco vago, ou então sou eu que me baralho por tanta variedade.
joao margalha
João Margalha foi prémio Fnac novos talentos em 2005, percebe-se através da fotografia qual é a filiaçao estética da mesma e o interesse no tema (Antenas é o título da série), dada a licenciatura e pós-graduação em Planeamento Urbano. Um documentalismo bem feito, neste caso não muito entusiasmante, embora tenha vistos coisas interessantes no seu site.
jorge graça
Belo trabalho de retrato sobre a família este de Jorge Graça, justamente mencionado com honra, as fotos falam por si.
marcio vilela
Outro registo que me agradou, pelos vistos também ao júri, que mencionou honrosamente. Márcio Vilela, apresenta uma síntese bem conseguida entre a paisagem/natureza e os veículos/acção humana.
[Fotos retiradas, respeitando o pedido do autor, Da Maia Nogueira]
O drama desta Bienal, o vencedor ex-aequo da mesma Da Maia Nogueira, apresentou estas fotos, algumas delas desfocadas, acabamento da fotografia pb de má qualidade (mas isso seria mal menor se o resto fosse muito bom), planos de composição de fraco nível e os títulos das fotos… a segunda chama-se “filhos, um bem precioso”, a seguinte”leite, fonte de alimento”. Mas será que perdi alguma coisa? Entendo e aprecio o registo humanista, mas tirando isso, era mesmo necessário premiar esta desgraça? Coincidentalmente o autor vive em Vila Franca… si non é vero é benne trovatto.
irene gonçalves
irene gonçalves
Este foi o outro trabalho que obteve o grande prémio em ex-aequo com o anterior, uma série de 6 fotos de Irene Gonçalves, em que está tudo bem feito técnicamente, um registo com alguma poética, mas uma menção honrosa creio que serviria bem esta proposta, não o grande prémio.
luis rocha
Luis Rocha apresenta um fotojornalismo à la Magnum, quando bem feito – como é o caso deste trabalho – torna-se sempre interessante, embora o tema desta vez seja em tons mais leves e não com as infelizmente habituais desgraças africanas. Dado que se anuncia por aí a morte do fotojornalismo, veremos que derivações poderão estes autores enunciar futuramente nas suas obras. Menção honrosa.
catia aguiam
Gostei bastante deste trabalho de Cátia Aguiam, que não teve direito a prémio. A proposta é forte, ilustrar o preconceito, a inveja, a vaidade, a arrogância, o assédio, o moralismo, etc, tudo isso ligado á identidade de género, perdão, do papel do género (gender role), não é propriamente uma tarefa fácil e se bem que o recurso à colagem tenha facilitado essa dinâmica, mesmo sem ela, as fotos sobreviveriam muito bem. Ironia, citação, conceito, técnica, estudo, tudo isso é visível, mas ou da colagem dadaísta ou da encenação ou duma consciência crítica directa, a la neorealismo, algo não colou bem no júri que não premiou esta mistura.
paulo roberto
paulo roberto
Alguém precisa de um calendário prá oficína? Paulo Roberto vende (vá lá, pelo menos não ganhou prémio). Proposta para novo workshop: como desgraçar fotografias com recurso a moças maravilhosas…
Colette Douillard
Numa versão masculina da proposta anterior, menção honrosa para esta série sobre o nú masculino de Colette Douillard, a título de curiosidade, ela e Paulo Roberto, inscritos na Bienal como representantes da Soc. Nacional de Belas Artes. Pelos vistos o nú masculino a dar cartas aqui pelo Bienal, é caso para desconfiar se não anda práqui o tal de lobby (gastei a piada homofóbica da semana)… e se as “belas artes” lusas não andam perdidas pela rua do desespero.
andreia quelhas lima
Se houvesse uma categoria de fábula do contemporâneo PB, a mim convencia-me esta série de Andreia Quelhas Lima, que nada ganhou.
Rui Pedro Rafael
Menção honrosa para este trabalho de Rui Pedro Rafael (Iade), ilustrar um proposta com forte conteúdo arquitéctónico, com recurso a lentes de 35 mm não me parece boa idéia (como eu percebo a falta de fundos, o médio formato ficava aqui a matar…) as linhas aparecem tortas (a minha foto agravou isso), noutra vertente técnica, as altas luzes tem excessivo protagonismo nas fotos, enfim problemas técnicos que ainda assim deixam entrever um proposta conceptual que pode estar ligada ao abandono do trabalho produtivo, á reconfiguração do local, etc. Um trabalho interessante, mas não digno de menção, sobretudo devido a problemas técnicos.
Pedro Ramos Santos
Pedro Ramos Santos (Iade) enganou-se na porta, os estudos cromáticos da fotografia são avaliados no Bes…
José Gomes Oliveira
Afinal não havia engano não, o Bes é mesmo aqui, menção honrosa para este exercício escolar, pelos vistos começa a fazer escola a premiação dos usos estratégicos da fotografia.
A fotografia é uma excelente ferramenta de expressão criativa, embora nem todos tenham ganho prémios, todos saíram (saímos) beneficiados. De realçar positivamente o apoio e a visibilidade que o municípo vilafranquense concede à fotografia, com várias exposições a decorrer em paralelo noutros espaços do concelho. A acabar a tarde ainda visitei o Museu do Neorealismo, edificío bonito do arq Alcino Soutinho, aberto ao público desde Outubro de 2007, numa visita bem agradável à história desse movimento na arte portuguesa, sendo contudo conveniente deixar o cartão do partido á porta, pois entra-se em território maioritariamente vermelho.
11 comentarios“PMC/ P.M.I. Passport“, José Luis Neto
![]()
Na Galeria IPT, em Tomar, mais uma volta pelo país da fotografia, desta feita na sua faceta “arte contemporânea”. A escolha deste artista – premiado Besphoto em 2005 – para a primeira exposição desta nova galeria do Instituto Politécnico local (que oferece uma licenciatura em Fotografia) é algo que me convoca alguma reflexão. Algumas páginas atrás, bati no excessivo protagonismo daquilo que me parece ser uma corrente de utilização estratégica da fotografia, ligada a um academismo formalista, pouco inovador, mais preocupado com normas e métodos. Parece-me que este autor está de certo modo ligado a essa corrente, mas, e desconheço ainda porquê mas tentarei encontrar-me, neste projecto não se me oferece a mesma vontade de violência. Seja porque sou natural de Tomar e estou naturalmente satisfeito por lá ver a fotografia singrar, ou porque coloco em causa os meus handicaps, provavelmente ligados a uma visão da fotografia de pendor humanista, ou vanguardista, ou demasiado Magnumnizado que foi o meu cérebro, pela presença contínua de autores na cabeceira do leito. Ou então, simplesmente simpatizo com alguns projectos de José Luis Neto, como foi o caso deste. Diga-se, em abono da verdade, que em termos de fotografia no seu molde “tradicional” não há ali nada para ver, mas em abundância parece haver o questionamento sobre o modo como se vê.
Uma certa tendência despolitizada ou melhor dizendo menos partidarizada, porque a política até é interessante, sobretudo se não tiver partidos, mas dizia eu, uma abordagem mais fenomenológica, questionando o experiencial, embora não pareça ser uma marca muito vincada neste autor, ou pelo menos neste projecto, dela se podem vislumbrar alguns traços. Do que se lê no blog da galeriaipt “estas imagens são então utilizadas como base para um trabalho que vai interrogar a natureza e os limites do fotográfico, da representação e da autoria“, inferimos a parte da desconstrução do medium, enfim, todas as artes necessitam dos seus falsos dramas do tobias ou não tobias, mas descambo. Evidentemente que não se trata apenas disso, a mutabilidade é o que abre caminho aos novos processos, aos novos ciclos de criação-manutenção-destruição, mas ver toda a gente a fazer do mesmo, já é algo assim estranho. Este trabalho pode não ter fotografia, mas tem idéias interessantes através da mesma, as quais são apresentadas em paralelo com o processo do questionamento do meio em si, se o mesmo serve a identidade do estudo proposto, é uma questão a reflectir. Em torno de alguma comunidade fotográfica contínua o debate sobre se “é isto fotografia”, a resposta parece ser a de que sim, também é, embora noutros moldes que importa também entender, de modo a que o percurso do “fotográfico” se vá tornando perceptível e transmutando em novas abordagens.
A imagem falhada, o apagar da identidade em favor da identificação, entre outros dados deste trabalho, são factores interessante quando analisadas do ponto de vista da divergente distância entre o Eu real e o Eu imaginado, que conduz à neurose colectiva contemporânea, com frisa a psicologia. No entanto, em que medida é que esta arte contribuí – se é que tem que o fazer – para que entre o humano possa emergir a empatia, a compreensão e a congruência, é resposta que provavelmente daqui não virá. Não se estando em presença de uma exposição que sob alguns critérios (será que servem aqui??) se possa considerar conseguida, vemos contudo um artista que tem preserverado na afirmação da sua linguagem (ver Continuum, 22474, 22475 Anónimo, projecto 7 Maravilhas), num obra que procura levantar questões importantes, se depois a um nível mais plástico as mesmas tem conteúdo isso parece não ter tanta importância no esgrimir destas propostas. Convém no entanto referir que esta atitude da convergência entre os trabalhos ao nível da coerência da linguagem utilizada, da temática conceptual – nalguns casos apenas uma espécie de mais do mesmo – são valores bem cotados na bolsa da arte contemporânea, pelo que esta exposição terá que ser vista também sob esse prisma. A este respeito certamente não será indiferente nem inocente a escolha deste autor (embora talvez nem lhe interesse representar essa via) para primeira exposição, da galeria de uma escola de fotografia, afinal de contas, há rankings, há prestígio, há competitividade, há status e toda essa tralha que convém ensinar aos alunos/artistas, se querem ter sucesso no mundo da arte contemporânea, mas como diz Manoel de Oliveira, “um tem a escola, outro a espontaneidade, o que eu gosto mais é da espontaneidade“.
“De Corpo e Alma”, vários autores
Em seguida fui até ao magnífico Convento de Cristo, ultimamente tenho sido visita regular mas confesso não perceber ainda bem porquê, embora possa pensar nalgumas pistas. Numa sessão de desenvolvimento pessoal vi-me (e todos os presentes) confrontado por um potente medium com uma parte daquilo que seria a minha história anterior, o qual me falou brevemente sobre a ligação que (supostamente) eu tivera aos Templários e note-se a bem da credibilidade, que desconhecia em absoluto o facto de eu ter nascido em Tomar. Suponho que possa vir daí o crescente interesse que tenho pelo local, que cada vez mais vai revelando ao público novas áreas restauradas, onde desta vez descobri uma ala apelidada de “Noviciado“, com uma fantástica sala, decifrada pelos entendidos como uma obra prima do Renascimento. Ando-me a confrontar com a minha própria história, talvez sem o saber.
Autor: acosta
Fui então visitar a exposição “De Corpo e Alma“, tema que dá mote à “III Bienal Porto Santo“, uma exposição de arte contemporânea patente no Convento de Cristo, que reúne trabalhos de cerâmica, desenho, escultura, fotografia, instalação, joalharia, pintura e vídeo. A fotografia está representada pela “Secção de Fotografia da AAC com a mais recente proposta fotográfica, contextualizada no ambiente e características do espaço arquitectónico que acolhe a exposição.” Nesta mostra fotográfica estão patentes vários artistas, mas duas delas tem nomes que desconheço serem a mesma Patrícia Almeida daqui e daqui e Joana Vasconcelos, daqui, mas estou em crer que se trata de mera coincidência de nomes, pois em nenhum dos casos reconheci as autoras, but… Uma fantástica caixa de luz (este mecanismo impressiona-me sempre) de acosta e uma montagem de Mauro Almeida foram as boas notas nesta secção “Académica de Coimbra”, cujo pendor é claramente amador, talvez à semelhança da equipa de futebol, mas nada contra o amadorismo, aliás só a favor, é tudo “fotográfico”.
Autor: Mauro Almeida
Embora estivesse presente mais alguma (pouca) fotografia nesta mostra, a parte da AAC estava concentrada apenas numa sala. Desta mostra colectiva de fotografia pode-se dizer que de um modo geral a selecção estava inteligível face ao tema proposto do “corpo e alma”, embora fora desta secção estivesse um fotógrafo cujo nome não recordo, que apresentou apenas uma fotografia, de um rebanho de cabras… Do restante trabalho posso dizer que gostei tremendamente da obra de uma autora para mim desconhecida, Salomé Nascimento, uma espécie de pintura em pele ou a fazer lembrar pele, profundamente hipnótica e que só por si me valeu a exposição toda. Após passagem pelo trabalho que tem online, aqui e aqui, só confirmei a excelência do mesmo.
Uma bela excursão à minha terrinha, até parece que o Pai Natal das artes, por lá chegou mais cedo este ano.
Da Vinha ao Vinho, de Nanã Sousa Dias
Da minha outra terrinha, aquela onde vivo actualmente, na galeria da câmara municipal de Torres Vedras está este trabalho, de um autor que fez a sua afirmação fotográfica já tardiamente e que era (é) conhecido como músico de jazz. Fazendo valer o ditado, de que mais vale tarde que nunca, desenhou-se uma ascensão na sua afirmação estética que encontrou algum eco a nível nacional e internacional, sobretudo no domínio da fotografia de paisagem. A fama foi grangeada através da utilização apurada da técnica de Ansel Adams conhecida pelo sistema de zonas, em conjunto pela preferência dada ao retrato paisagistico, em preto e branco, utilizando máquinas de médio e grande formato. Nesse domínio viu-se competência técnica, nalgumas fotografias da costa portuguesa com bom recorte estético, mas quando confrontado com pessoas ou paisagem urbana já o tratamento dado por este autor, parecia ainda andar á procura de uma expressão mais coerente. Que revelaria este trabalho, quiçá exigente, de uma linguagem que não parecia ser a sua, a do registo documental mais etnográfico.
É sempre um prazer entrar numa sala repleta de fotografia a preto e branco, para mais impressa em papel baritado. Do percurso pelas fotos expostas, pode-se ler a utilização feita pelo autor de 5 formatos diferentes de câmeras fotográficas, desde o 35 mm, passando pelo médio, até ao grande formato, cujos reflexos são evidentes numa panóplia de tamanhos das fotografias apresentadas, tendo sido utilizados também 5 tipos de rolos PB diferentes. Nalguns casos, parece não ser claramente visível o que é que a alteração no formato pode acrescentar ao tratamento do tema, utilizando-se indiscriminadamente o 35 mm para fazer paisagem e o médio formato para reportagem, numa mescla técnica algo complicada de masterizar. Num autor a quem ouvi afirmar não gostar do formato quadrado por ser muito difícil de compôr, curiosamente algumas boas fotos desta exposição são nesse formato, quiçá, terá aletarado a sua opinião. Por outro lado pergunta-se como alguém que é conhecido pela exigência técnica nos seus trabalhos e difunde o sistema de zonas como “imagem de marca”, se permite expôr fotos com zonas queimadas ao nível das altas luzes, com quase todas as fotos demasiado escuras nas zonas médias e sombras?
Num trabalho complexo como poderá ser este, é tentador afirmar que se faria assim ou assado, aliás contaram-me uma história interessante a esse respeito, acerca de dois autores, ambos convidados para determinado projecto fotográfico. Quando o segundo deu uma vista de olhos pelo material do primeiro e viu que lhe faltava uma parte da temática que justamente o primeiro tinha feito, voltou apressadamente ao local e bateu a sua chapa, inspirado no trabalho do outro. Posteriormente foi mostrar essa fotografia – onde supostamente fez melhor – ao outro fotógrafo com a frase “tás a ver pá, assim é que devias ter feito”… Ainda assim, há que analisar até onde for possível, sem caír nessa tentação do “como faria eu”. Desta mostra, algumas linhas da mesma parecem um pouco repetitivas, num exemplo, apresentam-se 6 fotos consecutivas a fotografar uma cuba em aço inox, motivo gráfico que pelos vistos animou o autor a apresentar 6 variações ao tema, o mesmo voltando a suceder com a “paisagem vinha” e aí terei contado mais que 6, embora quase todas com tomadas de vista muito próximas, num registo excessivo, aliás esta mostra peca por isso, fotos a mais, poder-se-ia ter guardado todos estes planos para o livro – se houvesse insistência nisso pois alguns parecem redundantes – fazendo-se a exposição apenas com o best of, poupava-se em dinheiro, todos ganhavam. Matuto para encontrar pontos fortes e comparando com outras coisas que vi sobre o vinho, até de artistas locais como Daniel Abreu e João Paulo Barrinha, não consigo ver em que ponto é que a escolha deste autor foi uma proposta de valor acrescentado para a idéia “da vinha ao vinho“.
O registo documental etnográfico assumiu uma densidade notável nos últimos anos, o fotógrafo tem que se preparar muito para além das suas noções préconcebidas acerca do tema que vai fotografar, se o quiser retratar de forma coerente. O que transpira desta exposição é alguma falta de idéias, compensada com múltiplas tomadas de vista sobre o mesmo sujeito, variando apenas os angulos de abordagem, as câmaras e os filmes usados, etc. Se ainda assim, em face dessas escolhas, estivéssemos em presença de trabalho pleno de estética, de pictórico, de variedade, de composições interessantes, então poderíamos dizer que apesar de tudo, se tinha obtido um bom trabalho, assim obteve-se, não de todo um mau trabalho, mas apenas mediano.
Este tipo de encomendas contém algumas desvirtudes a analisar, a pessoa que escolhe o fotógrafo tem noção de que tipo de fotografia se trata, a fim de poder escolher alguém que entregue um bom trabalho, ou será que o critério é esse e se não é baseia-se em quê? Na amizade? No currículo do fotógrafo? No facto de ser da praça? Qualquer um destes fins é legítimo políticamente ainda que discutível, atente-se nas palavras do presidente da edilidade, “este livro nasce da necessidade sentida por todos aqueles que, de uma forma ou outra, estão ligados à vitivinicultura no Concelho de Torres Vedras e que, sempre que necessitam de mostrar ou promover o seu trabalho e os seus produtos, não possuem uma ferramenta que bem ilustre essa realidade, esse mundo.” Entre outros critérios possíveis, pelos vistos figurava também o de arranjar um catálogo promocional (a pagar pelo Estado) de um produto que é privado, aliás diga-se em abono que o design do livro, parece ser coerente com essa estratégia, sendo menos um livro de fotografia artística e mais uma ode ao vinho, com manchas de vinho, lettering em grená, poesia “Bacólica”, etc. Numa variação ao que afirmei, se que de facto quem fez a encomenda sabia da “poda”, pode-se ler mais adiante “com as suas vestes tão depressa verdes como grenás ou amarelas“, mas não era de exposição a preto e branco que se tratava? Esta dinâmica acerca do “quem”, já esteve presente na escolha de Eduardo Gageiro para o projecto sobre Torres Vedras, “Viagem ao Centro Histórico”, do ponto de vista fotográfico, artístico ou documental, um autêntico fiasco, a fazer lembrar o Nick Knight e a célebre e dispendiosa campanha Portugal West Coast. A questão não é a boa vontade para com o gesto artístico, aliás nesse aspecto, a edilidade torreense tem sido pródiga a apoiar a fotografia, é sobretudo, para além da competência e capacidade técnica do artista, se está o mesmo “comprometido” com o tema, se lhe interessa, se o apaixona, se o retratará de forma consistente.
Numa outra dinâmica, talvez esta ainda mais delicada, tem o fotógrafo a noção de que pode desempenhar bem o que lhe é pedido? Aqui cruzam-se sempre os dados financeiros, está o mesmo em posição de recusar uma oferta que lhe pode ser vantajosa não só financeira como promocionalmente? Se me vierem dizer que foi trabalho de borla e que só se pagou aos custos, então será que o trabalho foi feito com toda a dedicação que lhe era devido, apenas porque foi feito pro bono? Questiono-me sempre até que ponto é a “encomenda” boa para o fotógrafo. Provavelmente estou a falar de um segmento de fotógrafos que se servem da exposição que tem numa dada área para abarcar negócio noutras áreas, que não sendo as suas facetas mais fortes, naturalmente propiciam entrada em caixa, afinal de contas, há que chegar ao fim do mês, mas qual é o preço dessa estratégia, é o que seria interessante conhecer.
ComentarSérgio Gomes no artephotographica em périplo pelo mundo da fotografia na Paris Photo, este ano com destaque à fotografia japonesa. Neste artigo, curiosamente, uma foto de Asako Narahashi, autor a quem me referi aqui, cuja série half awake half asleep in the water, me impressionou deveras. Oh Paris, Paris!
Comentar