Arquivo de ‘intimidade’

Julia Fullerton-Batten

Desta feita não destaco nenhuma série de JULIA FULLERTON-BATTEN, é tanta a imensidão de coisas boas que mais vale ver tudo. A base temática parece ser o feminino, trabalhada sob uma perspectiva que aparenta estar ligada à noção de narrativa, de encenação, de quadro figurativo, tudo isso entrelaçado com um olhar sobre as relações pessoais e emocionais que desprende nalguns casos um “male gaze”, que se tornaria suspeito caso fosse fotografado por um homem…
aqui falei sobre o “male gaze”, o que parece estar na mira dos defensores dessa argumentação não é a forma como foi trabalhado o sujeito, mas o “male gaze” ou “female gaze” como arma de arremesso a favor de uma suposta objectividade, um homem nunca pode fotografar objectivamente o universo feminino como uma mulher o faz, devido à “tensão sexual com o sexo oposto” e vice-versa, mas pergunta-se, seria suposto fazê-lo? Certamente não devido a uma questão de falta de empatia, nunca se trata apenas de querer calçar os sapatos do outro, ou até de compreensão e aceitação, mas ao que parece nem é por aí que vai a moda, a questão prende-se mesmo com o facto do género sexual atrapalhar a investigação, aliás só pode ser por isso que o mundo não progride, porque anda meio mundo a investigar a outra metade…

Ela perturba-me…
É o seu corpo?
Sim. O seu jeito… Ela desperta em mim um
desejo ainda indefinido.
Mais forte porque é indefinido. Um puro desejo. Um
desejo de nada.
Não quero fazer coisa alguma mas esse desejo incomoda-me… O
joelho. É o objecto do meu desejo.
Então é fácil satisfazê-lo. Ponha a mão no
joelho dela. Essa é a forma de exorcizá-lo.
Está errado. Essa é a forma mais
difícil de fazer.



em “Le genou de Claire”, de Eric
Rohmer

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Jen Davis, Auto-Retratos

Esta série de auto-retratos de Jen Davis chamou-me a atenção de vários ângulos, por um a lado, a utilização não standardizada do corpo feminino, como paradigma de efectivação de um estudo fotográfico “bonito ou atraente”. Sabendo como no Photoshop tudo se altera, a maior parte das representação mediatizadas do corpo feminino é tudo menos realista. Por outro lado, as imagens não deixam contudo de apresentar tensão na amplo quadro de direcções  em que navegam, em que através da representação de um corpo feminino que não representa uma padrão actual de beleza, nos são sugeridas interligações com questões ligadas à sexualidade, à alimentação,  à moda, à auto-estima, etc.  Uma série que se poderia considerar íntima, subjectiva, que não reflectiria sobre o mundo mas sobre si mesma, mas que pela forma como é trabalhada consegue transitar do particular para o geral, trazendo para a linha da frente questões essenciais não só do individual, como do colectivo.

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Masahisa Fukase, The Solitude of Ravens

Masahisa Fukase - The Solitude of Ravens
Masahisa Fukase - The Solitude of Ravens
Masahisa Fukase - The Solitude of Ravens

No final do ano passado, olhei (online) para alguns livros premiados, tendo um ou outro fixado a minha atenção, entre os quais este The Solitude of Ravens, que embora na altura não tivesse uma noção clara da força que nele me atraira, pois dei apenas uma breve vista de olhos pela pouco esclarecedora sinopse da loja que o estava a vender, claramente senti nele algo forte, que me levou a marcá-lo para posterior revisão. Após alguma pesquisa na Net, vim a perceber que um certo estado de espírito, que talvez se possa considerar negro, embora os afro-americanos lhe mudem a cor para blue, mas dizia eu, um certo estado de espírito parecia estar subjacente. Este era, é, um livro marcado por sentimentos de tristeza, de solidão, de perda, neste caso, a perda da mulher amada, com quem o fotógrafo partilhou 13 anos de casamento, e de quem eram conhecidas as alegres fotos da sua esposa enquanto casados. Após a dissolução do casamento, Fukase, que até aí perseguira uma carreira bem sucedida no mundo da moda, começou a fotografar estes corvos, que na cultura japonesa são prenunciadores de maus augúrios. Aquilo que potencialmente seria um acto catártico, talvez se tenha vindo a consumar num verdadeiro hara-kiri através do acto fotográfico, não menos belo ou criativo e se existe esplendor na pulsão do acto criador em face da perda, ou mais poéticamente, uma art of losing love, então este sublime exemplar representando dez anos de trabalho, faz-lhe inteira justiça. Numa analogia talvez um pouco desproporcionada, vem-me à mente Nicholas Cage, em Leaving Las Vegas (1995), filme que empatiza com a vontade de morrer através do suicídio alcoólico, aqui o fotógrafo parece auto submeter-se a um suícido fotográfico, aliás basta dizer que pouco depois da publicação do livro, entrou em coma do qual não recuperou, ainda que alguma pesquisa no Google evidencie dados um pouco contraditórios.

Esta está a ser a semana da fotografia sombria aqui pelo blog, com o Ballen e o Witkin da 2ª feira, embora esta não seja o tipo de fotografia que possa denotar grandes paralelos com o meu trabalho, aprecio sobretudo a intensidade com que a mesma se me apresenta, bem como as polaridades e os opostos em relação ao que persigo, pois vejo a evolução como um desafio de integração e de transcendência.

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Juliana Beasley, Lapdancer


Devia começar pelo “e porque hoje é quinta-feira” mas corro o risco da piada passar desapercebida, portanto início o post afirmando apenas que a fotografia americana tem destas coisas espantosas, a flexibilidade de acolher, apoiar, publicar, premiar e até subsidiar, autores que transparecem para o papel, algumas janelas opacas das suas vidas privadas. Nesta série, auto-retratos de Juliana Beasley, que pode ser vista também no blogue da autora em Juliana’s Lovely Land of Neurosis. Quanta desta demarche não está hoje em divída para com Robert Mapplethorpe e sobretudo Nan Goldin, é a interrogação. Cá pelo burgo,  como estamos ainda longe destas fronteiras, aliás imagino o reviralho, se alguma ex-stripper aparece por aí a fazer “fotografia contemporânea”… a menos que junte DR no prefixo, ou apresente passagem por alguma London School, então aí, já não digo nada.

Voltando ao assunto, parecem coexistir duas grandes divisões nos tipos de abordagem corrente na fotografia, a “janela sobre o mundo” e o retrato intimo ou “janela sobre mim”, a segunda em clara inferioridade de projectos em relação à primeira, o que, evidentemente, nada diz da qualidade dos mesmos. A fotografia sempre foi bem acolhida como uma forma de “cartografar” o mundo, que embora se debruce sobre a extensão, envolve também a noção de profundidade, de análise, o que de certo modo parece esbater a linha divisória entre esses 2 tipos, ainda que a posição dominante actual pareça ser a de obliterar a “psique” do fotógrafo, na sua dimensão de juíz de valor, de quem tem uma posição, de quem analisa e interpreta, tudo isso em prol de e sob a capa do estudo antropológico, ainda que também ele, fruto de alguma mente que observou e que porque o fez, alterou o próprio estado do observado. Há quem prefira um tipo de fotografia a outra, por vezes considerando que o geral é mais interessante que o particular, ou que o colectivo é mais interessante que o individual, no entanto creio que o interesse de um projecto talvez possa depender não apenas da extensão, mas também da profundidade com que o objecto é trabalhado. Obviamente que os espíritos mais académico-estatísticos preferem sempre a infalibilidade da amostra, eventualmente sob a (falsa) capa do maior interesse gerado, mas se é esse o racíocinio de “sucesso de bilheteira” que vai ditando o curso das escolas de fotografia (porque é que haveriam de ser diferentes das outras escolas?), então talvez o dinheiro seja mais bem gasto em lap dances.

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