Arquivo de ‘portugal’

The Portfolio Project

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THE PORTFOLIO PROJECT | thinking photography differently é um projecto que visa mostrar trabalhos de proveniência nacional e estrangeira. A mentora, Susana Paiva, sobretudo conhecida pelo trabalho de fotojornalismo e fotografia de palco tem-se mostrado incansável na divulgação da fotografia através de uma multiplicidade de projectos e participações.

Sites relacionados:

- Performing Arts Photography
- Blog de Susana Paiva
- SUSANA PAIVA | documentary and fine art photography

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e pur si muove

Não desejando entrar em polémicas ou contradizer o António Lopes, gostaria no entanto de adir ao que escreveu em Por cá…nada se move. Se bem percebi, fala de alguma falta de capacidade de renovação e actualização da fotografia portuguesa, bem como da exigua quantidade de valores que há para mostrar, citando a excepção que é Jorge Molder, com a qual aliás concordo, não no sentido de que é uma excepção, mas antes pela valia da sua obra.

Quanto a facto de não termos uma mão cheia de “mostráveis” que possam ser relevantes para a fotografia contemporânea portuguesa, talvez possa aqui acrescentar uma breve nota pessoal, a qual aliás não apresentará nada de novo, pois tratam-se de nomes que todos os que estão ligados à fotografia em Portugal têm obrigação de conhecer. Em primeiro lugar, creio que Paulo Nozolino, embora fiél a uma linguagem que muitos poderão considerar datada, é, para mim, e ao contrário desse pensamento, um clássico, cuja fotografia responde sempre a um elevadíssimo grau de exigência estética e ética, que não passa de moda porque provavelmente nunca nela esteve. José Manuel Rodrigues, pelo que se conhece e que foi superiormente revisto na retrospectiva em Évora do ano passado, poderia ser outro nome a incluir, pese embora a menor visibilidade dos últimos anos. Na vanguarda dos usos fotográficos temos José Luís Neto, embora não se possa falar dele como fotógrafo no sentido mais literal do termo, o mesmo se podendo dizer de Vasco Araújo, contudo são dois criadores cuja originalidade e capacidade de assumir riscos são inteiramente de apoiar.  Poder-se-ia falar de Edgar Martins, nome talvez agora menos consensual devido aos “maus usos” do marketing, mas cuja fotografia exibe uma qualidade que ultrapassa os déficits de legitimação com que defende a sua obra. Também alguns dos membros do colectivo Kameraphoto, pois dentre eles existem autores que actualmente exibem excelência técnica, estética e capacidade de integração de novas linguagens e abordagens.

Depois, existe um conjunto de autores cuja existência anda em volta do formato “fotografia-como-arte-contemporânea”, que tem os seus próprios meandros e fórmulas, que parecem encontrar nesse nicho de mercado um sentido artístico e existencial. É neste grupo, que porque estudou e tem know-how artistico, que em minha opinião poderia residir o maior nicho potencial de toda a fotografia portuguesa, mas de modo estranho, nele raramente se vislumbra algo de entusiasmante estética e/ou conceptualmente. Contudo considere-se que será deste núcleo que se pode esperar o maior protagonismo no presente e num futuro próximo, pelo que alguns representantes desta categoria seriam sempre de evidenciar. Alguns nomes que pertencem a este “nicho” artificial e superficialmente criado por mim, poderão ser Augusto Alves da Silva, António Júlio Duarte, Paulo Catrica, Eurico Lino do Vale, João Tabarra, Daniel Blaufuks, Daniel Malhão, José Maçãs de Carvalho, Nuno Cera, etc.

Finalmente, existe um conjunto de talentos emergentes (muitos deles visíveis através das iniciativas Anteciparte, Prémio Fnac, Prémio Bes Revelação, Encontros de Braga, etc.) evidenciando qualidade assinalável, fruto muitas vezes da “emigração” escolar e aí parece residir um dado interessante, que é o facto de quase todos os autores “que contam” no mundo fotográfico português, sejam eles consagrados ou emergentes, terem um curriculo académico ligado à fotografia ou às artes, usualmente prosseguido por estudos pós-graduados efectuados no estrangeiro. Os seleccionados para a iniciativa Emergentes dos Encontros em Braga, onde também estive, várias vezes foram questionados sobre os estudos fotográficos, portanto é de assumir que essa seja uma questão relevante. Talvez não tanto para a avaliação do trabalho fotográfico em si, mas provavelmente para a aferição do potencial de cometimento e de entrega do candidato, da sua capacidade para formulação de um discurso e prática coerente e consistente ao longo do tempo, pois que a validação artistica é feita no longo prazo e não no curto, como muitos autores que viveram na penumbra e penúria (não) tiveram oportunidade de perceber.

Reconhecendo que por cá não se possa falar em “estrelas” da fotografia mundial – o emprego do termo “estrelato” sendo reconhecível metafórica e irónicamente como alguém que vive da imagem – ainda assim creio que existe qualidade suficiente e propícia a uma representação ampla, de consagrados a novos valores, provenientes das várias “fotografias” que por aí se fazem. Mas existirá essa vontade por parte dos diferentes actores do meio? Do lado oficial, o apoio à imagem parece estar a falhar de forma continuada: a LisboaPhoto não vingou, os Encontros da Braga ainda no ano passado ficaram por realizar, Coimbra finou-se à muito; mesmo agora que pululam as bienais de fotografia (Sintra, Vilfa Franca, Montijo, Coruche), tal parece na maioria dos casos nada trazer de novo ou positivo, excepto para os premiados “a metro”; o IPF, o CPF e outras entidades parecem ou não ter meios (o mais provável) ou não ter estamina para dinamizar, ou mesmo falta de conhecimento e profissionalismo curatorial para avaliar e promover. Embora o post vá um  pouco em contra-corrente àquilo que o António escreveu, volto a notar que essa é a opinião dele e esta é a minha, ambas são só opiniões, ainda que haja quem goste de defender as suas como se estivesse a defender uma caixa-forte. Quanto ao momento em que fala da “incapacidade de actualização da fotografia portuguesa”, é um frase forte mas sintética, pelo que seria interessante lê-lo de forma mais aprofundada sobre este assunto.

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livros: essência e memória

Mais uma proposta natalícia, esta iniciativa liderada por António Vieira da Silva, que tem vindo a desenvolver esforços para dar oportunidades de publicação a um conjunto mais alargado de autores portugueses, aliás, neste projecto em causa, reunindo também fotógrafos de origem lusófona. Os direitos de autor da presente edição tem como destino a Associação Meninos de Oiro. Embora tenha tentado encontrar os locais de venda, inclusivamente consultado o site da Chiado Editora nada consegui, pelo que suponho esteja nas principais livrarias.

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entrevista com inês d’orey

piscina de campanhã, da série “porto interior”


Fiquei cativo da beleza das imagens de
Inês d’Orey na primeira vez que as vi, logo após a premiação no concurso “Fnac Novos Talentos” de 2007, alcançada com o trabalho “Porto Interior“. Esta subjectiva declaração de amor à primeira vista, não visa atribuir ou impôr nenhumm critério qualitativo, antes permite confortar a necessidade de partilhar aquilo de que gostamos. Surgiu a oportunidade de interpelar a autora para uma breve troca de idéias, acto ao qual gentilmente acedeu.

casa da música, da série “porto interior”


abp – Talvez a faceta mais conhecida da tua fotografia seja a de arquitectura, embora o faças de um modo absolutamente sui generis. De onde vem essa tendência e a esse pretexto, que fotógrafos te inspiraram ou inspiram.

inês d’orey – A fotografia de arquitectura é uma área relativamente recente no meu trabalho. No início do meu percurso como fotógrafa, interessava-me essencialmente por pessoas. Aconteceu trabalhar com um fotógrafo especializado em fotografia de arquitecura, quando voltei de Londres e precisava de um emprego. Gradualmente, comecei a interessar-me por espaços, de tanto os ver e fotografar. Sempre tive tendência para um tipo de fotografia mais encenada, lírica e menos documental. Admiro fotógrafos documentais, mas a minha inspiração vem pricipalmente da pintura, da ilustração e do cinema. Tento transportar esse espírito para os espaços que fotografo. Agrada-me mais a ideia de criar momentos, do que a de apanhar momentos.

a gente não come terra, mas a terra come a gente, da série “ditados velhos são evangelhos”


abp – Comecei pelas tuas imagens do “Porto Interior“, e ainda antes de conhecer mais alguns dos teus trabalhos, já a palavra poesia se associava espontâneamente dentro de mim sempre que nelas pensava, o que vim a confirmar no uso que fazes na série “nunca o verão se demorara assim nos lábios” e “soundtrack“, e também através do uso de ditados na série “ditados velhos são evangelhos“. Porquê a escolha destas formas literárias – considerando que o ditado pode estar próximo do poético – e da associação entre palavra e imagem?

inês d’orey – Interessa-me explorar o carácter ambíguo da fotografia. Se num extremo é ciência, no outro extremo é poesia. A fotografia é a selecção de um pequeno fragmento do mundo que, apesar da sua ligação à realidade, pode ser muito pouco objectiva, pessoal e íntima. A utilização de som ou texto associados às imagens, vem potenciar essa ambiguidade, altera o seu significado, diminuindo ou intensificando o seu impacto.

da série “nunca o verão se demorara assim nos lábios”


abp – Nas tuas imagens é frequente o uso de texturas. Nalguns casos poderia ser uma espécie de pele, no sentido de algo que contém algo, e noutros, talvez fazendo lembrar tela, o que as aproxima da noção de pintura, desenho ou ilustração. Em ambos os casos, as texturas parecem conferir algum suporte à imagem, é assim?

inês d’orey – Quis dar às minhas fotografias uma identidade própria. As imagens são sobrepostas por páginas de livros antigos, sendo este processo uma forma de acentuar sensações específicas que possam ser despoletadas no espectador associadas à memória de um momento parado no tempo.

casa em kaunas, da série “the last places”


abp – As tuas composições parecem dirigir-se ao espectador de uma forma muito subtil, procuras comunicar algo ou é apenas o reencontro contigo mesmo e com o mundo, aquilo que se torna visível?

inês d’orey – Penso que o meu trabalho tem um carácter muito pessoal e reflecte a maneira como eu gosto de ver o mundo. Mas este também é feito para ser visto e absorvido pelos outros. Gosto da ideia do espectador se identificar com a minha visão das coisas e que isso leve ao tipo de sensações que se pode ter ao observar uma obra de arte.

sanctuary #02, da série “soundtrack”


abp – Nalguns projectos, embora se mantenham certas marcas características, surgem dados que poderiam ser mais do domínio do autobiográfico, nomeadamente em aspectos ligados à religião, à fé, à morte, que talvez acabem por complementar uma certa faceta lírica, a qual se associa frequentemente à poesia que representa sentimentos e estados de espírito. Aparentemente, a visão que se entrevê é de sentimentos um pouco sombrios ou assustadores. De que modo é que o fotografar te facilita o lidar com esses sentimentos?

inês d’orey – Soundtrack” é a série que mais trabalha a religião, a fé e a morte, conceitos esses indissociáveis uns dos outros. Foi realizada logo após a morte do meu pai e de ter que enfrentar todo o processo de um funeral. Fotografei cemitérios e igrejas e os seus símbolos. Sempre questionei a religião e a morte sempre me assustou e, de forma a explorar a subjectividade inerente a estes temas, convidei músicos e escritores a comporem uma peça inspirada em cada fotografia. O resultado foi uma exposição em que, ao lado de cada fotografia, se podia ouvir uma música ou um texto de cada autor, dramatizando ou tornando mais leve o ambiente criado por cada fotografia. Não acho que a fotografia seja uma forma de lidar com os meus sentimentos, mas são, sim, o resultado dos meus sentimentos.

fenianos #1, da série “porto interior”


abp -  O “Porto Interior” trouxe-te o prémio Fnac Novos Talentos em 2007. Qual foi o impacto no teu percurso?

inês d’orey – Foi muito útil para algum público conhecer o meu trabalho e daí decorrerem novas encomendas.


abp -  Tens conseguido viver da fotografia que gostas?

inês d’orey – Vivo da fotografia que gosto. Divido o meu tempo entre o meu trabalho de autor e trabalho comercial, principalmente nas áreas de arquitectura e de cena.

abp -  Que te parece o panorama actual da fotografia “fine art” em Portugal?

inês d’orey – O mercado português é muito pequeno, mas a fotografia tem cada vez mais presença nas colecções de arte. Acho que para um artista ter sucesso, além de talento, tem que ter muita sorte.

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fernando lemos

“Esse surrealismo de figurinha sifilítica herdada do Dalí, essa coisa do erotismo, da masturbação e dos corpos estragados são meio “demodé”. Para mim, a fotografia do Man Ray é música de câmara, quer dizer, é muito laboratório.“  Já pouco se ouvê gente a falar desta maneira desassombrada, nesta época de maneirismos descolorados e respostas “encoñadas”, é um bafo de oxigénio ler esta entrevista do fotógrafo português Fernando Lemos.

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livros: edições pierre von kleist

©Pauliana Valente Pimentel

    A Pierre von Kleist Editions editou recentemente “Vol I” de Pauliana Valente Pimentel. Ficções (ou não) íntimas, a fugacidade e a inquietação das relações modernas, parecem ser o leitmotiv desta pequena monografia.

    Da mesma editora, está previsto para 10 de Dezembro o lançamento de “Lisboa, cidade triste e alegre“, de Victor Palla e Costa Martins, comemorativo dos 50 anos da primeira edição. Livro há muito esgotado, encontra-se citado no “The Photobook: A History, vol 1“, de Martin Parr e Gerry Badger, com este último a escrever a introdução deste relançamento.

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    livros: portobello, de patricia almeida


    ©patricia almeida

      Portobello é o projecto fotográfico de Patricia Almeida que valeu a nomeação para o prémio BesPhoto09. O livro, além de estar à venda nalgumas livrarias, já o vi na Almedina do Saldanha Plaza, p.ex, pode também ser adquirido através das indicações contidas no link Books.

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      livros: fotoalternativa.net

      Fotoalternativa.net define-se como uma associação de criadores de fotografia. O projecto é abrangente, o site já mencionado, um blog em alt.blog, autoedição de livros através do Blurb,  tendo o primeiro sido lançado em finais do ano passsado, intitulado N I N G U É M e um outro recentemente cujo título é de Caras (carregar nas imagens para obter algumas páginas de pré-visualização), e ainda uma exposição em curso na Lx Factory até 21 de Dezembro.

      Como já referi, o propósito destas sugestões de livros para este mês não é o da menção crítica. No presente caso apenas vi os livros pela pré-visualização disponível, não faria sentido dizer o que quer que fosse sobre eles apenas com base nisso. De qualquer forma é uma iniciativa interessante, de um grupo bastante eclético de fotógrafos. A auto-edição veio para ficar, e o site Blurb parece ser a referência no género. Convém contudo esclarecer que apesar da razoável qualidade que evidencia, não é o “estado da arte” editorial. No entanto, produzem livros perfeitamente aceitáveis a quem deseje fazer pequenas (ou únicas) edições, um portfolio, um catálogo, etc, sem as exigências de uma reprodução profissional. Já tive oportunidade de verificar a qualidade de alguns livros e embora no preto e branco seja sempre difícil atingir uma tonalidade neutra, a côrestá em linha com as gráficas de qualidade mediana e basta ver alguns títulos que por aí se lançam, para perceber que é uma edição que não envergonha ninguém.

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      Entrevista com Isaac Pereira

      Isaac Pereira é o último dos entrevistados, de um grupo de pessoas que nos “Emergentes” de Braga partilhou imagens, experiências, imagens e como não podia deixar de ser, algum divertimento. Oriundo da área de Ciências da Comunicação e do Jornalismo, tem feito um percurso de aprendizagem em Fotografia no Ar.Co. Procura-se aqui dar uma pequena perspectiva sobre uma série de trabalhos que vai mostrando, os quais são fruto da sua “inexperiência” como faz questão de afirmar, mas que certamente se ficam também a dever a muito labor, empenho e reflexão.

      abp) Donde é que vem a tua fotografia, quais são os autores que te influenciam?

      Isaac Pereira) O que faço vem do começo dos meus tempos. Sempre compus imagens e registei experiências através do olhar. Tenho, como todos temos, mas receio que em mim seja obsessivo, uma película constante de imagens que desfilam no meu pensamento e que registei desde criança. Talvez por isto me sinta melhor no monocromático. Gosto do lado plural de uma imagem, na absoluta liberdade de a interpretar. Desse jogo onde se movem todos os afectos e sensações. É daí que vem a fotografia. Ela apresenta-se como uma voz. Depois há a decisiva influência de um homem que fotografou a minha família: o meu padrinho, José da Silva. A ele devo o olhar que tenho sobre mim e os meus pais, por exemplo. A ele devo ver o que de outra forma jamais poderia ser visto. A fixação da imagem num tempo tangível mas depois, com o passar do próprio tempo, tão intangível, sempre me fascinou!!! Agradam-me imagens cruas, pouco sujeitas a composições muito elaboradas, mas que se produzem no interior de um instante mais ou menos duradouro e não necessitam de muitos tripés, de muitos efeitos e fontes de luz. Mas não pretendo negar a fotografia dita “construída”, pelo contrário. Seria negar a própria natureza do meio, na medida em que toda a fotografia é construída.

      Oa meus autores vêm da fotografia social dos primórdios, onde Jacob Riis, se apresenta como referência, até Lewis Hine; depois todo o trabalho da Farm Security Administration, onde pontificou Dorothea Lange; e um certo fotojornalismo que vai de Werner Bishop; Ed Van der Elsken a Walker Evans; passsando por muitos fotógrafos da Ásia como por exemplo o japonês Ihei Kimura. Aprecio imenso a obra de Sudek e Koudelka. E claro, não podiam faltar Robert Frank e Ralph Gibson. – o trabalho sobre o sonâmbulo é central – Recentemente “descobri” um olhar que me foi dado conhecer por um fotógrafo amigo, o de Michael Smartone, autor dos anos 70; há também Ralph Eugene Meatyard, e tantos outros: Brian Brake, Robert Capa. Não posso deixar de referir um grande fotógrafo português: Paulo Nozolino. Um dos fotógrafos de quem mais me aproximo, autor de imagens que em tudo têm a ver com o universo que procuro representar. Nozolino é um poeta forte.


      abp) Quando dei a primeira passagem pelo teu site, a ideia que me ficou foi essa que confirmas, a de uma certa “filiação” nas imagens do Paulo Nozolino. Por um lado, em que medida é que pensas que o teu trabalho se aproxima do dele, por outro, não crês que essa forte identificação possa ser um obstáculo ou não vês o reconhecimento autoral como uma questão?

      Isaac) Penso que o reconhecimento autoral é um aspecto importante. Mas só o é dentro de um conjunto de outros aspectos. Não diria tratar-se de uma “filiação”, diria antes que o meu olhar, também é cúmplice daquele olhar. É próprio das influências, é o que acontece quando observas, pela primeira vez, uma imagem de alguém. Ou se sente ou não se sente cumplicidade. É natural. Curiosamente, essa ligação ao literário, ao ficcional existiu sempre em mim, pois desde jovem que encontrei na escrita, a economia que a fotografia não me possibilitava. Desde jovem que escrevo. E os meus textos são textos carregadíssimos de imagens. E é lá, nesse lugar chamado real que elas nascem, para depois, se transfigurarem. Somos sempre tocados pelo que nos toca: pelo desejo, pela solidão, pela morte, pelo sofrimento, pela memória, pela nostalgia…por sensações fortes. Nessa medida o que fotografo está próximo não apenas do trabalho de Paulo Nozolino mas de outros tantos fotógrafos.

      Penso que é assim que acontece a toda a gente, não? Há tempos, um professor disse-me, quando viu um conjunto de imagens, que encontrava muitas semelhanças com Robert Frank, por exemplo. Senti-me embaraçado porque não tenho o fôlego de um artista como ele. Mas é bom, sentir essa proximidade. Depois há o modo como se fotografa. Sou dos fotógrafos que literalmente fotografa por aí, vadiando. A minha vida só não é igual à da maior parte das vidas porque eu ando sempre com uma câmara fotográfica colada ao corpo. Sempre, todos os dias, a todas as horas. Não faço projectos “à priori” para séries fotográficas.

      Não penso que estas proximidades possam ser um obstáculo ao trabalho criativo, sobretudo quando se procura estabelecer um equilíbrio entre os aspectos formais e o que as imagens propõem contar e dizer. Volto ao reconhecimento autoral: Penso que é algo que, a existir, existirá naturalmente. É algo que transportas e que a experiência te permitirá ou não, aprofundar. Não há lugar a uma obsessão pela procura da marca, se a marca já estiver dentro de ti.

      abp) As séries que apresentas parecem assentar numa estrutura narrativa algo poética, aparentemente pouca ligadas a correntes estéticas “realistas” ou documentais, embora frises autores que te influenciaram e que pertencem a essas correntes.

      Isaac) Concordo. O que me tenho proposto fazer é superar essa associação aparente e concretizá-la, ligando-a a um narrativa para a afastar do real. A questão sempre se colocou: o que é o real? Sucede que “o real”, para mim, é documento, e mesmo assim é documento construído. Daí que “o real”, enquanto entidade objectiva não exista. Quando muito podem existir factos, que logo são conhecidos e se transformam. Mesmo o realismo é a transposição de uma realidade aparentemente objectiva para uma esfera subjectiva e logo, mais ficcional. Acontece ser isto que me agrada em fotografia: partir de uma realidade aparente, de factos concretos, e obter uma pluralidade de sentidos, de visões do mundo, uma pluralidade reflectida na recepção dos outros e na própria recepção que eu faço. Considero essencial esta experiência de sentido. O mundo está inundado de documentos. Não digo que o documento deva ser abandonado, mas que a seu lado devem estar outros sentidos.

      abp) Lendo os títulos das tuas séries, existe praticamente em todos eles uma ligação com a palavra, escrita ou falada “um incerto diário”, “sombrias palavras”, “a fala”, “estórias perdidas”, “mas não estou só, tu disseste”. Em que medida é que isso pode ajudar à definição e coerência do trabalho?

      Isaac) O meu trabalho procura ser um diálogo permanente comigo e com o exterior. Julgo que, de algum modo, os títulos, que remetem sempre para um universo literário, tentam exprimir essa coerência.


      abp) A fotografia não é um espelho da realidade, pode ser um processo de construção do real?

      Isaac) A realidade é um conjunto de acontecimentos, de sensações e de olhares sobre esses factos, sobre essas sensações e sobre esses próprios olhares. Às vezes, brinco dizendo por exemplo que, se a realidade fosse o que as televisões nos dão a ver, então não haveria lugar ao conhecimento de outra realidade. O mesmo, em relação à fotografia e a todos os media. Neste sentido considero que tudo é um processo de construção do real, esse conceito que parece ser tão concreto mas que, se pensarmos bem, é tão abstracto. Os media são máquinas. Vivemos no meio de meios-máquinas. Meios de construção? Sim. Mas de que construção? Infinitas construções. Mas não todas iguais. Não. Felizmente. O medo é esse: que tudo tenha uma construção igual e repetida. Como evitá-lo? Pondo o teu sentimento e o teu pensamento entre a máquina e a construção que ela faz, automaticamente. Fazer com que a tua imagem seja a imagem de ti e não a imagem da máquina. É a velha questão sempre presente.


      abp) John Szarkowski certa vez falou em janelas e espelhos. As imagens-janela seriam aquelas viradas para o mundo, as espelho, seriam as mais viradas para o universo interior, para o Eu, tendo também afirmado preferir as primeiras às segundas. O teu universo parece ser mais de espelho do que de janela, concordas?

      Isaac) Quando fotografo não penso em termos  de janela e de espelhos. Muito menos quando estou com as imagens à frente do olhar. Contudo gosto da imagem-metafórica de Szarkowski embora não encontre nessa distinção retórica nada de especialmente delicado.  Poderia até dizer que toda a imagem é, ao mesmo tempo, um espelho e uma janela. O objecto que a imagem escolhe é sempre um espelho do sujeito que a faz. Há uma escolha. Essa escolha é um reflexo do espelho interior. Mas essa escolha também é feita a olhar para fora, pela janela do “eu”. Contudo, é curioso notar que, quer se trate de uma janela ou de um espelho, ambos emitem um reflexo. Sucede que é esse reflexo que me interessa na fotografia. O que me toca? É o espelho que me reflecte ou a janela por onde vejo? Só retoricamente creio possível esta distinção. Mas é uma distinção interessante. O que procuro é fazer com que as imagens se mostrem ao mundo, que elas próprias, em certa medida, reflectem. Mas esse julgamento, se é que existe um julgamento final e categórico, só pode ser efectuado no domínio da recepção, domínio no qual não me posso situar.

      abp) Como é que vês a fotografia em Portugal actualmente?

      Isaac) Observo que é necessário reforçar a defesa da Fotografia.

      abp) Podes elaborar um pouco mais essa idéia? Em que é que a fotografia necessita de ser defendida?

      Isaac) Da estonteante velocidade a que o lixo circula. É necessário fazer com que a fotografia esteja acima do seu tempo. E este tempo é o tempo em que tudo é reciclável. Reciclar pressupõe a existência de um ciclo de ciclos. Ora, há imagens que têm de estar acima dos ciclos temporais. Eis um perigo a que já fiz referência: o da repetição absoluta. Por outro lado é necessário continuar a reflectir sobre o estatuto da Fotografia enquanto meio de expressão artística, pensar de que modo a Fotografia é útil à sociedade. Por outras palavras, se eu quero, se tu queres, que a Fotografia seja mais do que um meio de entretenimento. Por outro lado, é importante que a Fotografia circule mais em livro e não seja votada ao espaço confinado e elitista da galeria. Dizem que as Utopias acabaram mas eu tenho uma: a de que a Fotografia deve estar na rua como objecto e sujeito de reflexão de que, já que falaste em Szarkovski, ela própria, a Fotografia, e não o seu autor, seja uma imagem-janela.


      Q: Essa metáfora que empregas da “fotografia acima do seu tempo”, em que é se apoia essa visão? Deriva daquilo que vês como uma inundação de imagens sem qualidade?

      Isaac) É a Fotografia que, ao invés de se preocupar com as tendências estéticas dominantes, busca, enquanto processo, libertar-se das suas amarras temporais. Uma Fotografia que fale por si e não pelo ambiente em que vive. Uma Fotografia, que, na vaga incessante de imagens que já não nos afectam, nos possa afectar, e possa, sobretudo afectar, aqueles que a vão ver, daqui a 50, 100, 500 ou 1000 anos…

      Há uma Via Láctea e Galáxias para percorrer, não sei se esse percurso é eterno, não sei o que é a eternidade ou o infinito, mas posso imaginá-los e entender que só com a capacidade humana que é a capacidade de espanto, é que esse percurso pode ser agradável. Não sei se alguma vez o percorrerei, mas gostava de o fazer. Por agora tento apenas não ter medo, o que, bem vistas as coisas, não parece ser má ideia.

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      Christian Chaize, Praias

      Não é bem a imagem habitual que se obtém da praia portuguesa, mas vale a pena vaguear um pouco ao longo destas imagens de Christian Chaize. Uma paisagem que sugere novas formas, encontradas pelo distanciamento e vislumbradas pela meditação, tudo isso conjugado na função social embebida pela população que a habita. Não é bem o amor à primeira vista que se obtém delas, pois ele só virá, se vier, mergulhando em profunidade.

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      Entrevista com Sofia Silva

      A ida aos Encontros da Imagem a Braga deu-me a oportunidade de conhecer pessoalmente artistas e trabalhos muito interessantes, pelo que acabei por convidar alguns deles para mostrar e falar aqui sobre a fotografia que perseguem actualmente. A Sofia Silva é uma das autoras a quem tenho de agradecer a gentileza de ter acedido ao convite formulado.

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      Abp – Nestas 3 séries que apresentas actualmente como teu portfolio, um dos denominadores comuns é a mulher, embora na Haven’s Eyes não consiga identificar concretamente se todas são figuras femininas ou não. Outro dos elementos comuns que me parece existir é também algo de uma energia que é especificamente feminina – embora se encontre presente em ambos os sexos – que se pressente no acto de cuidar, de tratar, de aconchegar. O que é que procuras transmitir com este corpo de trabalho, que ideias estão por detrás dele e de que forma se inscreve nele o universo feminino?

      Sofia Silva – Deixa-me começar por dizer que a série “Haven’s Eyes” está ainda muito no princípio e, não querendo desvendar o rumo que vai tomar, adianto que mais tarde o elemento feminino se evidenciará.

      Quanto a essa especificidade de que falas, acho curioso que a tomes como energia. Não estou certa de que seja isso, nem que seja particular do universo feminino. De qualquer forma, tanto uma como outra série – a Take Away Roots e a Memory’s Architecture – surgem da necessidade de exercitar alguns dilemas com que me debato, que não são particulares de um ou de outro género. Acontece que uma das características do meu trabalho é o uso quase obsessivo de elementos simbólicos que podem não chegar ao receptor, caso eu opte por apresentar o trabalho sem qualquer suporte escrito. Mas voltando à tua interpretação, o que posso acrescentar é que, de facto, na composição, não só pela presença do elemento feminino mas pelos ambientes preparados, é possível subentender uma fragilidade mais característica das mulheres, ou um carrossel de emoções que é comum associarmos à mente feminina. Claro que há depois uma gestualidade que se compreende como indício, resultado da história visual que temos adquirida e que depois eu tento transformar, de forma a acrescentar algo a esse discurso. Acho que o que une o trabalho de algumas autoras não é tanto as temáticas a que se entregam, mas sobretudo a forma como escolhem abordar a sua intimidade, ou melhor, o facto de não haver receio de o fazerem e nisso consigo rever-me.

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      Abp – Em Take Away Roots e Memory’s Architecture és tu quem surge representada nas fotos. Afirmas tratarem-se de questões interiores tuas, portanto são séries que trabalham a identidade e a auto-percepção. De que forma é que a auto-representação contribui para um melhor entendimento acerca dessas dinâmicas e em que medida é que essa representação enriquece o teu trabalho? Faria sentido ser fotografada com outras pessoas?

      Sofia Silva – Não faria sentido nenhum serem outras pessoas. Ao mesmo tempo que encarno o personagem fotografada, lido com esses mesmos dilemas, por isso passo por uma experiência interior que me é necessária para continuar, Tenho de sentir que foi o meu corpo que passou por aquilo senão sinto que fica a faltar qualquer coisa. De qualquer forma, para o espectador, creio que isso não seja decisivo ou particularmente importante para a compreensão do trabalho, muito embora daqui a uns anos possa pensar de forma diferente. Na leitura de portfólios, em Braga, o Marc Vausort disse-me exactamente isso, que se o meu trabalho continuar a seguir esta linha, daqui a uns anos deixarei de ter temáticas separadas porque o cerne do trabalho será essa reflexão sobre mim própria. Não tenho certezas sobre o que está para vir, mas sei que ainda tenho muito a explorar no campo da auto-representação.

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      Abp – Na série Memory’s Architecture, parecem estar em causa um conjunto de impactos derivados da abstinência alcoólica bem como possíveis estratégias para lidar com essa questão. Quando me falas que ao pensar, construir e te fotografares nestas séries, estás a lidar com a essa dinâmica interior, isso faz-me lembrar algo de uma técnica
      terapêutica que se chama psicodrama. Podes falar um pouco sobre como foi a pesquisa para este trabalho e de que forma efectivamente sentes que todo esse percurso à volta da construção da série foi terapêutico para ti?

      Sofia Silva – Como dizes, essa série surge da necessidade de reflectir sobre o álcool, tanto sobre sensações geradas pela sua presença, como sobre a angústia que fica com a ausência e com o desaparecimento de algumas memórias, de noções espacio-temporais. Compreendo que haja uma carga simbólica nesta série que precisa de subtexto, daí os títulos, que podem ajudam a compreender o significado de cada uma das imagens. Mas voltando atrás, o trabalho surge de uma pesquisa que tenho vindo a fazer não na área do psicodrama mas sim da Photo Therapy, sobretudo baseada em textos da Judy Weiser. Comecei a interessar-me pela disciplina depois de conhecer o trabalho da Jo Spence e agora estou no processo de seguir para mestrado e a partir daí aprofundar as teorias relacionadas com a Arte Terapêutica.

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      Abp – Na série Take Away Roots, algumas imagens, mais do que somente cuidar, gesto que aliás já não é pequeno, parecem deixar também transparecer uma fusão com a Terra. O que é que está na base deste trabalho?

      Sofia Silva – Na base deste trabalho está a premissa que lhe dá título – Aquele que não sabe amar planta raízes para levar -, ou seja nasce de um desafio que me coloquei a mim mesma de plantar sementes e de, durante nove meses, cuidar delas da mesma forma que cuidaria de uma relação humana, despendendo o mesmo cuidado, tempo e  atenção. Se elas sobrevivessem, a série seguiria com o cuidado de animais e, mais tarde, com os Homens. Como falhei nesse cuidado, a série termina ao fim desses nove meses, com a destruição das plantas. Essa relação extremada com a terra prende-se com o cuidado que queria experimentar – as plantas foram regadas com diversas substâncias e os elementos simbólicos, como os animais, estão lá pela simbologia das culturas pagãs que lhes está associada, numa última tentativa de salvar as plantações. Ao longo do projecto fui escrevendo uma série de textos sobre o processo mas ainda não decidi se os disponho para acompanhar as imagens. Não quero que isto se torne mais pessoal do que já é, por isso prefiro deixar esse espaço em aberto.

      Abp – Percebendo a atenção e o detalhe que colocas nestes trabalhos é  impossível deixar de notar o quase omnipresente disparador. Como instrumento que marca o início e o fim do registo do momento fotográfico que leitura se pode fazer dessa presença?

      Sofia Silva – Ele é omnipresente, fica é por vezes fora de campo. A presença do cabo disparador surgiu por necessidade e acho que há medida que fui vendo o fio a aparecer nas imagens fui-lhe encontrando outros significados, de tal forma que hoje ele surge mesmo quando não faço auto-retrato, como é o caso destas imagens que dão o mote da série Haven’s Eyes, onde o cabo é o prenúncio do que está para vir, ocupando o meu lugar, enquanto não sou o objecto fotografado. Por outro lado é também uma espécie de “elo imaginário” entre o autor e o espectador e um fio condutor do meu trabalho.

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      Abp – A perspectiva feminista, ou seja as dinâmicas da igualdade, discriminação, violência, mulher-objecto, etc., não aparecem aqui como algo de vincado, embora se possam pressentir…

      Sofia Silva – Vejo-me “obrigada” a simplificar a resposta e dizer que não há, na elaboração do conceito dos meus projectos, nada que se relacione com essa dita perspectiva feminina. Não falo das desigualdades de género, nem dos preconceitos estabelecidos. Acho que essas temáticas surgem quando o espectador se tenta relacionar com as imagens e entender a mensagem, porque são os preconceitos mais imediatos e como eu também não tento conduzir a leitura para nenhum lugar especifico, por vezes corro o risco de deixar que as ideias que dão origem às fotografias caiam num lugar comum. Acho que o tempo de vida de um trabalho e o percurso de trabalho de um autor permitem que essas pequenas discrepâncias de linguagem se dissipem.

      Abp – Existe uma questão interessante e que focas aqui, que é a de não conduzir a análise que é feita pelo espectador. Achas que é importante que de algum modo quem vê se sinta responsabilizado por aquilo que vê, construindo o seu próprio significado, numa perspectiva que creio terá sido frisada por Jean Marc Bustamante e que é fala sobre a não-directividade do fotógrafo para o espectador? Por outro lado a recusa em produzir um “statement” ou fornecer alguma forma de explicação não pode conduzir ao naufrágio do trabalho pela especulação de sentidos indesejados feita por terceiros?

      Sofia Silva – Não diria responsabilizado, diria consciente, ou seja, penso que seria importante que o espectador tomasse consciência de que a leitura é fruto da sua educação, cultura e livre associação e de que a interpretação superficial de um conjunto de imagens não é suficiente para tecer uma opinião generalizada sobre a obra de um autor. Enquanto espectadora esforço-me para ser consciente e informada, para evitar fazer esses tais julgamentos superficiais, porque acredito que grande parte dos autores cria porque tem algo a dizer. Mas isto sou eu… e tenho noção de que faço esse esforço de compreensão porque era o que gostava que fizessem com o meu trabalho. Agora, de facto, enquanto fotógrafos, temos o queijo e a faca na mão, que é como quem diz, temos o código semiótico e linguístico à nossa disposição e podemos orientar o espectador na direcção que quisermos. Eu gosto de deixar as imagens falar per si. Não me parece que se afundem sem uma explicação e se isso acontece é porque o trabalho falhou. Não podemos chegar a todos, nem exigir que as pessoas se demorem no contacto com as imagens, contudo tenho de admitir que sou particularmente susceptível a determinadas ilações, como por exemplo a de que o propósito do meu trabalho seja chocar. Que fique claro que não é, mas não sinto que tenha de me justificar.

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      Abp - A fotografia tem que explicar algo ou ainda conter uma mensagem específica?

      Sofia Silva – Sinceramente não acho que tenha ou que deva explicar nada. No meu caso, a fotografia tem imperativamente que ter significado, que passar uma mensagem, que ter um paralelo no campo emocional. Mas em geral, toda a imagem pode ter isto, mesmo a mais abstracta, exactamente porque o espectador é livre de acrescentar significados e outras camadas às que já lá estão. Acho que há espaço para tudo e não gosto de dogmas teóricos.

      Abp - John Szarkowski produziu uma afirmação que provavelmente ainda hoje ressoa no mundo da fotografia em que falava sobre a fotografia-janela, sobre o mundo, e a fotografia-espelho sobre o universo mais pessoal e que claramente preferia a primeira à segunda. Não sei se se estaria a referir a uma certa sobre-abundância de imagens em que dominava uma certa poética interior bastante em voga nos anos 50 e 60. A avaliar pelo que pode ser visto nos Encontros da Imagem em Braga, é uma tendência que parece estar de novo em protagonismo, o que te parece?

      Sofia Silva – Não foi só uma afirmação, foi uma teoria reproduzida em catálogo a propósito de uma exposição que comissariou, mas não consigo fazer uma interpretação sucinta porque seria limitativa. De qualquer forma, a fotografia contemporânea está de facto a ser pautada por esse carácter introspectivo, intimista, umas vezes melancólico e/ou nostálgico, outras crítico e/ou humorístico. Como os Encontros da Imagem deste ano se centraram no trabalho de autoras, essas paisagens domésticas podem-se ter evidenciado, mas a mulher, fotógrafa ou criativa em geral, tem sempre procurado reflectir sobre a dinâmica do corpo, sobre as fronteiras entre o que é superficial e o segredo presente na nossa intimidade. Por um lado cativa-me a forma como a Nan Goldin se nos oferece sem filtros, ou o poder que a fotografia ganha nas mãos da Jo Spence; por outro lado gosto de encenação, de revisitar as histórias em jeito de alegoria. O que não gosto é de imagens ocas, de histórias de camas com lençóis por lavar ou do imediatismo de alguma fotografia documental. De qualquer forma, a contemporaneidade fotográfica tem cada vez menos gavetas e disso gosto bastante.

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      Abp –
      E falando em Braga, perante o universo com que trabalhas actualmente, que pode ser identificado com muita da fotografia por lá exposta este ano, o que achaste das exposições?

      Sofia Silva – Não vi nenhuma, fui e vim no mesmo dia e o tempo livre que tive passei-o com os colegas a falar de fotografia. Gostava de ter visto a da Anna Kannisto, mas foi mais importante o convívio.

      Abp – Para terminarmos, que pensas da produção fotográfica contemporânea em Portugal?

      Sofia Silva – Essa era a pergunta que tinha medo que fizesses… Estou claramento no gozo, mas não querendo ferir susceptibilidades, acho que por muito bem encaminhada que esteja, continua muito direccionada, e prefiro não aprofundar o assunto. De qualquer forma, sou completamente fã de alguns autores portugueses, como o Jorge Molder, a Brígida Mendes ou o Paiva e o Gusmão. Da nova geração de fotógrafos, os ditos emergentes, acho muito interessante o trabalho da Dalila Gonçalves e estou sempre curiosa para ver o que ela faz.

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      Entrevista com João Paulo Barrinha

      Desafiei o João Paulo Barrinha para um conjunto de perguntas sobre o seu trabalho, e embora inicialmente se tenha furtado, convenci-o com o argumento (in)falível de que eram perguntas simples, para um artigo que ninguém leria. Embora se possa pensar que está em causa a seriedade do acto, tal tese é já em seguida contrariada…

      1) Não sei se nasce fotógrafo, mas partindo daí quando nasceu o fotógrafo que há em ti e em que fase se
      encontra actualmente.

      De uma forma indirecta, desde criança que tenho contacto com processos
      fotográficos. O meu pai era fotógrafo amador,  e tínhamos em casa duas câmaras fotográficas, o que,
      naquele tempo, não era vulgar.  Embora o meu pai, pouco mais fizesse com a fotografia que, os agora vulgaríssimos registos familiares, o facto de ter um conhecimento técnico na área, acima da média (também devido ao facto de ser, na época, técnico de Raios X) proporcionava, por vezes, algumas conversas relativas ao assunto. Mas, que me lembre, o primeiro verdadeiro click  deu-se aos 18 anos, quando vi uma câmara fotográfica usada à venda numa montra. Eu e o meu irmão, tínhamos umas poupanças guardadas de um trabalho de verão, pedimos conselho ao nosso pai, e lá comprámos a Pentax Spotmatic II, que o meu irmão ainda possui. Logo de seguida, comprámos um livro didáctico destinado a principiantes, e lá começámos a experimentar todos os exercícios propostos.

      De há três-quatro anos para cá, e após diversas fases, entre o passar por ser repórter fotográfico, por formação técnica e artística, e por longos períodos em que as câmaras ficaram na gaveta, ressurgiu em mim, um novo olhar. Sinto esta fase, quase como que um renascimento fotográfico. Onde vou buscar influências das primeiras e pouco amadurecidas experiências de cariz artístico, explorando-as agora com maior maturidade psicológica e conceptual, ao mesmo tempo que faço uma espécie de síntese de todas as anteriores fases por que passei no meu percurso fotográfico.

      2) Sendo sempre complicado e quiçá redutor atribuir um significado específico a um trabalho, existe contudo a questão da escolha, porque é que o artista acha que é significativo aquilo que mostra. Nestas duas séries que apresentas, o que tem elas de significativo para ti?

      Estas duas séries são, numa primeira leitura, um retrato irónico de uma sociedade de consumo. De uma sociedade que, não só consome os recursos naturais, mas acima de tudo, se consome a si própria. Traço de forma caricatural, uma certa ideia de decadência, (ou de permanência num determinado status quo, como se quiser interpretar) mas uma decadência que parte de cada um em particular, para o todo, para a sociedade. São imagens de carácter existêncialista. Retratos de um certo estado de caos, um caos interior, mas em permanente ordenação.No fundo, pretendo falar da forma como a nossa mente funciona. Numa permanente e sempre incompleta organização do nosso caos, o caos dos nossos sentimentos, das nossas angustias e “excentricidades”… Sempre em permanente procura por algo a que chamamos “racionalidade”. Nesse processo, falo de mim, mas acima de tudo, tento falar dessa condição que é ser-se humano.

      3) Decadência, autofagia, desorientação generalizada, termos que frequentemente se podem encontrar numa avaliação mediatizada da realidade. É a tua opinião pessoal ou uma critica à forma como os media colocam as questões e inclusivamente criam os factos? Esse existencialismo não te parece também um dos fundadores desta atitude contemporânea que descreves, ao dedicar toda a primazia ao homem e nada a Deus (ao espírito)?

      Ora ai está uma pergunta difícil… Se eu soubesse responder a ela, não precisava de fotografar. Porque não me interrogava tanto, e não me interrogando, não procurava as respostas que procuro através da fotografia. Quando uso o termo “existencialista”, não me refiro ao existencialismo enquanto corrente filosófica, mas sim, à condição de existir, enquanto Homem.Nessa condição, evidentemente que teremos que dar atenção ao nosso lado espiritual… Perguntar-me-ás se damos? Bom, quanto a isso, eu penso que, muitos de nós o arruma numa gavetinha que se chama “religião”, aquela coisa que aprende quando é criança, e não se preocupa mais com o assunto. Claro está, que isso depois dá asneira… Algo que não é bem “arrumado”, será sempre um problema para o verdadeiro “caminhar”, porque estaremos sempre a “tropeçar”… Mas essa seria uma conversa mais apropriada para um qualquer Guru Espiritual… Eu não sei, nem pretendo, apresentar soluções para a Humanidade. Se conseguir compreender-me e compreender o mundo que me rodeia, já me dou por muito feliz.Quanto aos media… De facto, os media “constroem” o nosso mundo.  Eles são responsáveis (ou deviam sê-lo) pelos nossos conceitos. Por vezes, (talvez vezes demais) recriam, teatralizam, inventam até, uma realidade. Mas dizer que a culpa dos nossos conceitos, do facto da nossa racionalidade andar baralhada (ou irracional) é dos media,  seria o mesmo que dizer que a culpa pelo facto de batermos com a cabeça num poste de iluminação, é do Governo, que o mandou colocar lá… Temos que ser atentos, ser críticos! Aquilo a que chamamos realidade, sempre foi, e sempre será, uma criação produzida pelos mais diversos meios. Nesta era moderna, são os media os principais responsáveis pela difusão dessa criação. Mas na antiguidade, quando estes media não existiam, a criação e difusão de falsas realidades também existia…
      4) Ambas as séries que enviaste fazem-me lembrar algo de Duane Michals, não só no seu desejo de exprimir o que é internamente humano, mas também nas estratégias de representação que utiliza relatando as limitações da fotografia através da criação de sequências de imagens, narrativas, utilizando texto, etc. Estás de acordo?

      Há, evidentemente, afinidades entre algum do meu trabalho e o do Duane Michals. Mas também as há, relativamente à obra do Robert Frank, e do Wiliam Klein. Na verdade, julgo saber que foram estes dois autores, que iniciaram esta linha de abordagem à imagem fotográfica, tendo, a partir daí, surgido imensos outros autores a explorá-la. Normalmente não me preocupo muito com essa questão de saber com quem ou com o quê, o meu trabalho tem afinidades. Ele tem que ter, primeiramente, afinidades comigo. Tem de ser verdadeiro para mim, e não ser algo que eu faça porque vi em algum lado e achei piada. A partir daí, se encontrar outros trabalhos que coincidam com a exploração que ando a fazer, fico contente. Para mim, isso quer dizer que sou humano. E como tal, penso como um humano pode pensar.

      Na verdade, da primeira vez que me ocorreu juntar várias imagens  num único painel semelhante a um puzzle, não conhecia devidamente a obra do Robert Frank, e nessa linha, o que melhor conhecia eram as polaroids do David Hockney
      http://www.autrynationalcenter.org/yosemite/hockney.php?height=480&width=530 Mas não me identificava, naquela época, com aquele género de exploração da imagem… Para mim, uma imagem fotográfica, era, (e ainda é um pouco) algo que teria que ser produzido e completado dentro de um determinado espaço, o espaço do negativo ou do papel fotográfico que a delimita. Ora, o David Hockney, fazia continuar as imagens, apenas porque o assunto que elas registam continua, sendo que, nenhuma das imagens em separado, poderá “viver” por si. Mas as minhas podem. E o que continua nas minhas imagens, não é a realidade, mas a imaginação…

      5) A estrutura em ‘grelha’ quase omnipresente nos teus últimos trabalhos, é frequentemente vista como uma das imagens de marca do Conceptualismo? Corroboras?

      Estrutura de grelha? Referes-te ao facto de agrupar diversas imagens num mesmo painel? Se assim é, de facto, essa técnica de apresentação tem sido muito usada em diversas áreas das artes visuais, quando as respectivas obras têm um carácter conceptual. Esta multiplicação (ou partição) da obra por vários quadros (chamemos-lhe assim) serve um dos princípios do conceptualismo, que postula que a arte não tem que ter necessariamente uma base material, ou seja, não é o objecto que é arte, mas a ideia que dele advém. No caso das obras assim fraccionadas, essa ideia está então bem presente, já que não se pode afirmar que um ou outro objecto (quadro ou o que for) é uma peça de arte, mas é antes, o conjunto exposto que faz a obra. Conjunto esse, que pode ser uma simples colecção de objectos industriais, dispostos segundo uma determinada ordem, sendo que estará nessa disposição, encerrada a ideia da obra. Uma vez desfeita essa “ordem”, desfaz-se também a ideia, e consequentemente, a obra, voltando os objectos a ser simples objectos. No caso dos meus trabalhos, embora possam ser de inspiração conceptual uma vez que recorro igualmente a agrupamentos de imagens com o mesmo fim de as relativizar (mas não só por isso), não posso afirmar que se tratem de obras conceptuais, no sentido puro do conceptualismo. Na verdade, eu costumo trabalhar nos meios termos, naquelas linhas de fronteira entre diversas formas de expressão e diversos conceitos.

      Neste caso, se pretendo, de facto, retirar alguma materialidade à imagem fotográfica, recorrendo
      a essas “grelhas”, por outro, quando em exposição, tenho até agora apresentado a grelha como sendo uma única impressão fotográfica. Portanto, uma única imagem composta ou montada. Mas uma montagem, onde as imagens não são, nem recortadas de alguns elementos, nem sobrepostas
      em cima umas das outras. Antes, são apenas montadas lado a lado e as suas áreas são respeitadas o mais possível. Ou seja, se faço, aqui e ali, um ou outro reenquadramento, eles são sempre mínimos, sendo que, a maioria das imagens que uso nessas composições, não sofre qualquer corte.

      Portanto, a imaterialidade não é apresentada pela fragmentação física da obra. No entanto, quando componho assim as imagens, tenho algumas regras a cumprir… No caso das séries a que te referes, procurei encontrar linhas de continuidade entre imagens, de modo a levar o espectador a ter a
      sensação de que uma determinada imagem que faça parte da composição, se prolongue pela outra que lhe está próxima. Então, devido à tendência da percepção humana em unir linhas e pontos,
      de forma a construir uma imagem, pretendo que o espectador vislumbre uma só imagem, que será composta pelo conjunto das imagens que compõem o painel ou puzzle. No entanto, uma vez que a continuidade das linhas nunca é perfeita, essa imagem nunca se concretiza, permanecendo sempre
      a meio caminho entre o material e o imaterial. Ou seja, mantém-se como imagem imaginária, porque apenas se vislumbra na imaginação de quem vê a grelha completa de um só relance.

      É então, este conceito de imagem imaginária, que, ao nível conceptual, pretendo explorar nessas duas séries, sendo que numa delas, ele é mais evidente que na outra.Mas, qualquer das imagens separadas desta grelha, são imagens por si mesmas. E embora umas mais fortes que outras, todas elas foram realizadas como imagens únicas. Isto conduz-nos a outra ideia, a ideia de estrutura composta por elementos independentes. Como exemplos de estruturas assim compostas, temos muitas coisas que nos rodeiam no nosso dia-a-dia… Desde um simples automóvel, que será composto de peças que o são só por si, e que poderiam “migrar” para um outro automóvel semelhante (mas não necessariamente da mesma marca) e aí funcionar… Podemos ver cada imagem em separado como uma nota ou frase musical, e o painel como a composição completa… Ou, como eu prefiro, podemos ver cada imagem como uma célula (microorganismo unicelular) de um multicelular organismo/imagem, sempre em mutação.

      6) Vi também noutros projectos teus, aquilo que parece ser uma certa uma subversão da noção de linearidade temporal. Embora talvez não tão presente nestes dois, porque é que isso é importante para ti?

      A subversão da linha temporal, é um outro recurso que tenho usado diversas vezes, para criar as tais “imagens imaginárias”… Nesse caso, não será através de linhas condutoras que o observador imaginará uma imagem materialmente inexistente, mas através do “engano” quanto à sequência temporal que dou às sequências…Chamo-lhe “engano” (entre aspas) porque, por um lado, o espectador desprevenido não se apercebe que estará a ser induzido a “ver” algo que, realmente, não aconteceu. Ou, pelo menos, não aconteceu exactamente daquela forma… Por outro, o espectador mais atento pode aperceber-se disso, uma vez que é comum eu explicar o facto dessa manipulação estar presente. Mas como os espectadores distraídos estão em esmagadora maioria, o engano acaba por resultar de forma efectiva, e nesses casos, a imagem imaginária torna-se na ilusão (quase) perfeita.

      A importância que isso tem para mim… Por um lado, e tal como no caso anterior, esta é uma forma de questionar o realismo da fotografia. Por outro, é uma forma de ter poder sobre o tempo, enquanto que a outra, será uma forma de ter poder sobre o espaço. No fundo, todos nós gostaríamos de ser um pouco Deuses… Talvez seja por isso, que a arte existe…

      7) A um fotógrafo pode-se perguntar o que anda a ver?

      Perguntar, penso que pode… Só que, não sei se poderei responder de forma muito concreta, uma vez que ando a ver o que calha…Digamos que, ultimamente, vi essencialmente fotografia  contemporânea. E por vezes, alguma fotografia antiga. Dentro da fotografia contemporânea, vi recentemente algumas  Exposições dos Encontros da Imagem, em Braga, porque passei por lá devido a outros motivos e não quis deixar de espreitar em algumas galerias. Tive pena de não ter podido ver mais…  O tema deste ano, “fronteiras do género”, explorou em exclusivo o “olhar” no feminino. Assim, foram convidadas apenas autoras (mulheres) para expor…Não sei se o “olhar feminino”, será muito diferente do “olhar masculino”… Alguns olhares serão certamente, outros nem tanto… De qualquer forma, (é pena) não consegui ver exposições suficientes para fazer essa estatística. Mas, num rápido desfolhar do catálogo (que não é, nunca, a mesma coisa) encontra-se uma grande
      incidência de temas intimistas e/ou existencialistas, como por exemplo família, relações de amizade, ou a relação com o corpo.

      Das exposições que vi, ficou-me mais na memória a da São Trindade, com o seu enigmático calendário em que os dias da semana, inscritos em francês, aparecem (não na ordem correcta) por baixo de imagens de umas pernas femininas vestidas com meias de licra. As meias vão-se rasgando, mas também, não necessariamente em sintonia com o passar do tempo… Um pequeno texto, que acompanhava as imagens, rezava assim: “Naquele dia, o Senhor fará desaparecer todos os adornos: os adornos dos pés, os colares em forma de sol e de lua (…) E então, em vez de perfume haverá mau cheiro; e em vez de cinta uma corda (…) em vez de beleza, uma horrível cicatriz. (Is 13,18 – 24) “São imagens muito fortes. Tanto as que se poderiam ver na parede, como as que imaginamos ao ler a passagem ali colocada (que presumo ser Bíblica) .

      Relativamente à fotografia antiga, fui ver a exposição “arquivo Fotográfico”, no CCB. Trata-se
      de um poderoso (e imenso) arquivo de imagens dos mais variados géneros, que, no seu conjunto, nos fala da forma como a fotografia tem vindo a ser usada pelas mais diversas correntes, desde
      filosóficas, económicas ou políticas (a parte da fotografia russa está extremamente bem  documentada) tanto para serviço, como para manipulação das sociedades e da história.

      8.) Existe algo de especificamente português na tua fotografia? Que te parece a produção contemporânea portuguesa?

      Não, de exclusivamente Português, penso que não. A não ser que consideremos um certa atracção (quase romântica) pelo antigo, pelo abandonado, como uma manifestação da nosso tão  característico saudosismo… Mas não acredito que o sentimento de saudade seja exclusivo Português, embora apenas nós tenhamos inventado uma palavra para definir exclusivamente esse sentimento. Essencialmente, penso que há algo de humano na minha fotografia. De humano, porque sou humano. Sinto e penso como humano. E nas minhas imagens, falo muito do ser humano e de alguns dos seus conflitos interiores.

      Quanto à produção contemporânea Portuguesa… Penso que estamos finalmente a começar a acordar para a fotografia. Tardiamente, como em (quase) tudo, mas mesmo assim, estamos melhor agora que há 10 anos, quando pura e simplesmente, não se vendia fotografia nas galerias. Isto claro, com as devidas excepções para, por exemplo, a Helena Almeida, o Jorge Molder, e talvez apenas, mais meia dúzia de autores. No entanto, esta evolução não tem só o lado positivo… Tal como noutras situações, estamos também a “importar” olhares… O “olhar frio”, de influência Alemã, é talvez o maior exemplo disso.  Sinónimo de modernidade? Talvez, mas a palavra modernidade (agora na nova versão “pós-moderna”) não pode ser confundida com normalização…

      9) E para terminar, uma daquelas perguntas típicas dos questionários de Verão, que só não se aplica na totalidade porque estamos na Primavera… Quem seria o casal perfeito da fotografia?

      Bom, a avaliar pelo calor que fez hoje, dir-se-ia melhor, primavera/verão. Assim, a pergunta ficaria também mais condizente com a “moda”… E por falar em modas, penso que o casal perfeito já existe: é o casal Becher. (Não confundir com o casal Beckham, esses mais ligados ao cinema). Os Becher, professores de fotografia na Alemanha nos anos 80, foram os iniciadores de uma das maiores, se não mesmo a maior, moda da fotografia contemporânea. Devido a eles, institucionalizou-se chamar a essa moda, de Escola Alemã, ou Escola de Dusseldorf, quando, na opinião de Sérgio Mah, um dos mais conceituados (se não mesmo, o mais conceituado) curadores/teóricos da fotografia Portugueses, não existe Escola Alemã. Ainda segundo Sérgio Mah, o que aconteceu foi somente que,
      um grupo de ex-alunos deste casal ganhou prestígio e fama seguindo as suas ideias relativamente à fotografia. Essas ideias e alguns dos seus temas “fetiche”, (indústria e urbanismo), aliadas a impressões fotográficas de formatos gigantesco, transformaram-se numa moda por todo o mundo, e que, como refiro na minha anterior resposta, em Portugal está para durar. Pelo menos, a julgar por algumas das propostas apresentadas este ano no BesPhoto…

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      Le Journal de la Maison


      © Inês Abreu e Silva, da série Maria Eugénia

      Le Journal de la Maison é uma galeria virtual de um colectivo de jovens fotógrafos portugueses Ana Gandum, Hugo Rodrigues Cunha, Inês Abreu e Silva, Rosa Diniz, Claudia Cardoso, Mrmito e se não estou em erro, os três primeiros estiveram também na iniciativa Emergentes dos Encontros da Imagem em Braga. Embora infelizmente não tenha tido a oportunidade de os lá conhecer pessoalmente, é um prazer observar a qualidade de algum do trabalho com que nos brindam. A ver, Le Journal de la Maison.

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      blogroll nacional

      portfolio_sofia-silva_15-copy
      © Sofia Silva, Fiber Organic Memory, from the series Memory’s Architecture, 2009 (work in progress)

      Sigo o Nihilsentimentalgia há já algum tempo, mas até à recente mudança de endereço desse blog não me tinha apercebido que se tratava de “produto nacional”, derivado do labor de Sofia Silva, amiúde com excelentes propostas fotográficas e uma extensa lista de links, alguns dos quais desconhecia e que após leitura, percebi contribuirem valiosamente para o conhecimento sobre fotografia na blogosfera nacional, casos de sais de prata e pixels e de take a picture it lasts longer. Vale a pena espreitar!

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      entrevista com cátia aguiam

      Cruzei-me com este trabalho de Cátia Aguiam na última Bienal de Vila Franca, em Novembro passado, acontecimento sobre o qual escrevi neste  post, tendo surgido a oportunidade de uma pequena entrevista com a autora, abaixo reproduzida.

      ABP – Começo por desfazer o equívoco de ter pensado que este trabalho que apresentaste na Bienal de Vila Franca  estaria a concurso, pois não notei que se tratavam apenas de 4 imagens quando o regulamento pedia 6 para poder concorrer aos prémios. Como é que surgiu o convite para lá expôres?

      CA – Este trabalho – Família – faz parte do meu projecto de final de curso na ETIC, na área de fotografia criativa. Na altura da apresentação do trabalho ao júri convidado, a escola decidiu que seria eu a representá-la na Bienal de Vila Franca de Xira, como aluna do ensino profissional. Para mim foi um privilégio que funcionou também como um incentivo a continuar com estes tipos de projectos. Foi também importante porque deu um pouco de visibilidade ao que faço.

      1

      ABP – Como é que surgiram estas imagens?

      CA -Explicar como é que uma ideia surge nunca é fácil para mim, mas vou tentar! Não posso negar que o que faço, o resultado final, tem algo de mim, no sentido  e na forma como observo, absorvo e penso o que me rodeia. Assim sendo, não posso dizer que estas imagens surgiram de uma só ideia, mas sim de várias! O que posso afirmar é que me inspirei em anúncios televisivos diversos, desde cervejas, detergentes, óleos de cozinha, carros, telenovela, o canal MTV, etc. É a partir do conjunto dessas influências que nasce o pensamento crítico que  é transmitido nesta série “Família”, pois para mim, os anúncios publicitários são veículos que reflectem muito bem a nossa sociedade. Quanto ao processo criativo propriamente dito, após um primeiro período de observação e pesquisa, nasce a vontade de partilhar ou expulsar o que vai cá dentro, mas que ainda não tem por vezes uma forma concreta!  Por exemplo, as máscaras e as situações encenadas foram modos descobertos à posteriori para transmitir as idéias!

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      ABP – Nota-se trabalho de “produção” a vários níveis, conta-nos um pouco da feitura das imagens.

      CA – De um modo prático, a maior dificuldade na realização das imagens foi pela tentativa em me aproximar o mais possível ao que imaginei nos momentos de criação. Nessa tentativa de mostrar os pormenores, nem sempre  consegui operacionalizar tudo, porque houve imagens que surgiram na minha cabeça  totalmente completas e detalhadas, mas que depois por factores vários não foi possível realizar do modo imaginado! Quando isso não aconteceu, tentei encontrar a pessoa que melhor se adequasse à personagem e encontrar espaços viáveis. Por exemplo, a imagem na piscina, eu queria transmitir a competitividade feminina, tinha idealizado a situação numa piscina de competição, mas como houve autorizações que estavam a tardar muito em sair e outras que nunca  cheguei sequer a obter resposta, tive que procurar alternativas, acabando por encontrar a piscina que utilizei e assim, adaptar toda a ideia a um novo espaço. Ou seja a maior dificuldade foi fazer com que tudo o que foi pensado se tornasse realidade, sem fugir à ideia inicial!

      Desta forma, esforcei-me para que a iluminação, guarda roupa, adereços, cor e personagens estivessem todos em concordância, sendo que a única coisa que não tive a possibilidade de fazer foram as máscaras das partes do corpo. De resto, todos os elementos foram por mim tratados e compostos,  tendo surgido como resultado do que aprendi nos últimos três anos do curso que frequentei na ETIC, parte técnica e comunicação visual, bem como das minhas experiências pessoais!

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      ABP – Já acabaste o curso, tens conseguido viver da fotografia?

      Ao que parece essa é que é afinal a parte mais difícil! Na verdade, ainda não tive muito tempo para me organizar na procura de trabalho. Primeiro, porque após o terminus do curso, fui convidada a participar no projecto Leonardo Da Vinci, que me possibilitou ter estado os últimos meses do ano em Málaga em estágio. Até ao momento, os currículos e portfolios enviados na área de publicidade e moda, não obtiveram uma resposta totalmente positiva para mim. Deste modo, vou colaborando numa empresa familiar na área de reportagens, www.gloriaguiam.com.

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      Entrevista com Hernâni Faustino

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      Existe em Portugal um conjunto de autores, que além da expressão artistica pela qual são vulgarmente conhecidos utilizam outras vias de expressão, nomeadamente a fotografia, que de algum modo exploram em paralelo aos seus trabalhos principais. Hernâni Faustino é o primeiro nesta série de entrevistas a ser indagado acerca das possiveís conexões e motivações destes cruzamentos de linguagens, no caso entre a música e a fotografia. Trata-se de um profundo conhecedor do Jazz, sócio fundador da loja de jazz Trem Azul, com ligações naquela que é também a editora portuguesa com maior protagonismo na cena jazz internacional, a Clean Feed. A nível musical surge-nos na faceta de contrabaixista ligado ao jazz de improvisação, mas ultimamente tem-nos revelado uma outra faceta, a de fotógrafo. É comum na linguagem jazzística sobretudo mais ligada às correntes Bop (bebop, neobop, hardbop, freebop, etc) a noção de “respeito” pela tradição, situação que não parece tão visível nos músicos mais ligados ao movimento free improv que por vezes nem sequer se identificam como músicos de jazz. Sublinho essa noção, não pela necessidade de catalogação da fotografia aqui apresentada, mas porque pese embora  as influências fotográficas citadas, em nenhuma delas parece a fotografia de Hernâni Faustino assentar de modo claro ou definitivo, provavelmente devido a essa aitude do “quebrar de regras”, de expressão criativa mais livre ou até abstracta, quiçá herdada ou conotada também com o movimento de improvisação no jazz, no qual Hernâni Faustino tem vindo a cultivar alguma da sua música.

      ABP- Hernâni, tenho vindo a acompanhar alguma coisa do teu trabalho fotográfico embora ainda não tenha tido o prazer de ouvir o teu projecto musical, brecha essa que espero colmatar em breve. Fala-nos um pouco da origem da tua veia fotográfica.

      HF – É uma origem muito intuitiva! O meu interesse pela fotografia surgiu por volta dos 14 anos quando recebi a minha primeira máquina, uma Kodak Instamatic, era uma máquina muito simples, mas fez nascer em mim um grande interesse pela fotografia. Anos mais tarde comecei a usar a minha primeira reflex, uma Zenit-e , uma máquina fabricada na ex-União Soviética totalmente manual, que me permitiu explorar e aprender (à custa de muitos rolos estragados é certo) trabalhar tempos de exposição, profundidade de campo, focagem, etc. Com esta máquina que ainda possuo, comecei a estar a par das imensas possibilidades das objectivas.

      ABP- Que autores ou correntes da fotografia te influenciam ou influenciaram?

      HF – Acho fascinante as primeiras imagens e toda aquela envolvência misteriosa que as rodeia. Gosto imenso de Edward J. Steichen, Alfred Stieglitz, William N. Jennings, Paul Strand, André Kertész, Lee Friedlander e muitos outros. Penso que de uma certa forma sou influenciado pelas mais variadas correntes e autores, embora não goste de os catalogar. Confesso que tenho um certo fascínio por longos tempos de exposição e imagens difusas….gosto muito do trabalho da Francesca Woodman, Miroslav Tichý, Paulo Nozolino, Jorge Molder e da Helena Almeida, ou das concepções do Saudek, e acho espantoso o trabalho conceptual dos fotógrafos Robert and Shana ParkeHarrison e do Joel-Peter Witkin.

      ABP- Mistura o teu jazz e a tua fotografia, o que sai?

      HF – Para mim o jazz é improvisação. A relação entre a minha música e a fotografia é completamente intuitiva, ou seja não determino ou estabeleço regras para conseguir uma determinada imagem, embora seja um pouco difícil fazer esta analogia. Mas provavelmente ficará mais visível uma parte de mim através destas duas formas de arte…desenhos com luz e som.

      ABP- Que paralelos encontras entre estas duas formas de expressão?

      HF – Encontro vários paralelos!Como forma de arte as abordagens são diferentes, embora eu veja nelas algumas semelhanças. Eu sou um improvisador! A música que eu toco é na grande maioria das vezes improvisada, sem rede, quanto muito poderão existir pequenas estruturas ou por vezes pequenos motivos que são desenvolvidos na improvisação. As minhas fotos seguem o mesmo princípio, são intuitivas, nunca sei muito bem o que vai acontecer, gosto de improvisar com a máquina fotográfica, correr riscos, explorar a velocidade, congelamentos, excessos de luz…enfim acho que de uma forma muito pessoal encontro muitos paralelos entre a minha fotografia e a minha música.

      ABP- Fala-nos agora um pouco do teu trio RED, sei que gravaram há pouco.

      HF – Estou muito contente com o trabalho desenvolvido com o RED trio. O grupo tem um ano de existência e durante este período demos alguns concertos e o projecto ganhou uma linguagem própria e uma consistência e coerência como grupo. Conseguimos encontrar uma unidade no nosso som e isso é fantástico. O pianista Rodrigo Pinheiro e o baterista Gabriel Ferrandini são músicos com imensas qualidades e antes do mais são excelentes pessoas. Estivemos durante 3 dias em Julho no Fundão, no auditório da Moagem a gravar o nosso primeiro disco. Foi um processo descontraído e gravamos sem qualquer tipo de pressão, o que é excelente.

      ABP- Tens também participado noutros projectos musicais…

      HF – Habitualmente toco na Viariable Geometry Orchestra dirigida pelo violista Ernesto Rodrigues. Durante este ano gravei dois discos para a editora Creative Sources, um deles acabou de ser editado, é uma composição para string trio + doublebass do compositor alemão Nikolaus Gersewski, intitulado Ordinary Music vol. 3, o outro foi com o guitarrista escocês Neil Davidson, Ernesto Rodrigues e o Guilherme Rodrigues, este deverá ser editado na primavera de 2009. Estes projectos musicais são particularmente interessantes para mim, uma vez que a música percorre sonoridades bem distantes do que habitualmente se ouve na improvisação convencional. Toquei a convite do Rafel Toral no seu Space Trio.

      Colaboro também com o octeto A Parte Maldita, com os músicos António Chaparreiro, Nuno Rebelo, Rui Alves, Fernando Fadigas, Miguel Sá, Abdul Moimeme e Jorge Serigado. No final do ano tive o previlégio de tocar na festa de aniversário dos 60 anos do Carlos Zíngaro e de tocar em trio com o Vítor Rua.

      ABP- Projectos futuros para as tuas artes?

      Como sabes sou um fotógrafo amador. Não tenho grandes preocupações nem pretensões com a minha fotografia, espero continuar a fotografar e talvez um dia poder expor algumas delas. Em relação ao futuro, espero evoluir cada vez mais de forma natural e sem grandes preocupações técnicas, pois acho que se aprende muito com os erros. Espero melhorar um factor que para mim é determinante na fotografia: a sensibilidade e o nível artístico. Continuar a trabalhar com o RED Trio e poder colaborar em alguns dos projectos que estou envolvido. Espero poder tocar com músicos interessantes e evoluir mais como músico. Como fotógrafo, espero consolidar o meu trabalho e poder acrescentar algo de pessoal nesta forma de arte cada vez mais global. Gostaria de fazer uma exposição de fotografia em 2009.

      Música ::::::::: www.myspace.com/hernanifaustino

      Fotografia ::::: www.olhares.com/Costeira

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