Wednesday, April 28, 2010
O fotógrafo Marco Anelli retratou pessoas durante o momento em que “assistiam” à performance patente no MOMA de Nova Iorque “O artista está presente“. Marina Abramovic está sentada numa cadeira, durante 7 horas por dia, 5 dias por semana, em que à sua frente sucessivamente se vão sentando os espectadores, consistindo a performance justamente nesse momento de encontro, silencioso, durante o tempo que cada visitante entender.
Mas este texto não é sobre esse acto, sem dúvida riquíssimo, do ponto de vista artístico e humano. Na escolha desta galeria de Marco Anelli desta fotografia do Lou Reed para ilustrar o post, não é propósito chamar a atenção para as vedetas que frequentam estas actividades, ou lateralmente para o carácter mediático da performance e respectivo conteúdo. Ainda assim foi escolhida por se tratar de alguém cujo rosto é amplamente conhecido (pelo menos na minha geração), e porque a fotografia deste tipo de personagens tende a facilitar uma mecanismo de transferência, que parece desaguar em idolatria, seguidismo, adoração, etc. Poder-se-á falar da fotografia como um dos veículos que propagam este sentido de que a imagem do Eu é igual ao Eu?
A sociedade ocidental contemporânea parece marcada por uma desequilibrante desapropriação da noção de Eu real, em favor de uma qualquer imagem fornecida pelo ego, compulsivamente alimentada pelos mass media e pelo consumo, transcrevendo John Berger “a publicidade tira-nos a auto-estima, mas a compra devolve-no-la“. A fotografia tem um quota parte de responsabilidade, pois parte desta energia parece ter sido criada por uma política de representação enganosa, virada para a mostra do ser humano como produto. Se a representação já é em si uma imagem, um facsimile, uma simulação, o mecanismo que induz a possibilidade de se “ser” manifesta uma hiperbolização dessa falsidade. Mas o mais longe que se pode chegar na cópia dos modelos é ao “parecer ser”, nunca ao “ser”, conduzindo a um distanciamento do Eu real por virtude do protagonismo de um Eu imaginado. Poderá contudo essa essência do ser estar representada numa imagem?
Nesta foto podemos ver cabelo desgrenhado, barba por fazer, casaco puído (caspa?) na gola, olhar e rosto inexpressivo. Nela parece aparente a representação de uma pose de anti-vedeta? Podemos dizer desse modo que o anti-vedetismo faz parte da essência de Lou Reed ? Que outras inferências podem ser feitas? O que é que pode ser visto do exterior dos outros que não passe apenas por um mecanismo de projecção do nosso próprio interior? É possível definir um carácter, apenas parte dele ou imagens são a única coisa que temos do outro? O que é que acontece quando passamos da superfície da imagem para o ser (o que leva tempo), pergunta que parece também estar subjacente à performance de Marina Abramovic?
Monday, February 8, 2010
“These households are simultaneously private spaces for employers and public spaces for employees and ultimately political spaces where race, class and gender inequalities are negotiated. Most these relationships exist at a level of intimacy that is seldom experienced between other employers and employees. These relationships can hold a unique and enormous potential for change and transformation in a society that was previously so conflicted, in part because black and white South Africans led such separate lives. Now you find the women in the house, from different racial, cultural, and economic backgrounds, getting involved in the upbringing of each other’s children, cooking together, drinking tea together, and sharing intimate details of their lives together. The women on both sides of this relationship frequently turn to each other when there is crisis in their lives.”
Caí de cabeça por este trabalho “Interior Relations” de Ian van Coller, cuja parte do “statement” artistico sobre a mesma a contextualiza de forma simples e fundamentada, registo por vezes nada fácil de atingir. Da África do Sul pensa-se de imediato em David Goldblatt cujo estilo não abertamente confrontador parece ter feito herdeiros. As imagens “falam” da História, que se sabe não ser ainda muito pacífica. Porque é que não estamos habituados a ver senhoras negras em casas tão bem arranjadas? Porque é que estas imagens gritam desigualdade apesar do seu ar aparentemente caseiro e reconfortante? Bem fotografado, bem pensado, suficientemente ambiguo para não passar por panfleto político ou sermão moral, semeando possibilidades narrativas, em suma, totalmente aconselhada a vsião no blacksnapper, sítio onde se tem visto excelência curatorial.
Monday, January 4, 2010
A maioria dos retratos contemporâneos exibem rostos introspectivos, sérios, distantes, por vezes quase inexpressivos, seja pelo distanciamento existente entre fotógrafo e fotografado, pela necessidade de resguardo do sujeito que está defronte da câmara ou quiçá, por estratégia artística, pelo que um rosto sorridente é evento raro na fotografia contemporânea. Christian Sinibaldi colmata essa falha de modo magistral.
Monday, December 14, 2009
Da paisagem ao retrato, tudo tem o “toque de midas” deste israelita que recentemente ganhou o prémio Pictet, com um trabalho sobre a China (nas duas primeiras imagens).
Monday, October 26, 2009



Karzceby é a designação polaca para aquilo que fica na terra após o abate de uma árvore – talvez o nosso toco – e também o nome dado aos habitantes de uma região entre a Polónia e a Bielorússia, registados por Adam Pańczuk.
Wednesday, October 21, 2009
Tuesday, October 20, 2009

Já aqui me tinha referido a este trabalho, mas só esta semana o adquiri. O mais fascinante álbum de fotografia que vi este ano.
Wednesday, October 14, 2009

Escort Kama. Enugu, Nigeria, 2008

Azuka Adindu. Enugu, Nigeria, 2008

Chris Nkulo and Patience Umeh. Enugu, Nigeria, 2008
Já aqui tinha referido PIETER HUGO a propósito de THE HYENA & OTHER MEN. Agora, um novo trabalho, desta feita com retratos alusivos à indústria de filmes nigeriana, designada “Nollywood”. Apesar de conter um Darth Vader vestido de forma mais apropriada para outras guerras, não é da indústria XXX que se trata, como se pode ler em ABOUT THESE IMAGES, as quais podem ser vistas em NOLLYWOOD. Trabalhos deste género suscitam sempre comentários acerca de racismo, exploração, forma de retratar, como se pode ler neste artigo e comentários no blog de Amy Stein: A Response to Pieter Hugo’s Photographs. Uma outra opinião acerca deste assunto pode ser lida em British Journal of Photography – Seeing is deceiving?

Inês Gonçalves
Este trabalho de Pieter Hugo fez-me lembrar o projecto que Inês Gonçalves apresentou na Pente 10 em Maio passado, denominado São Tomé – Máscaras e Mitos. “Os retratos que aqui estão são encenações que convivem com outras encenações, são retratos de pessoas que fazem teatro e que aparecem com roupas de teatro, roupas de personagem de teatro.(…) São personagens representadas por grupos que em S. Tomé se chamam Tragédia, grupos que tiram o seu nome daquilo que é, na tradição grega, o género teatral nobre por excelência; um género em que a felicidade e a infelicidade, o bem e o mal, os bons e os maus se encontram em equilíbrio precário, como na vida real.”
Monday, September 28, 2009


A seguir a um dia de eleições, em que nunca ninguém perde nada, Deus contínua no Céu, o Sporting a ser roubado com o FCP, e o único caso estranho é mesmo o do Benfica continuar a ganhar. Politiquices aparte, deixo aqui umas imagens de Olivier J. Laude, Esq, dedicadas à senhora que não sabe porquê.
Tuesday, August 25, 2009
Este trabalho de Andy Freeberg fez-me lembrar o Museum Watching de Elliott Erwitt. Embora aparentem algumas semelhanças, ao fim e ao cabo são pessoas enquadradas com obras de arte, em espaços construidos para o efeito, etc, nesta série a tónica parece estar centrada especificamente no “guarda” da arte. Uma grande chatice, a de guardar a arte, entenda-se.
Monday, August 24, 2009
Olhar de frente utilizadoras de drogas duras, não será propriamente a temática mais fashion no mundo da fotografia. Não é por isso que deixam de ser tremendos, estes retratos de Tony Fouhse.
Monday, July 13, 2009


O retrato é uma daquelas categorias atravessada por uma afirmação, no mínimo duvidosa, de que é algo capaz de reflectir sobre a personalidade do visado. Talvez o desconhecimento do que é a estrutura da personalidade, quiçá a anulação da idéia de que a imagem fotográfica, o rosto do outro ou até o outro na sua esseência, nos sirvam também para a nossa própria projecção e no fundo, auto-conhecimento. Todavia, nem todo o caminho tem que ser projectivo, no sentido do auto-conhecimento. Pode-se ler um retrato como uma narrativa, inventada ou vislumbrada pelos socalcos do rosto. Se nele se deixam entrever os contornos da alma, será apenas por mera coincidência.
A ver, absolutamente, estes retratos de PIERRE GONNORD.
Monday, April 20, 2009
“I think I’ve photographed what I’m feeling myself and recognize in someone else.”
“A portrait photographer depends on another person to complete his picture – the subject imagined – which in a sense is me.”
Richard Avedon, tornado famoso pela fotografia de moda, aparece em 1985 com este espantoso trabalho de retrato, cujo título, embora grandioso, parece
algo amplo para o escopo de personagens que apresenta, certamente deixando de fora uma boa parte do “West”, para representar talvez a parte mais
marginal do mesmo. As almas mais sociológicas interrogar-se-ão a respeito desse âmbito, mas é provável que essas dúvidas façam mais sentido à luz do academismo actual, do que propriamente ao tempo a que o trabalho se reporta ou até à intenção com que foi feito. Parecendo estranho que um fotógrafo de grandes plateaus se dedique a “marginalidades”, o certo é que Avedon pareceu, ao menos externamente, lutar contra o rótulo de fotógrafo de moda.
Neste artigo são analisadas as suas idéias sobre as noções de verdade fotográfica, de autoria, de identidade e de sentido da fotografia, não tanto como parte de uma discussão teórica, mas como sentido de auto-descoberta através de acto de fotografar outros, vale a pena ler.

Sunday, March 29, 2009
Há qualquer coisa de mesmerizante nesta série Evolution, de Ted Sabarese
Thursday, March 19, 2009






Fiquei de postar aqui mais alguns retratos feitos durante o Carnaval, aqui está o prometido. Esta série, sobre a qual ainda não tenho um título que goste, aponta em várias direcções ligadas à noção de identidade e auto-imagem; a fotografia como mecanismo reconfigurador da auto-imagem (prótese) e o uso das próteses (cabeleiras, seios falsos, maquilhagem, etc) nesse processo.
Thursday, February 26, 2009
© Martin Schoeller – Irene Andersen
© Martin Schoeller – Sarah Bridges
© Martin Schoeller – Sarah Dunlap
© Martin Schoeller – Nadia Nardi
Gostei desta série de Martin Schoeller, a ver no site da ACE GALLERY, o feminino sai valorizado mesmo perante a forte dimensão máscula dos corpos. Escolhi exibi-la como contraponto ao trabalho que tenho vindo a mostrar ao longo desta semana, que pode ser visto nos posts abaixo, onde são retratados indíviduos que assumem uma máscara do género contrário ao seu próprio género, sobretudo homens mascarados de mulher, num contexto carnavalesco, mas que, como tive oportunidade de ir percebendo, nalguns casos as máscaras pareciam esconder uma realidade identitária algo diferente. Aqui são retratadas mulheres, cujos corpos são fortemente masculinizados devido à prática do culturismo, fazendo-o num contexto regular, não como máscara. Todavia esta prática pelas mulheres certamente levanta questões não só quanto ao papel do género (gender role), como às formas de representação mediada do corpo feminino, e sem dúvida quanto à própria identidade do género, aqui sim cruzando-se com as “identidades trocadas” do Carnaval.
Wednesday, February 25, 2009
Mais uma imagem desta série que iniciei este ano, aqui no Carnaval de Torres. Em breve postarei algo mais abrangente sobre este trabalho de retrato, de certo modo conectado com outros interesses que persigo, quer ao nível da fotografia quer da Psicologia, ligados não só à identidade como ao papel do género.

Tuesday, February 24, 2009
A propósito da apreensão pela PSP de Braga de um livro cuja capa, reproduzindo um quadro de Courbet, foi considerada pornográfica pelos agentes. Efeitos carnavalescos…

Monday, February 23, 2009
Já tinha explicado aqui, mas se não acreditam aí está a prova…

Sunday, February 22, 2009

Vou aproveitando o Carnaval aqui de Torres para tentar alinhavar um pequena série sobre as famosas matrafonas, mas é tudo quanto a mulheres, pois que as do Magalhães, até agora nem vê-las… um autêntico mi(nis)tério público! Entre encontrões, cerveja entornada por cima do material, recusas, curiosidades, piropos, frio, os besanos que não colaboram e uma valente constipação que mal me deixou voz para falar, quando aqui é preciso GRITAR com as topomodels, lá me vou mantendo à tona…
Tuesday, February 10, 2009
Petaouchnöck, o lugar de que sempre se falou mas que nunca existiu, mas que afinal existiu, ali, num canto escondido da Fábrica Braço de Prata, prova disso aqui está, este retrato, por lá tirado nos idos de Outubro de 2007, depois disso, Petaouchnöck, qual espaço mágico, voltou à inexistência, enquanto que o Michel, anda sapateando por aí.
Thursday, February 5, 2009



Devia começar pelo “e porque hoje é quinta-feira” mas corro o risco da piada passar desapercebida, portanto início o post afirmando apenas que a fotografia americana tem destas coisas espantosas, a flexibilidade de acolher, apoiar, publicar, premiar e até subsidiar, autores que transparecem para o papel, algumas janelas opacas das suas vidas privadas. Nesta série, auto-retratos de Juliana Beasley, que pode ser vista também no blogue da autora em Juliana’s Lovely Land of Neurosis. Quanta desta demarche não está hoje em divída para com Robert Mapplethorpe e sobretudo Nan Goldin, é a interrogação. Cá pelo burgo, como estamos ainda longe destas fronteiras, aliás imagino o reviralho, se alguma ex-stripper aparece por aí a fazer “fotografia contemporânea”… a menos que junte DR no prefixo, ou apresente passagem por alguma London School, então aí, já não digo nada.
Voltando ao assunto, parecem coexistir duas grandes divisões nos tipos de abordagem corrente na fotografia, a “janela sobre o mundo” e o retrato intimo ou “janela sobre mim”, a segunda em clara inferioridade de projectos em relação à primeira, o que, evidentemente, nada diz da qualidade dos mesmos. A fotografia sempre foi bem acolhida como uma forma de “cartografar” o mundo, que embora se debruce sobre a extensão, envolve também a noção de profundidade, de análise, o que de certo modo parece esbater a linha divisória entre esses 2 tipos, ainda que a posição dominante actual pareça ser a de obliterar a “psique” do fotógrafo, na sua dimensão de juíz de valor, de quem tem uma posição, de quem analisa e interpreta, tudo isso em prol de e sob a capa do estudo antropológico, ainda que também ele, fruto de alguma mente que observou e que porque o fez, alterou o próprio estado do observado. Há quem prefira um tipo de fotografia a outra, por vezes considerando que o geral é mais interessante que o particular, ou que o colectivo é mais interessante que o individual, no entanto creio que o interesse de um projecto talvez possa depender não apenas da extensão, mas também da profundidade com que o objecto é trabalhado. Obviamente que os espíritos mais académico-estatísticos preferem sempre a infalibilidade da amostra, eventualmente sob a (falsa) capa do maior interesse gerado, mas se é esse o racíocinio de “sucesso de bilheteira” que vai ditando o curso das escolas de fotografia (porque é que haveriam de ser diferentes das outras escolas?), então talvez o dinheiro seja mais bem gasto em lap dances.
Monday, January 26, 2009

Série de Pieter Hugo parcialmente exposta no Museu Glubenkian no ano passado, da qual gostei bastante em termos pictóricos, ainda que discorde da “domesticação” exposta.