Dois artigos interessantes: em The problem with regarding the photography of suffering as ‘pornography’, a possibilidade da fotografia se ter tornado numa ameaça à empatia, e se ao invés de um factor de motivação e informação, se transformou num de inacção. Embora gire persistentemente em torno da incorrecta utilização do termo “porn” como qualificativo de determinados tipos de imagem, ignorando talvez a sua utilização numa escrita menos académica e precisa, não deixa contudo de levantar outras questões importantes. Um outro artigo próximo deste, Nikons and Icons – Is the aestheticization-of-suffering critique still valid?, onde David Levi Strauss patroneia a dificuldade na representação da dor do Outro.
Arquivo de ‘teoria’
photography as “pornography”
Fotografia e Verdade – Uma História de Fantasmas
imagem da mulher
A Teoria do Arquivo
Nota introdutória a um trabalho desenvolvido para cadeira no âmbito do Mestrado em Comunicação e Arte, pela Sara Magno, que partilha no seu blog outros artigos relevantes para a teoria fotográfica. Com a proliferação de estudos avançados e superiores de fotografia por esse país fora, a par da possibilidade de publicação virtual, seria de esperar maior intensidade neste tipo de partilha. No entanto tal parece não estar a acontecer, pelo que se louva ainda mais a iniciativa da Sara. Quem ousar publicar ou tiver no seu site artigos de autor, contacte-me para mencão ou publicação aqui no blog.
the medium is the massage
fotografia e realidade, parte 2/3
“Verdade, realidade, criei-as ou fui por elas inventado?” Gastão Cruz
Dois artigos interessantes, O instante indeciso e O instante indeciso (2), ambos laudatórios da exposição de Augusto Alves da Silva que esteve recentemente patente em Serralves. No primeiro desses artigos, o autor desenvolve o punctum que as imagens lhe suscitaram, no segundo vai mais longe e dispensa o punctum, lançando-se numa asserção sobre a fotografia e o real.

Nesses artigos sugere-se que a pintura e a escultura são menorizadas em relação à fotografia, pelas características de artificialidade sobre o real que convocam, enquanto que na fotografia é possível obter um “puro retrato da realidade“. Segundo o autor, essa ligação privilegiada entre fotografia e realidade baseia-se no facto que “a fotografia é um animal diferente. Sobretudo quando se despe (aparentemente, pelo menos) de encenações e de efeitos intrusivos. E quando dispensa ligações a histórias, a acontecimentos“. Na sequência desta frase é sugerida uma imagem de Philip Lorca-diCorcia, da série Hollywood, que contudo não pertence à série de fotografias apanhadas à má-fila (suponho que se refira á série Heads) pelo que parece tratar-se de um equívoco, em que se colocou uma imagem de uma série, quando eventualmente se pretenderia colocar de outra. Parece complicado justificar uma posição acerca da fotografia “que se despe de encenações e que dispensa ligações a histórias e a acontecimentos” através de uma imagem encenada e que sugere uma estrutura narrativa que tende a assentar em história e acontecimentos.

Todavia o autor continua firme nesse pressuposto, o que pode ser confirmado através da argumentação que tem com um comentador – que por sinal é fotógrafo conhecido – alvitrando a hipótese de que qualquer imagem de ambas as séries teria a mesma função(?!), e então sim, é-nos mostrada uma imagem da série Heads. Mas não interessa mapear o equívoco, se aliás o houve, interessante seria perceber de que forma ambas as imagens justificam o que se pretendia atestar.
Em dado momento é colocada a seguinte questão “Todos sabemos que uma fotografia não mente, não é?“, que faz menção a um dos suportes da teoria barthesiana, onde se defende que a imagem não mente quanto à existência do objecto, mas que tal é inevitável quanto ao sentido ou significado do mesmo. Se a questão preconiza mera provocação ou ânsia da mais pura verdade, fica a dúvida. No entanto, o sentido de ambos os artigos parece apontar para a existência de um momento que não é ambíguo, uma verdade total, que na fotografia é possível demonstrar (se estiver de acordo com as condicionantes exaradas pelo autor). Mas existirá tal momento? Por outro lado, será plausível que na verdade resida a mentira (ambos os termos são complicados, o que é uma e o que é outra?) e vice-versa, sendo essa ambiguidade ou possibilidade simultânea (tal como nos átomos da Física Quântica) um dos aspectos que melhor parece definir as imagens, talvez até mais que o silêncio opaco com que devolve o eco das representações que lhe são atríbuidas? Noutro âmbito e se bem entendi, a noção de supremacia da fotografia em relação às artes plásticas parece advir do valor de indexação ao real que a fotografia possui, todavia esse valor aparenta degradar-se se estiver ligado a histórias e acontecimentos ou “contenha artifícios”. Seria interessante perceber de que forma é que isso acontece, mas tal não é explicado, apenas se diz que umas são melhores “em mostrar o real” que outras, embora confesso, não tenha percebido porquê.
Continuando pelo “ O instante indeciso (2)”, na caixa de comentários o autor escreve que “a percepção de realismo, de verismo intocável de uma fotografia despojada e aparentemente anti-teatral existe e opera na mesma, quer se trate de imagem encenada, espontânea ou até manipulada“, dando a entender que qualquer fotografia, desde que despojada e um novo termo é aqui introduzido – a anti-teatralidade – tendem a operar um efeito de realismo e de verdade. Sendo a questão da anti-teatralidade sem dúvida interessante, o seu principal arauto, Michael Fried, não parece ir tão longe na asserção de que a anti-teatralidade conduza a maior percepção de realismo/veracidade, mas que apenas se estabelece uma relação menos bem determinada com o espectador. Já o despojamento, imagina-se que seja alusivo às alterações conducentes a uma percepção desnaturalizada da realidade, e nesse ponto, seria interessante perceber se considera o preto e branco um reordenamento do real ou um artifício, pois nesse caso algumas imagens de Jeff Wall teriam que ser postas de parte para esta tese. E sobre a pintura e fotografia que não respeita os critérios de “não olhar o espectador”, por exemplo os retratos frontais de Thomas Ruff ou Rineke Dijkstra? De qualquer modo é de realçar que o autor menciona o termo “aparentemente anti-teatral” provavelmente destituindo-o de alguma importância nesta validação do realismo e de verdade.
Estas deambulações parecem apontar à desvalorização da imagem como documento, quiçá, da fotografia documental? Ou trata-se de firmar a supremacia de determinado tipo de estratégia fotográfica (apropriação, encenação, etc) em detrimento da fotografia straight/documental? No catálogo da exposição “Arquivo Universal” que se pôde ver no Museu Berardo em 2009, o curador, Jorge Ribalta, afirma a dado momento que “o triunfo da fotografia enquanto arte, é a sua completa derrota enquanto documento”. Embora a frase possa ser encarada em várias direcções, esta estratégia de “isto” ou “aquilo” parece desenquadrar a imagem das suas próprias caracateristicas, uma imagem nunca é isto ou aquilo, antes parece ser isto e aquilo em simultâneo. Valerá a pena estabelecer uma hierarquia? Arte e documento completam-se ou nem sequer deveriam existir como definições para o fotográfico?
A continuar.
Parte 1, fotografia e realidade, parte 1/3
ComentarGeorges Didi-Huberman em Lisboa

Filósofo francês que tem escrito sobre fotografia, para o qual ainda aqui recentemente publiquei uma nota. O livro onde escreve sobre as quatro imagens que sobreviveram a Auschwitz, pode ser adquirido na Livraria Trama. Amanhã estará em conversa no Instituto Franco-Português e participará no colóquio Aby M. Warburg – Qual o tempo e o movimento de uma elipse? na Universidade Católica e na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, a 15 e 16 de Abril de 2010.
Livros: O olhar moderno – A fotografia enquanto objecto e memória

“Ao trabalhar a questão da memória pessoal através da fotografia, da sua relação com a recolecção e a rememoração, Maria João Baltazar convoca o que de mais fascinante possui este medium, na medida em que sublinha e analisa o carácter perturbador e indecidível da fotografia privada – bem como de qualquer uma. Mas é neste nó górdio que reside, muito provavelmente, a razão pela qual o debate sobre a fotografia e a sua história tem sido tão tortuoso.“
Não há recensão, pois só hoje mandei vir um.
Comentarcontra mundum
“s/título”, da série capital reflex
“Criar não é imaginação, é correr o grande risco de se ter a realidade“. Clarice Lispector
Contra Mundum é um blog que anda à volta da crítica de poesia e de literatura. Excluindo falsas modéstias, são matérias nas quais me considero um leigo, todavia nele vou encontrando preocupações que podem ser comuns à fotografia, quanto mais não seja pela natureza eminentemente estética que é comum a todas as artes. Sem que se pretenda operar uma substituição simples das palavras pelas imagens, veja-se por exemplo neste O Viajante Sem Sono: “dizer a graça, dizer a beleza ou dizer a dor, não é, ao nível da literatura, apontá-las com o dedo, é produzi-las enquanto palavras” ou ainda “indicar a luz ou a escuridão enquanto experiência literária não é enunciá-las como se o seu referente pudesse caber nas palavras, é produzi-las enquanto experiência nas e apesar das palavras.“ Interrogações da mesma ordem podem ser produzidas sobre fotografia. A imagem pode ser uma experiência de representação, mas de que modo poderá ela ir além do seu carácter eminentemente reprodutivo e produzir a beleza, a dor ou análogamente qualquer outra experiência, ou consistirá já essa reprodução um acto de “produzir o mundo”?
Num outro artigo Manuel de Freitas, INTERMEZZI, OP. 25 lê-se que “é pobre a poesia que se produz para se enunciar como escrita e que não assume que é, como todas as artes, ao mesmo tempo termo de mediação para o mundo e lugar de produção do próprio mundo. É grande, como em alguns dos textos deste livro, quando se assume como parte do movimento de dizer o mundo, de produzir o mundo.“
Este aspecto qualitativo parece querer evidenciar que a representação (mediação) e a produção (do mundo) são indissociáveis e diferentes, embora o produto final pareça conter os dois ingredientes de uma forma que os torna potencialmente indistinguíveis.
Alguma fotografia parece ter-se já liberto da necessidade de representação mimética da realidade e ao fazê-lo, ter-se-á libertado também da possibilidade de ter que lhe atribuir um sentido, mesmo reiterando a hipótese do não-sentido, poder ela própria ser uma forma de interpretação. No entanto, a imagem de cariz mais documental ainda tende a assumir uma caracteristica de representação ou de mediação do mundo, sendo desse modo passível de atribuição de um sentido ou de ser interpretada. Mas em que medida é que a imagem produz também ela o mundo? Não sei se a resposta pode ser lida nas entrelinhas desta citação do filme Videodrome (1983) de David Cronenberg “The battle for the mind of North America will be fought in the video arena: the Videodrome. The television screen is the retina of the mind’s eye. Therefore, the television screen is part of the physical structure of the brain. Therefore, whatever appears on the television screen emerges as raw experience for those who watch it. Therefore, television is reality, and reality is less than television.“ Se uma imagem parece poder produzir uma experiência, é desse modo que “produz o mundo” como preconizam os excertos do contra mundum? É a intenção com que é produzida, a estética ou um misto de ambas que faz com que tal aconteça?
Outras questões se levantam e que se prendem sobretudo com o termo “mediação”. O acto de mediar envolve subjectividade, interpretação, alguns autores refutam influenciar, comentar, ou a inclusão da sua própria verdade subjectiva (veracidade), contudo a riqueza da fotografia documental parece residir também na sua capacidade (qualidade) para interpretar. Poderá ser desequilibrada a interpretação que assume foros demasiado subjectivos, perdendo em objectividade, mas o contrário também pode ser verdade, os mecanismos de interpretação parecem falhar quando perseguem uma lógica de extensão em detrimento da profundidade, de verdade em detrimento da veracidade, de objectividade contra a subjectividade, quando uma interpretação ampla tenderá a conter um equílibrio entre estes dois pólos.
Quando se fala no constante bombardeamento visual a que estamos sujeitos, residirá essa trágica metáfora na quantidade ou na qualidade da interpretação/mediação/representação dessas imagens? Do lado do receptor está sempre a possibilidade de recusa, uma recusa inteligente que visa não apenas proteger, mas sobretudo criar/produzir outra realidade diferente da que por vezes é proposta e que (amiúde) de forma passiva se assume como adquirida, determinista e imutável.

Quantas legendas vale uma imagem?
“Attentive viewers may have noticed another dimension to the scene, however. There are several tensions, subtle yet troubling, that can guide reflection. First, there is more to the man, if you will look for it. He is brooding it seems, an attitude that resonates with the long shadows from the late afternoon sun. And that sunlight gilds his face and his hand: the face is taut with interior life, and the gesture and veins of his hand suggest strength and skill. Together they may signify the dignity of labor, and so this photograph can channel the realism and progressive sentiments of genre painting.”
When Poverty Doesn’t Catch the Eye no blog – de título irónico – NO CAPTION NEEDED.

Beleza ou Inteligência?

©ThomasRuff, da série Jpegs
“Pergunto porque é que a apropriação, a alienação, a análise e a nulificação substituíram a perseguição da beleza? (Thomas Ruff) Faz uma pausa antes de responder: É talvez porque a fotografia tem sido tão mal utilizada, que eu penso que você tem que ser muito cuidadoso quando está a olhar para uma fotografia. Há que saber as circunstâncias sob que foi feita – porque de outra maneira você não pode a ler, ou você poderia entendê-la mal, ou a imagem pode ser mal empregue. Dado que a fotografia é um meio tão realístico, parece mostrar-nos que tudo aquilo para que olhamos, estava efectivamente na frente da câmera. Mas entretanto não estava.” Ver a entrevista com Thomas Ruff.
Não obstante a resposta ser algo enviesada em relação à pergunta feita, Thomas Ruff discrimina um dado que me parece de destacar, que é o da importância de saber as circunstâncias em que a fotografia foi feita. Embora a ênfase para a “veracidade, bom uso, etc” se possa encontrar no conhecimento da fórmula de produção, tal proposição parece incompleta, pois esse conhecimento não parece bastar para que de modo automático se atinjam aqueles objectivos. A fotografia é um objecto de tal modo dualista, que em simultâneo aponta para fora e para dentro, pelo que o mau uso da mesma poderá ser assacado em várias direcções. Por outro lado, ao se ver sujeita e equiparada às ciências sociais e ao academismo, seria óbvio que na fotografia começariam a sobressair as qualidades mais do domínio do racional, em detrimento da estética, como esta série Jpegs de Thomas Ruff parece querer demonstrar.

Livros, Teoria & Fotografia
Quando se fala da produção teórica sobre fotografia, apesar de inúmera e abundante, a conversa parece desembocar amiúde nos suspeitos do costume, Susan Sontag com “On Photography” e “Camera Lucida” de Roland Barthes. Tirando estes, os prováveis bestsellers do mundo fotográfico poderão girar em volta do como fazer, todavia não deixa de ser importante pensar que a fotografia contemporânea parece tratar menos de botões e regras dos terços, antes sendo amparada no seu percurso por visões menos perfunctórias.
Um dos livros que recentemente adquiri é Basic Critical Theory for Photographers. Apresentado em 13 capítulos, nele são sintetizados e analisados alguns dos escritos mais influentes na fotografia contemporânea, aliás basta fazer o “click to look inside” para se perceber que praticamente se baterão todas as áreas importantes de pensamento sobre a fotografia. No final de cada capítulo, são propostas discussões e aproximações à matéria discutida, tornando esta edição da Focal Press bastante apetecível a professores e alunos. De linguagem acessível a leitura vê-se facilitada, concedendo acesso simplificado e útil a diferentes tipos de exigências, é no entanto de enfatizar que se tratam de sinopses, de escritos que foram publicados na integra e fundados em imagem, pelo que se vêem aqui algo modo díminuidos da sua totalidade, o que não impede uma função essencialmente didática e que claramente visa ensinar a pensar fotografia.
Provavelmente o mais complexo dos 3 livros aqui expostos, Why Photography Matters as Art as Never Before. Confesso que o vou lendo a conta-gotas, tal a densidade da escrita, da informação nele contida e da profundidade com que noções sobretudo ligadas à pintura aqui são transpostas para a fotografia contemporânea. A história de Arte está amplamente embebida no ADN deste livro, ou não fosse o seu autor um expert na matéria, no que não deixa de ser uma leitura fascinante, que satisfazendo os amantes de profundidade teórica, poderá contudo alienar os mais tímidos de conhecimento. Aconselha-se contudo persistência, pois nele são analisados autores de peso da fotografia contemporânea, Jeff Wall, Hiroshi Sugimoto, Cindy Sherman, Thomas Struth, Thomas Ruff, Andreas Gursky, Luc Delahaye, Rineke Dijkstra, Patrick Faigenbaum, Roland Fischer, Thomas Demand, Candida Höfer, Beat Streuli, Philip-Lorca diCorcia, Douglas Gordon and Philippe Parreno, James Welling, and Bernd and Hilla Becher. Uma provável futura referência no mundo da arte fotográfica, aqui fica uma entrevista com o autor em ArtReview Magazine Features Michael Fried: Why Photography Matters e uma outra conduzida por Carlos Alves em Diálogo com Michael Fried e uma longa digressão pela história da arte, de Giotto a Caravaggio e de Caravaggio à fotografia actual
O mais “leve” deste lote é The Photograph as Contemporary Art, cujo intuíto é o de sobrevoar e catalogar possíveis motivações e expressões da fotografia contemporânea. 7 capitulos, correspondentes a outras tantas “estratégias”, que assentam mais na “idéia” que está por detrás da imagem que na prática visual propriamente dita, embora não se desconsidere o aspecto estilistico num eventual agrupar de tendências, que se vêem aqui amplamente ilustradas através de diferentes categorias, do conceptual ao narrativo, o deadpan, as relações pessoais, o documental, terminando nos limites da fotografia. Estimulante, ainda que sem ambições “pesadas” em termos teóricos, contribui para uma entrada no mundo da fotografia contemporânea, lendo-se de um fôlego.

Arte, Política e Activismo
Este post de edward_winkleman discute como o resultado de um trabalho que se proponha mudar opiniões acerca de um assunto político pode ser considerado como propaganda, logo deixando de ser arte, e um outro, apresentado tão honestamente quanto se possa acerca daquilo que se vê, tenha então o seu estatuto legitimado como trabalho artistico, tudo estando dependente da intencionalidade do artista na sua elaboração. Exemplifica a sua tese recorrendo ao trabalho de um artista iraniano A1ONE Urban Communication in The way of an Iranian گرافیتی que afirma “I am not about politics. But i am interested on social subjects”.
A questão da intencionalidade é fulcral, mas complicada é sem dúvida a percepção sobre a intenção, ou não será esse o maior jogo de equívocos? Em que momento é essa intenção gerada? De que forma é alimentada? É clara e assumida ou o contrário? Mesmo sendo-o, está o receptor na posição de a receber de forma neutra ou está logo à partida concatenado pelas suas próprias intenções?
O que parece também ser explorado neste post é a percepção – negativa – daquilo que é política, na sua expressão corrente entendida como algo que é subjectivo, distante das inconveniências e que se faz de acordo com os objectivos de uns tantos, em detrimento de outros. À semelhança da política, a arte proselitista, que visa impedir o pensamento autónomo, parcial, manipuladora da verdade, deverá ser rejeitada em favor da arte com qualidades opostas às descritas. Deixando de lado os adornismos de que toda a arte é política, pois haverá sempre quem diga que sim e o contrário, não parece tanto estar em causa a política ou a arte, antes a forma como é feita, ou a intenção. Parece não existir dúvida que uma das funções da arte será a de servir a um mundo melhor, assim sendo, de que intenções poderá a arte servir-se para atingir esse fim, que não sejam a capacidade de permitir que cada um tenha as suas próprias experiências, que cada artista siga a sua verdade interior, que simplifique, abrindo espaço à experiência, que permaneça numa atitude positiva, que sirva o Outro, que partilhe uma visão, que busque sinergias e que com elas se possam expressar alegria, amor e liberdade? Não vejo como isto possa ser político, mas também não vejo como possa deixar de ser…
Comentar“of course we were freaks”
‘Of course we were freaks’ – An interview with Hilla Becher - Bernd e Hilla Becher formaram o casal que esteve na origem da tendência dusseldorfiana, de grande importância para a fotografia contemporânea, sobretudo no que diz respeito ao tratamento objectivo da imagem, enquadrado numa prática de Arte Conceptual, mais pensada, mais lógica e racional, menos elitista, mais crítica do sistema capitalista e do “sistema” artístico. A história parece ter absorvido a rebeldia inicial, tornando-o num dos movimentos dominantes da fotografia contemporânea, que pode ser melhor entendido também através das fotografias de Ed Ruscha, Jeff Wall, et al, e sobretudo através de muita da produção teórica que o acompanhou, face à preocupação com o texto inscrita na génese do Conceptualismo enquanto movimento artístico.
Como não fotografar
«It’s simple stuff, but simple is good, especially in photography, which is basically a monkey art. Writing isn’t a monkey art. You can give a bunch of monkeys typewriters and it’ll take them a squillion years to come up with the works of Shakespeare. Give a bunch of monkeys (or better still bonobos) an old Yashica, an unlimited amount of film (and some orang-utan assistants to change it) and presto, you’ll have the works of Ryan McGinley in no time at all.»
Os leitores literários do blog certamente ficarão por cima, depois desta introdução a uma série hilariante/angustiante – riscar o que não interessa – do inglês Colin Pantall, que, se fotografar tão bem como agita a pena, já ganhou a taça deste ano, com esta bem disposta reflexão teórica que se chama Como não fotografar, publicada aqui.



